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«Temos de acompanhar a evolução»

Aos 46 anos, a Tiva mantém intactos o espírito aberto e a vontade de desbravar novos caminhos que ditaram os seus primeiros passos no mercado. A mais recente prova desta estratégia é a adesão à plataforma de comércio eletrónico Springkode, que abre novas perspetivas para o futuro da empresa de confeção.

Paula Gomes

Quando recebeu o convite para integrar a Springkode, a administração da Tiva não hesitou e embarcou no negócio digital, tendo sido uma das primeiras a colocar peças online. Hoje, conjuga a produção em private label com a criação e confeção de artigos para a plataforma de comércio eletrónico.

Uma estratégia alicerçada no know-how do passado com uma visão para o futuro que Paula e Fernando Gomes, os administradores da Tiva, juntamente com as filhas Maria, diretora comercial, e Joana, diretora de marketing, querem continuar a dinamizar.

Como encararam o desafio lançado pela Springkode?

Paula Gomes – Achámos uma boa ideia. Faz todo o sentido as pessoas terem acesso a um produto que está no mercado implementado em termos de marca – um produto muito parecido, a preços muito mais interessantes.

Maria Gomes – Também achei logo boa ideia porque sempre comprei imensas coisas online. Aliás, acho que compro mais online do que propriamente em loja. Muitas vezes vou primeiro ver à loja e depois adquiro online para não ter trabalho a carregar as compras. Pensei que era uma boa ideia porque eles oferecem o design e a qualidade das grandes marcas, para quem nós e os outros parceiros trabalham, a preços muito atrativos.

Joana Gomes – É genial, porque a maior parte das pessoas anda atrás das fábricas para conseguir produto de fábrica com boa qualidade e nacional. A Springkode acaba por compilar, numa só plataforma e numa só loja, tudo isso. Com outro glamour, com outro conceito que não havia até então, porque a roupa de fábrica tinha, se calhar, uma conotação menos positiva. E a Springkode consegue essa parte positiva do que é o “made in Portugal”.

O facto de ser um produto europeu e de fábricas que trabalham com grandes marcas internacionais constitui inegavelmente uma mais-valia…

Paula Gomes – …aqui a grande questão é as pessoas perceberem que estão na realidade a comprar qualidade e que podem comprar produtos muito semelhantes, e às vezes até de qualidade superior, àquilo que têm quando compram uma etiqueta xpto. Porque as pessoas que compram uma etiqueta xpto não compram a qualidade, não querem saber. Querem comprar a etiqueta, a marca. E se as pessoas percebessem que aquilo que podem comprar na Springkode é um produto muito semelhante, exatamente da mesma gama que compram e que pagam 15 e 20 vezes mais por uma etiqueta xpto, acho que isto teria muito mais pernas para andar. A questão é o consumidor final não perceber isso. Aquela mentalidade de “vou comprar aquela etiqueta” está ainda muito enraizada. E depois aquelas pessoas que compram artigos mais baratos, se calhar para elas, este nível de preço já é elevado. Apesar da boa qualidade, já é elevado. Há um bocado esta dualidade que não é fácil de ultrapassar.

Joana, Paula, Fernando e Maria Gomes

A adesão ao projeto, para uma empresa de cariz industrial, implicou algumas mudanças?

Paula Gomes – Não propriamente. Temos que pensar neste projeto em alturas de menos pico, menos movimentadas. E é isso que tentamos fazer.

Mas já havia uma experiência de desenvolver peças completamente vossas dentro de portas?

Paula Gomes – Sim, já íamos fazendo alguns desenvolvimentos internos. Cada vez mais na indústria, os clientes vêm e querem ver o que temos para oferecer. Querem ver novidades, querem ter coisas novas, querem saber o que os outros querem saber e cada vez menos vêm com ideias exatas daquilo que querem. Portanto, cada vez mais temos que desenvolver novidades internamente para lhes apresentar.

Quais são as valências da empresa em termos de segmento de produto?

Paula Gomes – Fazemos homem e senhora, porque quem faz senhora, muito facilmente faz homem. E fazemos confeção só em malha e em mistura de tecido com malha. Também conseguimos fazer confeção só em tecido, não é problema nenhum, mas há fábricas especializadas só em tecidos. E nós, em termos competitivos e em matéria de preço, acho que não acompanhamos, porque não é de todo o nosso core business.

A Tiva sempre trabalhou exclusivamente em regime de private label?

Paula Gomes – Sim, sempre foi assim. Aliás, a Tiva começou mais com o mercado interno, fazia basicamente interiores e havia dois ou três clientes já com exportação. Contudo, nessa altura, os clientes chegavam, diziam o que queriam de estação para estação. Era tudo muito fácil porque as cores passavam de estação para estação, eram sempre as mesmas. Os modelos, ou com carapuço ou sem carapuço, ou mudava o estampado, mas a qualidade da malha era sempre a mesma. Era muito fácil trabalhar e os clientes sabiam exatamente aquilo que queriam. E também sabiam que, à partida, o produto estava vendido.

Que quota de exportação possui atualmente a empresa?

Paula Gomes – Quase 100%. Trabalhamos ou diretamente com as marcas ou via agente. Há dois anos fizemos qualquer coisa em termos nacionais porque trabalhamos com a Decenio e a Lion of Porches. Mas basicamente é tudo para exportação.

Quais são os principais mercados dos produtos fabricados pela Tiva?

Paula Gomes – Os nossos principais mercados são a França, Itália, Inglaterra, Bélgica e EUA.

Maria Gomes – E Holanda.

Quanto representa o mercado europeu?

Paula Gomes – A Europa representa entre 85% e 90% das nossas vendas.

Qual é o perfil do cliente da Tiva?

Paula Gomes – Trata-se de um cliente de gama média-alta, como a marca francesa Sandro, por exemplo.

Maria Gomes – Não trabalhamos para department stores, somente para marcas.

Que volume de negócios registou a empresa no último exercício fiscal?

Paula Gomes – Faturámos cerca de 2 milhões de euros em 2018, que tinha já sido sensivelmente o volume de negócios registado no ano anterior.

Quantas pessoas trabalham hoje na Tiva?

Paula Gomes – Neste momento somos 34 pessoas, mas temos empresas subcontratadas em termos de confeção. Obviamente que estas peças [da Springkode], uma peça de cada vez quando é preciso fazer, fazemo-las internamente, não as entregamos às subcontratadas

Em termos de desenvolvimento de produto, como se organizaram internamente a partir do momento em que começam a criar propostas para a Springkode?

Paula Gomes – Temos, efetivamente, de desenvolver e apresentar sempre alguns modelos e esses modelos podem ser integrados na Springkode. Todas as estações temos coleções e desenvolvimentos a fazer para as marcas. Obviamente que há sempre uma tendência e tentamos acompanhar essas tendências, quer seja de cores, quer seja de qualidade de malha, quer seja este ou aquele pormenor de determinados modelos. Claro que não podemos copiar, mas há sempre uma tendência que tentamos seguir.

Com quantas peças começaram?

Paula Gomes – Fizemos cerca de seis modelos em novembro e agora temos cerca de 12.

A plataforma ficou online na passada estação fria e agora estamos numa estação quente. As propostas são trabalhadas numa ótica outono/inverno e primavera/verão?

Paula Gomes – Cada vez mais há menos estações definidas. Acho que as pessoas têm no armário, o ano todo, as mesmas peças. Porque vestem uma t-shirt o ano inteiro, quer seja verão, quer seja inverno. Assim como no verão precisam de uma sweatshirt quando está mais frio.

Como fazem a gestão de stocks?

Paula Gomes – Nalgumas situações temos peças feitas, noutras situações, quando não temos, fazemos de um dia para o outro.

Que expectativas têm para esta parceria com a Springkode?

Paula Gomes – Rigorosamente nenhumas. Alinhámos porque realmente acreditamos e percebemos que tudo tem um começo, há que dar tempo ao tempo. Sabemos que nestes tempos iniciais, a expectativa é nenhuma. Portanto, estamos a acreditar e vamos esperar para ver o que acontece.

Maria Gomes – Desde o início fui das pessoas mais entusiastas com a parceria, sempre achei uma ideia brilhante. A única dificuldade na Springkode foi eles transmitirem-me o conceito, porque as pessoas ainda ligam muito à marca. E o facto de comprarem um artigo sem etiqueta para muitas delas ainda é um grande handicap. Mas também acho que, na minha geração, as pessoas já não gostam de andar vestidas todas iguais. Acho que a Springkode tem isso de bom, porque são produzidas poucas unidades e não vai haver tudo igual, além de que são produtos de qualidade. Acho que isto tem pernas para andar e acredito muito no projeto.

Paula Gomes – Eu também acredito e acho que temos de acompanhar a evolução. Acreditar em novos modelos de negócio, porque na realidade é um novo modelo de negócio. Temos que acreditar nele, temos que apostar, temos que investir. Da nossa parte, vamos ajudar, inovar, implementar e depois o resto do trabalho terá que ser a Springkode a fazer. E é nisso que realmente acreditamos. Vamos esperar que cresça e que dê frutos.

Fernando Gomes – É o futuro. A juventude é que dita o futuro. Eu vejo todos agarrados às compras online, portanto temos que nos agarrar a isso.

A Tiva foi fundada em 1973. Qual é o segredo da longevidade da empresa num mercado cada vez mais global e, por isso mesmo, concorrencial?

Fernando Gomes – Distinguir-se ao nível do artigo. Fazer um artigo de valor acrescentado, coisa que aqui há uns anos se dizia que era uma loucura, não se faturava… Mas penso que o futuro caiu para aí e foi isso que nos trouxe até aqui.