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«Temos de estar sempre à frente, nunca estarmos satisfeitos»

Sempre atenta ao que a rodeia, numa cidade ou numa feira, a diretora de criação e design da Somelos Tecidos, Gabriela Melo, desvenda as inspirações, a metodologia e a estratégia da equipa para criar sazonalmente a oferta da empresa portuguesa que é vista, garante, como uma trendsetter em todo o mundo.

Gabriela Melo

Da sustentabilidade à maior importância da moda casual, com propostas para homem e senhora – esta última uma aposta recente –, a coleção da Somelos Tecidos para o outono-inverno 2020/2021 abrange, segundo Gabriela Melo, diretora de criação e design da empresa, as diversas tendências que estão a marcar a estação.

Quais são os grandes temas da coleção para o outono-inverno 2020/2021?

Para homem, foi pensada para aqueles que gostam de viajar, de estar no mundo. Temos tecidos em algodão/elastano para quem viaja e gosta de se sentir confortável. Para a mulher, que hoje em dia tem um papel fundamental na sociedade, temos uma gama muito grande de tecidos. Notamos que as mulheres são muito ativas e quando lhes é pedido um trabalho, elas executam esse trabalho com perfeição. Portanto, têm que se sentir bem na peça que vestem. E para se sentirem bem, têm que ter o conforto máximo. A Somelos Tecidos apostou muito na mulher mundial, que trabalha, que quer estar na linha da frente.

O que pode destacar em termos de estruturas e matérias-primas?

Trabalhamos muito com moda. Os fluorescentes com vaielas estão muito em voga e a Somelos Tecidos apostou muito nessa gama também, ter uma vaiela tradicional mas com um toque requintado de um fio fluorescente, amarelo ou cor-de-rosa. Temos ainda as fibras mais nobres – a caxemira e a seda – e modal, viscose e liocel, assim como lã, que faz parte do quotidiano de qualquer peça de roupa essencial. A lã merino está muito em voga. Dá um toque fantástico. No verão, são fibras que deixam o corpo fresco e no inverno aquecem – têm umas propriedades muito boas.

Quais são as influências mais relevantes desta coleção?

A coleção está dividida em riscas e xadrez. As riscas continuam muito fortes no segmento feminino – a mulher gosta de se sentir elegante e uma risca faz sempre uma mulher elegante. Já o homem de inverno gosta mais de usar o xadrez. Portanto, temos a tendência muito grande nas flanelas mais pesadas e nas vaielas muito delicadas, que são o ponto forte desta coleção.

A sustentabilidade está na ordem do dia. Que novidades oferece o portefólio de produtos da empresa dentro desta vertente?

Continuamos a ter produtos muito inovadores na área dos sustentáveis. Temos orgânicos, reciclados e poliéster reciclado de garrafas do fundo do mar. Depois temos a viscose extraída do caule da rosa, também temos o Tencel,… Estamos na linha de frente na área dos sustentáveis porque estamos conscientes de que o mundo tem de mudar..

A Somelos Tecidos tem um longo historial na moda masculina. Porquê apostar em senhora?

Temos cada vez mais clientes a pedir senhora, onde usamos fibras como modal, viscose, seda e especialmente elastano. Desde há dois anos desenvolvemos uma coleção muito forte na parte de senhora e estamos a ter resultados ótimos.

Em termos de tendências, o que distingue a mulher e o homem da Somelos Tecidos?

A mulher da Somelos é uma mulher que quer qualidade, muito feminina e que não usa qualquer coisa. Usa o melhor, não fica pelo médio, quer o alto. No homem temos a camisa tradicional e depois temos uma área que é mais para outerwear, por exemplo uma camisa de dois bolsos com corte mais masculino, mais de montanha, mais de trabalho. Temos também a vertente mais desportiva, em que o homem pode ir trabalhar, está bem vestido, e com essa camisa pode ir também a um jantar.

Considera que a empresa é uma trendsetter?

Eu sinto isso, nomeadamente quando estamos na feira em Itália. Itália, por si, já vende o nome, mas sinto que todos os players nos respeitam profundamente.

Na sua ótica, o que permitiu conquistar esse estatuto e, sobretudo, mantê-lo?

Temos de estar sempre à frente, nunca estarmos satisfeitos com o que fazemos, pensar que queremos sempre o melhor. Isso é que faz com que as nossas coleções sejam muito cobiçadas. Queremos sempre descobrir qualquer coisa nova, brincar com matérias-primas diferentes para ver o resultado final, ser inovadores, o que é muito difícil, mas tentamos sempre fazer algo diferente dos outros. Tudo isto demora o seu tempo, tem muita pesquisa, andamos sempre atentos ao que se passa, ao que se vê na rua, ao que as pessoas usam. Quando vou a Milão, sento-me num banco na Piazza del Duomo e vejo o que as pessoas vestem, o que gostam, o que não gostam. Temos que estar no mundo inteiro, portanto temos que fazer este papel, seja em Milão, Paris ou Nova Iorque, porque a tendência vem da rua, não vem de gabinetes. Os trendsetters são as pessoas que andam na rua, jovens e não só. Os trendsetters hoje em dia são também os idosos. As pessoas de idade guardam tudo, não deitam nada fora. E a moda é “what goes around, comes around”. Esta história que houve há dois anos de as pessoas vestirem aquela jaqueta da Nike que estava guardada no fundo do baú, ditou muito a moda, que se virou para uma parte mais desportiva porque os idosos tinham aquele casaco guardado há 30 e tal anos, com umas cores mais fortes, que ninguém usava mas que na altura eram muito atrevidas. Fast fashion é uma coisa que acabou, já não existe. As pessoas não podem consumir tanto quanto isso. As pessoas têm de consumir e guardar o que é bom. Daí se nota que o consumo diminuiu. As pessoas já não querem qualquer coisa, querem o melhor, para guardar. Não é uma moda descartável. Não é ter igual às outras pessoas. Daí termos na coleção coisas que podemos personalizar para o cliente.

Pode dar algum exemplo?

Temos uma qualidade onde podemos escrever o que o cliente quiser – fica um tecido personalizado para o cliente. Temos que pensar que as pessoas querem personalizar as coisas, querem ser diferentes.

Quais são os seus “coups de cœur” nesta coleção para a próxima estação fria?

É exatamente o personalizar dos tecidos. As pessoas hoje em dia querem coisas próprias, querem ser diferentes e usar coisas diferentes. E, depois, há a questão da sustentabilidade, que é extremamente importante. Temos de ter muita atenção nisso. É moda agora, mas não pode passar de moda.

Em termos de mercados geográficos para a área da camisaria, quais estão a revelar-se mais promissores?

Os países nórdicos. Para mim, são uma grande revelação a nível de moda. São pessoas que sabem exatamente o que querem e querem qualidade acima de tudo. Eu acho que a moda vai dos países nórdicos para os EUA e dos EUA entra outra vez na Europa. Foram os países nórdicos que começaram com as linhas sustentáveis, são países que estão muito à frente a nível de moda.

Enquanto consumidores também?

Também. Temos muitos bons clientes nos países nórdicos, que sabem exatamente o que querem, que querem qualidade. E têm consciência que querem um produto que seja bem feito, que respeite as normas todas – responsabilidade social, ecologia, inovação.

Esta coleção foi já apresentada em feiras, de Milão a Paris. Que feedback obteve?

Os clientes destacam os acabamentos e as matérias-primas diferentes. Em particular, a lã continua a ser um produto cada vez mais procurado.

Mas apenas para a estação fria ou até para o verão?

Tem pernas para andar no verão, sem dúvida. Temos há bastantes anos, na nossa coleção, misturas algodão/lã, mas cada vez mais estamos a desenvolver esta área porque sentimos que há uma necessidade de tudo o que são fibras naturais: algodão, lã, caxemira.

Quanto representa a camisaria em termos das vendas?

Representa cerca de 90%.

Mas também têm tecidos para outros produtos, por exemplo calçado.

Os produtos alternativos são para dar a conhecer ao cliente aquilo que é possível fazer com os nossos tecidos. Não é só para camisaria, podemos fazer mil coisas com os nossos tecidos: sapatos, mantas, que fizemos com os nossos tecidos em algodão/caxemira. A caxemira é uma fibra nobre, as pessoas gostam, querem, é um toque de luxo. Como o lurex, que dá um aspeto luxuoso e as pessoas também gostam. Uma coisa que há uns anos atrás não pensaríamos usar em criança era lurex. Atualmente, os nossos clientes querem tecidos com lurex para criança. O mundo está sempre a mudar e aquilo que achamos óbvio, deixa de ser, porque há sempre algo novo a surgir e uma grande procura por coisas diferentes.

A Somelos Tecidos expõe em diferentes países e até de distintos continentes. Que importância reconhece às feiras?

As feiras são muito importantes. Há pessoas que dizem que a Internet é mais importante, mas é muito diferente. O nosso cliente que vem à feira quer ver a coleção mas, ao mesmo tempo, quer a nossa opinião. Apresentar uma coleção é contar uma história que um computador não pode. O contacto humano é fundamental a quem trabalha nesta área, porque é uma área muito sensível. Sentimos que o contacto com os clientes na feira é extremamente importante. O tocar, o ver a camisa feita, o que achamos… Às vezes um cliente vem com uma ideia, quer ver um determinado tecido e depois apresentamos-lhe uma alternativa que nem tinha pensado e é aceite.

Que desafios tem a empresa pela frente no curto e médio prazo?

Os desafios são cada vez maiores. Temos que estar sempre na linha da frente e isso torna-se por vezes complicado. Não podemos nunca baixar o nosso nível, temos que estar sempre a pensar o que vamos fazer para a próxima coleção. Nas feiras sentimos o que está no ar, captamos tudo, ouvimos os inputs todos. Atualmente já estamos a terminar a paleta de cores para a próxima coleção.

O que anuncia essa coleção para a primavera-verão 2021 que se encontra já em incubação?

Muita cor!

Que expectativas tem para a indústria têxtil em Portugal?

Portugal é o país da Europa com melhor têxtil, não há dúvida. Os italianos são muito bons, mas nós somos melhores. E nós, todos juntos, temos que acreditar, e acreditamos nisso realmente, toda a gente está de olhos postos em nós para fazermos aquilo que sabemos fazer, que é bom têxtil. É difícil encontrar um país com uma indústria têxtil tão forte como Portugal. Somos um país muito pequenino, mas somos super profissionais. Somos muito respeitados lá fora e isso deixa-me muito contente, não só pela Somelos, mas por toda a indústria têxtil portuguesa.

Os empresários têm manifestado alguma preocupação com o mercado atual. Partilha deste sentimento?

Há uma preocupação: o consumo baixou. Temos que estar sempre a inovar para oferecer aos clientes aquilo que ninguém pode oferecer. Isso é fundamental. O futuro é difícil, mas temos que ser otimistas e pensar que vamos dar a volta por cima. Não podemos, de forma alguma, pensar de maneira contrária. A indústria têxtil portuguesa representa muito em Portugal, não podemos baixar os braços. Isso está fora de questão.

Com que linhas se deverá coser o futuro do sector?

Inovação e sustentabilidade. Ambas!

Estando ligada à indústria têxtil desde o berço, o que gostaria de deixar como marca sua?

Venho de uma família tradicionalmente da têxtil [TMG], casei com outra família da têxtil [Somelos] e sei o quanto isso é importante. Tenho muito orgulho em fazer parte de duas empresas com um peso muito forte, duas empresas muito diferentes mas com um historial muito bom. E quero, sem dúvida, deixar o meu nome ligado à coleção Somelos, que a nível de camisaria é uma das coleções mais cobiçadas a nível mundial.