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«Temos que crescer vendendo mais»

Com uma pegada mundial e presença forte no mercado ibérico, onde conta com uma quota de mercado à volta dos 35%, a Chargeurs, através de António Martins, diretor da Chargeurs Ibérica, aponta a sustentabilidade e a digitalização como dois dos pilares da indústria da moda no futuro.

António Martins

A empresa de origem francesa, que conta com um armazém, situado em Portugal, com capacidade de resposta em apenas 24 horas e mais de 1,5 milhões de metros de entretelas, tem apostado na sustentabilidade e a digitalização, dois dos conceitos que integram a sua estratégia de crescimento, como revelou António Martins, diretor da Chargeurs Ibérica, que se mostra otimista para 2022 e, sobretudo, empenhado em continuar a expandir o reconhecimento, e as vendas, do grupo tanto em Portugal como em Espanha.

Estamos no início de um novo ano. Que expectativas tem a Chargeurs para o negócio em Portugal em 2022?

As expectativas são boas. O ano de 2021 foi um ano que começou com toda a gente confinada por esta Europa fora – em Portugal, inclusivamente, foi dramático aquele iniciar de ano até ao final de março, com um número importante de mortes e de casos de infeção. Portanto, os negócios sofreram com isso. Embora não ao nível do que se tinha passado em 2020, era notório que os negócios tinham alguma dificuldade em arrancar. Embora estejamos aqui numa pontinha da Europa, não estamos divorciados do mundo e aquilo que se passa por esse mundo fora, também se passa em Portugal, sobretudo numa indústria como a nossa, que trabalha muito com a exportação e, portanto, depende muito do que se passa nos outros países. Não teria sido possível crescer da forma que crescemos se os países que são nossos clientes não tivessem também passado a ter uma situação bastante melhor e estivessem mais disponíveis para o consumo e para comprar o vestuário que aqui se faz, embora todos saibamos que o tipo de vestuário com o qual tradicionalmente trabalhamos, que é aquele vestuário mais formal, tenha sofrido algum desgaste com a situação criada, nomeadamente com o teletrabalho, com a obrigatoriedade das pessoas ficarem em casa, etc. Mas isso efetivamente significou que foi possível ao grupo criar uma dinâmica de grande crescimento, aproveitar esse período de paragem para se renovar, para lançar novos produtos, para pesquisar novos artigos, para desenvolver novos materiais e novas possibilidades de encontrar soluções para a confeção que os clientes são chamados a fazer, porque o cliente do nosso cliente também mudou um bocado, passou a um tipo de confeção mais exigente, com tecidos mais desafiantes, com produtos mais complicados de fazer, com designs mais arrojados e tudo isso também implica um desafio a que empresas como a Chargeurs*PCC, que são empresas que têm a obrigação de encontrar soluções para os clientes do ponto de vista técnico, têm de responder. Foi um desafio que conseguimos ultrapassar encontrando novos produtos, encontrando novas soluções e, portanto, seja na parte das entretelas, que é um material, vamos chamar-lhe, mais tradicional, quer na parte daquilo que chamamos de componentes internos, que são as ombreiras, os pequenos reforços, os baixos de gola, os forros, enfim, todas essas coisas que ajudam a que uma peça possa ter um brilho que o cliente procura e, no fundo, que vá de encontro àquilo que o mercado espera. A Chargeurs foi capaz de ter um crescimento muito acentuado ainda no ano de 2021, o que naturalmente, seja em Portugal, seja para o grupo, nos enche de orgulho. Estamos, neste momento, a fazer o fecho das contas de 2021 e os indicativos que temos para apresentar relativamente à Chargeurs Ibérica são muitíssimo satisfatórios, agradam muito não só a nós, como também à direção do grupo. Estamos satisfeitos com o caminho que temos trilhado e muito se deve ao trabalho a montante, na fábrica da Lainière de Picardie em Péronne, no desenvolvimento dos produtos que efetivamente o mercado necessita. As expectativas, em termos de crescimento, são as melhores porque estamos a lançar uma gama de produtos tecnologicamente muito evoluída, artigos relacionados com a área da sustentabilidade.

Refere-se à gama Sustainable 360?

Exatamente. Fizemos o lançamento ainda antes da pandemia, em Xangai, da nossa gama Sustainable Fifty, em setembro de 2019, e dois anos depois o lançamento da Sustainable 360 – que é a primeira coleção completa de entretelas e componentes internos feita unicamente com materiais ecologicamente responsáveis, incluindo algodão BCI, poliéster reciclado com certificação GRS, cânhamo e plásticos reciclados –, o que significa que foi feito um trabalho vastíssimo e árduo. Claro que isso não é possível sem uma cooperação com vários fornecedores e o grupo é também muito exigente, temos técnicos em todas as áreas do fabrico têxtil e das entretelas que permitem desenvolver, quer os produtos químicos, quer as bases das entretelas. A linha Sustainable 360 ​​ está a ser muito bem recebida pelos clientes de marca e também pelas fábricas. Desde o lançamento, a coleção foi amplamente adotada por marcas líderes que incluem Adidas, Gucci, J. Crew, Macy’s, Madewell, PVH, Target, Uniqlo e Yves Saint Laurent. A gama expandiu-se para incluir hoje já bem mais de 300 artigos. O objetivo para a nossa fábrica em França é, até 2025, transformar a maioria das qualidades da gama tradicional para o uso de materiais e métodos sustentáveis.

Como tem sido recebida essa linha sustentável em Portugal?

Penso que, no ano passado, teremos vendido à volta de 150 a 160 mil metros desse tipo de artigos, o que é muito pouco, porque se lhe disser que vendemos mais de quatro milhões de metros de entretela, estamos a falar de 0,4%, um número ainda muito marginal. De qualquer das maneiras é uma tendência, toda a gente está alertada para isso, os clientes todos sabem. Em Portugal, em 99,8% dos casos, o cliente, como trabalha muitas vezes por especificação, recebe as ordens e tem que comprar “aquela” entretela, porque o protótipo foi feito algures e as pessoas querem que seja exatamente aquilo e, portanto, dão instruções ao seu confecionador de que deve usar esse tipo de acessórios. As encomendas virão um pouco na sequência daquilo que vão ser os pedidos dos seus clientes.

Que outras iniciativas mais amigas do ambiente tem a Chargeurs empreendido, tanto em produtos como em processos?

Os projetos relacionados com a gestão de desperdícios, nomeadamente o reaproveitamento do calor libertado pelo processo produtivo, assim como a reutilização da água envolvida no mesmo são aspetos que estamos a desenvolver e a intensificar. O desenvolvimento de um projeto para a criação de uma gama de entretelas biodegradáveis faz hoje parte das atividades mais acarinhadas nos nossos laboratórios. Além de polímeros reciclados, o uso de materiais mais naturais e biodegradáveis ​​nos nossos produtos será um grande foco para nós em 2022.

Além dessa oferta no “l’air du temps”, que outros indicadores lhe permitem estar otimista para o corrente ano?

Quando partimos para um novo ano, partimos sempre com boas expectativas, mas primeiro olhamos para nós próprios, refletimos sobre aquilo que temos feito e sobre aquilo que somos capazes de fazer. Naturalmente que sendo um grupo bem instalado no mercado mundial – as marcas Lainière de Picardie e PCC têm décadas de existência, com reconhecido prestígio –, o mais difícil seria não vender. Temos as armas, os meios, a capacidade, as pessoas e o know-how, portanto, vamos ser capazes de vender os nossos produtos e de impor a nossa qualidade no mercado. Naturalmente que isto também tem que contar, do outro lado, com uma conjuntura favorável. Os tempos recentes demonstraram-nos que, de um momento para o outro, tudo pode mudar, ninguém está livre de que amanhã possamos encontrar uma variante mais agressiva [de covid-19] que volte a encerrar as empresas e a fechar as pessoas em casa. Mas se formos otimistas em relação a esse aspeto, face à nossa experiência, aos desenvolvimentos que temos tido e à qualidade dos nossos artigos, estamos perfeitamente convencidos que os anos daqui para a frente só poderão ser magníficos e trazer bons resultados. Até porque o grupo está apostado em crescer fortemente. Temos o objetivo de, até 2025, atingir um volume de negócios de mil milhões de euros e, portanto, estamos a trabalhar para ele. É um objetivo ambicioso, todos temos consciência disso, é praticamente dobrar o número em quatro anos, supõe um crescimento na ordem dos 25% ao ano. Trata-se de um desafio aliciante e bom para quem está há já 30 anos na empresa, como é o meu caso, mas também um desafio motivador para um conjunto de jovens que a empresa está a contratar, de gente muito capacitada, de gente com vários níveis de formação e que permite que encaremos o futuro com bastante otimismo.

Na sua opinião, quais serão as forças motrizes da indústria da moda para continuar a progredir?

O regresso a uma maior normalidade após a pandemia permite acalentar que o futuro vai ser melhor e virá numa linha de continuidade do trabalho que tem vindo a ser feito na questão da digitalização e da realidade virtual, que vai ser efetivamente algo com que a confeção se vai deparar dentro em breve. Nós, por exemplo, estabelecemos uma parceria com a CLO [Virtual Fashion], em que permitimos aos nossos clientes terem acesso a uma base de dados de todas as nossas entretelas para que um designer, recorrendo a essa plataforma, possa definir uma peça de vestuário inclusivamente tendo a noção do peso, do caimento, da cor, da mão, do toque têxtil da peça, o que é uma coisa que há meia dúzia de anos era completamente inverosímil. Temos ainda o Custom Wrkshop, em que deixa de haver necessidade de se fazer uma produção para haver um produto, isto é, o cliente pode encomendar uma peça, um casaco ou um fato, inclusivamente pode escolher uns sapatos e uma camisa, digamos que o cliente pode sair vestido e não há desperdícios, porque só se faz o que encomendou. É uma vantagem que contribui de forma absolutamente decisiva para a diminuição dos desperdícios e é esta ideia de sustentabilidade que o grupo quer desenvolver. A sustentabilidade ambiental é uma prioridade fundamental para os nossos clientes, mas no grupo vemos a sustentabilidade de várias outras formas e não só como, apenas, o uso de materiais sustentáveis ​​– a tecnologia e a digitalização podem ter um grande impacto na sustentabilidade. Os novos ativos digitais tornam o processo de design mais eficiente e abrangente e fornecem benefícios significativos de sustentabilidade, incluindo a redução de desperdício e uso de recursos, eliminando a necessidade de criar e enviar protótipos físicos. Isso pode literalmente evitar que toneladas de roupas que, afinal, não vão ser utilizadas, sejam feitas a cada ano.

Como está esse universo virtual a ser integrado na estratégia da Chargeurs?

A pandemia revelou o quão crucial é a digitalização de ponta a ponta da cadeia de aprovisionamento. A indústria de moda e vestuário ficou para trás em termos de digitalização e muitas marcas descobriram que não tinham a agilidade necessária para superar o encerramento de lojas e, ao mesmo tempo, atender à grande mudança dos consumidores em direção ao comércio eletrónico e ao aumento da procura por produtos elaborados de forma sustentável. Na Chargeurs*PCC estamos a proceder à digitalização dos nossos negócios de maneira inovadora para permitir sustentabilidade e flexibilidade em todas as etapas, desde o design, desenvolvimento e fabrico até marketing e vendas, contribuindo para resolver esses problemas e ajudar as marcas de moda a preparar os seus negócios para o futuro. Estamos a aproveitar, o melhor que podemos e sabemos, o impulso inicial que logramos com o lançamento dos artigos sustentáveis e as parcerias então criadas para consolidar uma liderança como empresa digital de ciclo completo e impulsionar o design e a produção sustentáveis por meio da inovação. Recentemente, criámos o showroom digital “The Fusion Line”, que se liga diretamente ao marketplace da CLO, oferecendo aos designers uma maneira rápida e fácil de chegar aos produtos de que precisam para concluir as suas criações virtuais. Este showroom virtual oferece uma experiência digital imersiva para os nossos clientes e apresenta uma vasta galeria de produtos “Fusion Line” para vários tipos de moda, seja vestuário, sejam acessórios. Em breve vamos anunciar a extensão do showroom para várias outras categorias de produtos.

Há um aumento considerável dos custos de produção, seja matéria-prima, energia ou transporte. Neste âmbito, quais são os grandes desafios que se colocam à Chargeurs?

Não controlamos naturalmente o preço das matérias-primas, nem os custos que estão associados às matérias-primas. Portanto, somos também vítimas dessa situação e é isso que nos força a fazer também aumentos de preços na atual circunstância – os custos, nomeadamente dos transportes, com importações da Ásia e de outros locais, naturalmente que obrigam a um alinhamento dos preços, sobretudo porque muitas das matérias-primas vêm daí, portanto isso repercute-se necessariamente nos preços finais das produções que fazemos em França. Mas a forma que estamos a encontrar para responder a esse desafio é efetivamente fazermos uma racionalização da nossa produção e fazermos, nós próprios, também a racionalização dos nossos custos. No fundo estamos a voltar a olhar para dentro, já não no sentido daquilo que somos capazes de fazer para fora, no sentido da venda, mas no sentido daquilo que somos capazes de fazer, estando mais próximos de respeitar todas as normas ambientais, estando mais próximos, por exemplo, de criar condições de trabalho mais favoráveis dentro da fábrica aos nossos colegas, que lhes permitam trabalhar com mais gosto e proporcionar mais produtividade. Estamos a fazer investimentos muito importantes relativamente ao reaproveitamento da energia, reaproveitamento da água. Ao mesmo tempo que conseguimos dotar a nossa produção dessa diminuição de custos, estamos a conseguir alinhar-nos e a não fazermos repercutir integralmente os aumentos de preços que estamos a sofrer.

A Chargeurs é francesa, mas muito diversificada geograficamente. Em quantos países está hoje instalada?

A Chargeurs está em 38 países e tem mais de 2.500 funcionários nesses 38 países. Na Chargeurs Ibérica somos 10 pessoas – oito em Portugal e duas num escritório em Madrid. Tem sete unidades produtivas espalhadas por quase todos os continentes e é, de facto, uma empresa que, pelas suas características e pela sua dimensão mundial, pode inclusivamente ajudar os clientes a encontrar soluções que hoje se compaginam muito com os problemas e desafios que estão lançados. Cito-lhe, por exemplo, o seguinte: hoje fala-se muito na questão das taxas de carbono, a necessidade de diminuir os transportes para que, efetivamente, o vestuário que chega ao cliente tenha em si mesmo uma identidade mais ecológica e esta circunstância da Chargeurs ter as fábricas em todos os continentes permite que um cliente norte-americano que faz a sua roupa em Portugal ou na Ásia, possa ser assistido em qualquer lugar, com o mesmo produto. Esse cliente vai pedir ao fornecedor português ou asiático que inclua uma determinada entretela da Chargeurs*PCC e é entregue, digamos, ao lado da porta. Este tipo de apoio permite que a Chargeurs também aporte ao cliente mais esse benefício.

Quem são os clientes da Chargeurs, no mundo e no mercado ibérico?

Apoiamos mais de 6.000 marcas e fábricas em todo o mundo, desde marcas de luxo, como Chanel e Balenciaga, até retalhistas do mercado de massa, como Walmart e Target. No mercado ibérico, o nosso negócio é dirigido a clientes como a Inditex – nas marcas Zara e Massimo Dutti –, Carolina Herrera, Mango, El Corte Inglés e, em Portugal, empresas como CBI, Santa Marta, Calvelex, Crialme, Acorfato, Azuribérica, Goucam, Davion, Jorge Confecções, Petratex, FSM, NST,… Enfim, diria que não há em Portugal uma empresa de confeção que não seja nossa cliente. Temos mais de 400 clientes ativos em Portugal, que representam cerca de 35% do volume de negócios da Chargeurs Ibérica.

Na Península, quais são os best-sellers?

São sobretudo as entretelas. Temos uma entretela texturizada, com 43 gramas, que tem um ponto de cola desenvolvido por nós, específico da Lainière de Picardie, que não encontra na concorrência, a que chamamos GMP [Global Molecular Point], que permite que quando termocolada a entretela no tecido nunca há repassagem de cola, quer no sentido da entretela, quer no sentido do tecido.

Que volume de negócios registou a Chargeurs Ibérica em 2021?

10,8 milhões de euros. Crescemos bastante, 20%, relativamente a 2020, em que nos ficámos pelos nove milhões de euros de faturação.

Qual é a meta de crescimento fixada para este ano?

O ano de 2019 foi o nosso melhor ano, com 11,3 milhões de euros e temos uma aposta séria para ultrapassar esse valor. O objetivo do grupo é chegar aos mil milhões de euros até 2025, que significa um crescimento médio anual de 25% e, portanto, significa que este ano vamos ter que crescer mais ou menos isso, ou seja, vamos ter que passar dos 10,8 milhões de euros para sensivelmente 13 milhões de euros.

Que pilares vão sustentar esse aumento?

Neste momento, não tenho nenhuma carta na manga para poder avançar. Aquilo que lhe posso dizer é que temos que crescer vendendo mais. Temos que crescer ganhando partes do mercado – neste momento devemos ter uma quota de 35% do mercado ibérico –, sendo mais efetivos em termos de clientes, sendo mais presentes, sendo mais, como se diz agora, pró-ativos, fazendo das tripas coração para conseguirmos ultrapassar aquilo que são os nossos concorrentes e impor os produtos da Chargeurs*PCC com o volume, a categoria e a qualidade que têm.

A casa-mãe lançou o programa de crescimento Leap Forward 2025. Quais são as principais diretrizes e objetivos para o futuro próximo?

O Leap Forward 2025 é o nosso programa para focar a atividade em três grandes temas para o futuro: excelência ambiental, eficiência digital e intensidade tecnológica.

O objetivo é aumentar o valor do grupo e o retorno sobre o capital até 2025, fazendo do programa Leap Forward o catalisador de um salto tecnológico nos nossos negócios. De momento estamos a trabalhar em novos produtos que irão aumentar, quantitativa e qualitativamente, a oferta aos clientes e estamos convencidos que algumas novas interessantes tecnologias de produto irão ter grande impacto no mercado. A inovação desempenha um papel crítico no nosso crescimento e sucesso. É a lente através da qual olhamos para todas as oportunidades e desafios. É, por assim dizer, a “Estrela Polar” da Chargeurs*PCC para os próximos anos e irá, certamente, permitir melhoramentos noutras áreas que não só a dos produtos, mas também, por exemplo, a do serviço ao cliente, onde as ferramentas baseadas na inteligência artificial terão um papel importante e decisivo.