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«Temos regiões que podem ser alimentadas por unidades novas de produção de fibra»

A celebrar 10 anos de atividade, a plataforma Fibrenamics colocou o país, e, de certa forma, o mundo, a falar sobre o potencial das fibras, não só na moda, mas noutras vertentes da economia, da defesa à construção. O projeto, fundado por Raul Fangueiro, está agora a evoluir para uma nova fase.

Raul Fangueiro

Há uma década divulgar o potencial das fibras, a Fibrenamics tem atualmente vários projetos em curso nesta área, desde o desenvolvimento de fibra de caseína a partir dos desperdícios da indústria de laticínios, que está a decorrer nos Açores, à investigação de fontes como o amido de batata ou os resíduos agroindustriais para criar materiais alternativos.

A evolução da plataforma criada no seio da Universidade do Minho levou a uma mudança da sua forma jurídica, assumindo-se agora como uma associação sem fins lucrativos, com sede própria e aberta à integração de novos sócios-fundadores, um passo que Raul Fangueiro, coordenador da Fibrenamics e agora também diretor do 2C2T – Centro de Ciência e Tecnologia da UMinho, afirma, em entrevista ao Jornal Têxtil, ver como um reconhecimento do sucesso do modelo de atuação da plataforma, que além de delegações em Portugal, está a ser implementada no Brasil e poderá ser replicada noutros países da Europa.

A Fibrenamics está a desenvolver fibra de caseína a partir do leite. Como surgiu essa ideia?

A Fibrenamics criou uma delegação nos Açores há alguns anos e, como sabemos, o arquipélago dos Açores é um dos maiores produtores de leite da Europa e, certamente, o maior produtor de leite de Portugal. Fomo-nos apercebendo que há muitos desperdícios no processamento do leite e que esses desperdícios poderiam ser aproveitados para extrair alguns componentes que dessem origem a fibras e, desses componentes, a caseína é, sem dúvida, a que pode ser utilizada nessa situação. Houve um contacto com cooperativas de produtores de leite e também com outras entidades de I&D na ilha de São Miguel e, a partir daí, nasceu a ideia de avançarmos com este projeto, que é financiado pelo Governo Regional dos Açores.

Em que fase está atualmente o projeto?

Neste momento a fase de extração de caseína está resolvida, já somos capazes de produzir fibra a partir da caseína, ainda em escala laboratorial, mas em fase de avançarmos para scale-up. Há agora a ideia de se instalar uma unidade piloto de produção de fibra de caseína.

Quando poderá chegar ao mercado?

Durante o ano de 2022 contamos ter já esta instalação piloto a funcionar e a produzir fibra de caseína. É o prazo que temos definido.

Quais são as vantagens desta fibra para a indústria têxtil?

Em primeiro lugar, estamos a utilizar um recurso que, de outra forma, era descartado na natureza. Essa vertente é importante para nós. Depois, a partir da caseína, podemos conferir a estas fibras propriedades muito interessantes sob o ponto de vista de biocompatibilidade e de tudo o que tem a ver com o contacto com a pele, em que este tipo de fibra tem uma vantagem grande na regeneração cutânea. Portanto, tudo o que tem a ver com têxteis que possam ser utilizados principalmente no bem-estar e na saúde, por esta questão da compatibilidade com a pele e da regeneração, são questões importantes. Depois, na questão do conforto e da gestão de humidade tem também características interessantes. Sob o ponto de vista da processabilidade, normalmente não tem nenhuma limitação evidente face a outras fibras naturais de origem proteica, como a lã ou a seda, por exemplo, processa bem sob o ponto de vista da fiação, da tecelagem e da tricotagem e facilmente pode ser convertida em produtos têxteis.

Em que outros projetos de desenvolvimento de fibras alternativas está a Fibrenamics a trabalhar neste momento?

Temos vários. Aliás, diria que essa tem sido, nos últimos três, quatro anos, uma aposta muito forte da Fibrenamics, a utilização de recursos que normalmente não são utilizados para a produção de fibra, que são recursos descartados, resíduos, e que nós pretendemos utilizar como recursos importantes para a produção de fibras nestes projetos, respondendo até muito a questões relacionadas com a sustentabilidade e com aquilo que se designa agora muito pela bioeconomia. Temos um projeto interessante na utilização do amido que é extraído da batata, para depois também se produzir fibras a partir daí. Temos outros projetos em que extraímos a celulose de resíduos agroindustriais, como restos de podas de vinhas ou de oliveiras e daí extraímos celulose, que pode depois ser utilizada para a produção de fibra regenerada. Temos também trabalhado na incorporação de resíduos obtidos durante o ciclo de processamento têxtil e até no final do ciclo de vida dos produtos, em que recuperamos esses têxteis e, daqueles de origem celulósica, somos capazes de extrair a celulose e novamente voltar a produzir fibra a partir daí ou então, noutros casos, apenas por reciclagem mecânica, podemos fazer a reintrodução dessas fibras no processamento têxtil, iniciando novamente a partir da fiação. Aplicamos este conceito de projetos a várias situações, nomeadamente em projetos mais específicos com várias empresas da rede Fibrenamics, que é bastante alargada.

O Plano de Recuperação e Resiliência aponta para a necessidade do desenvolvimento de fibras naturais sustentáveis a partir de matérias-primas alternativas. A Fibrenamics também está a trabalhar para este objetivo?

Sim, sem dúvida. Esta questão da bioeconomia, e aí a questão das fibras naturais, é fundamental. No âmbito do PRR, estivemos envolvidos em candidaturas nesse domínio e não só naquelas vertentes que eu disse anteriormente, mas também na utilização de fibras naturais provenientes de plantas que normalmente não são tão utilizadas ao nível do têxtil, embora noutras áreas, como a dos compósitos, já sejam usadas mais frequentemente, como é o caso das fibras de bananeira, das fibras do ananás, das fibras até da conteira dos Açores. Aí também estamos envolvidos em vários projetos e colocamos também agora, num projeto PRR, a possibilidade de fazermos o scale-up e o estudo da utilização dessas fibras no âmbito da indústria têxtil e depois dos produtos obviamente que possam aparecer a partir daí. É, sem dúvida, uma vertente muito importante da nossa atuação nos últimos anos.

Como vê o mercado das fibras presentemente?

Penso que se tem verificado uma transformação muito grande neste mundo das fibras, principalmente ao nível dos stakeholders que estão a atuar no mercado. Houve uma fase em que a produção de fibras esteve muito concentrada em grandes stakeholders a nível internacional e à escala global. Neste momento, com a possibilidade que temos de fazer a extração destes polímeros naturais a partir dos resíduos, da possibilidade de se instalarem unidades de produção de fibra relativamente pequenas quando comparadas com essas grandes instalações de multinacionais, a necessidade de nós, localmente também, podermos responder a estes desafios da sustentabilidade a partir de materiais mais amigos do ambiente, abre um conjunto de oportunidades para a instalação de unidades de produção de fibra que depois possam alimentar a fileira têxtil, obviamente à escala local. Quando digo local, não digo obviamente numa região específica de Portugal, embora saibamos que há regiões mais desenvolvidas nesse âmbito, mas local ao nível dos países. Temos regiões que podem ser alimentadas por unidades novas de produção de fibra. Penso que há aí oportunidades muito interessantes e que começam a haver já várias movimentações nesse sentido. Mesmo no âmbito do PRR, há uma aposta forte, não só em Portugal, mas sabemos também no caso espanhol, na produção de fibra e no diminuir a dependência desses grandes produtores internacionais. Não só nesta questão das fibras com um pendor mais sustentável, mas também nas fibras de elevado desempenho parece-me que há oportunidades muito interessantes. Esses são, sem dúvida, os dois grandes pilares de desenvolvimento das fibras nos próximos anos: respondermos aos desafios sociais associados à questão da sustentabilidade e de tudo o que tem a ver com a utilização de fibras naturais de origens diversas, a reutilização de resíduos e a sua transformação em fibras, sendo estes resíduos de processamento industrial, agroindustriais ou agroalimentares até – há uma tendência muito forte nesse sentido. Depois há um segundo pilar que tem a ver com as fibras de performance. Vamos sempre necessitar de fibras que tenham uma performance muito elevada nos vários níveis – desempenho mecânico, térmico, bacteriano, biológico, etc. Essa é uma segunda vertente e pode recorrer à nanotecnologia como sendo uma ferramenta fundamental para se arquitetar essas fibras para apresentarem essas características. Qual é a chave principal e onde estamos também a concentrar os nossos esforços? É combinar esses dois pilares.

Como está organizada a Fibrenamics?

A Fibrenamics, ao longo da sua história, teve três fases fundamentais. Uma primeira fase, inicial e que esteve na sua génese, teve a ver com a comunicação de ciência, com a comunicação e envolvimento da sociedade nesta questão das fibras e de todos os produtos que são produzidos ou que podem ser concebidos a partir de fibras. Esse foi o momento em que tentámos sair do nosso cantinho do laboratório e levar a mensagem das fibras à sociedade. Como consequência do grande envolvimento de entidades nessa iniciativa, principalmente empresariais, mas também ligadas ao mundo científico e académico, criou-se a plataforma Fibrenamics e o grande objetivo foi integrar todos os parceiros de forma a que gerassem continua e sistematicamente inovação à volta das fibras, tendo em conta que se cobria todo o pipeline da inovação, desde a geração de ideias até à colocação de produtos no mercado. Isso foi uma fase de grande sucesso e de grande crescimento da Fibrenamics com dezenas, eu diria centenas, de projetos de desenvolvimento de produtos e de tecnologias inovadoras com empresas nacionais e internacionais e isso acentuou muito o papel da Fibrenamics na sociedade de forma geral e no tecido económico em particular. Os ganhos económicos a partir desta relação com a Fibrenamics foram-se sempre acentuando ao longo dos tempos. Claro que a Fibrenamics esteve sempre embebida dentro do espaço Universidade do Minho até que o conhecimento e a dimensão atingiram uma proporção tal que realmente começou a pensar-se que a Fibrenamics deveria ser convertida numa interface tecnológica da própria universidade, porque tinha desenvolvido conhecimento muito relevante na área das fibras, que era reconhecido não só a nível nacional, mas a nível internacional e científica e tecnologicamente avançado. Partiu-se para uma fase diferente que é a constituição desta interface tecnológica que apresenta como configuração jurídica uma associação sem fins lucrativos que envolve, numa primeira fase, a Universidade do Minho, a Câmara de Guimarães e a Sciencentris, mas que agora está aberta também à participação de outros parceiros desta rede de mais de 300 empresas que temos a trabalhar connosco e que podem, nesta primeira fase de constituição, fazer parte também como associados-fundadores desta entidade. Há um interesse muito forte, até porque, desde o início, a Fibrenamics só faz sentido porque conseguiu envolver os parceiros industriais associados aos vários sectores em que se movimenta.

Esta associação vai gerir todas as delegações da Fibrenamics?

Sim, a ideia é que esta associação faça a gestão de toda a marca Fibrenamics e de tudo aquilo que foi construído pela Fibrenamics nos seus 10 anos de história. Estamos a iniciar agora a instalação no Brasil e temos também delegações nos Açores e em São João da Madeira, na Sanjotec.

Que balanço faz destes 10 anos de atividade da plataforma?

Foram muito intensos, de grande crescimento e de consolidação de uma ideia inicial que, em boa hora, foi bem acolhida pelo Programa Ciência Viva. Nessa altura, estaríamos longe de imaginar que a Fibrenamics seria, neste momento, uma interface tecnológica perfeitamente consolidada, com os resultados que todos conhecem, com os vários produtos, as várias tecnologias que vai desenvolvendo e, sobretudo, pelo reconhecimento à escala global – esta implementação no Brasil é o reconhecimento disso mesmo, do papel destas interfaces de ligação do conhecimento à sociedade mas, sobretudo, do modelo que foi sendo desenvolvido para alavancar o crescimento da Fibrenamics. Esse modelo é de tal forma reconhecido a nível internacional que vai sendo aplicado também noutras regiões do globo. É, sem dúvida, um percurso que nos orgulha a todos e que se espera que, no futuro, se possa consolidar e crescer ainda mais, que é aquilo que todos pretendemos.

Que projetos destacaria desta década?

Foram dezenas, se não centenas, de projetos até agora, mas há projetos que são icónicos e que marcam a vida da Fibrenamics. Estou-me a lembrar, por exemplo, do projeto AuxDefense, que levámos a cabo com o Ministério da Defesa Nacional, em que desenvolvemos todo o material de proteção balística para as Forças Armadas Portuguesas. Foi um projeto pioneiro em Portugal, em que realmente foi possível demonstrar a integração da academia com as empresas e os utilizadores finais, neste caso, os militares, e que essa integração consegue ter resultados muitos interessantes. É um projeto icónico pelo resultado, mas também pelo modelo que foi desenvolvido e pela forma como estes parceiros se integraram para atingir os resultados que foram atingidos. Mas estou-me a lembrar também da vertente Fibrenamics Green, que foi um projeto finalista dos prémios Regiostars da Comissão Europeia na área da sustentabilidade e economia circular. Sem dúvida que trouxemos uma visão nova para esta questão dos resíduos e da forma como poderíamos integrar ciência e tecnologia pela vertente da universidade, mas depois também o design de produto, o marketing e a formação de cadeias de valor para, precisamente, valorizar resíduos e transformá-los em produtos inovadores. Depois temos projetos de ligação “one to one” com as empresas e vários deram origem a produtos que estão atualmente no mercado, como o vestuário interior para incontinentes ProtechDry com a Impetus, as mangas para os linfedemas com a Barcelcom ou as portas corta-fogo com a carpintaria CIPS.

Que projetos têm presentemente em mãos?

Continuamos a trabalhar muito a questão militar, a questão da utilização dos materiais à base de fibras e compósitos na área da defesa e aqui temos projetos de proteção química, bacteriológica, radiológica, etc., com o envolvimento também do Exército Português, onde esperamos ter rapidamente resultados. Na área militar temos também a questão da balística. Continuamos com essa área e daí também a importância do projeto AuxDefense, porque criou, em Portugal, competências na área da proteção balística. E, aquilo que desenvolvemos para a proteção individual do soldado, estamos agora a aplicar na proteção de infraestruturas, como edifícios e veículos militares, onde é preciso melhorar o desempenho de proteção contra impactos de projéteis, mas também contra a ação de explosivos. Outra área onde temos projetos a decorrer é a área automóvel e, principalmente, o interior dos automóveis. Temos um projeto muito grande com a Simoldes e o grupo Stellantis para tornar os interiores dos automóveis mais interativos e mais interconectados com quem os utiliza. Temos igualmente um projeto nas embalagens, onde estamos a utilizar sensores à base de fibras para fazer o tracking de embalagens. Enfim, são vários projetos em vários domínios, mas, realmente, há três áreas que, para nós, têm sido chave nos últimos anos: defesa, transportes e aplicações médicas.

Para além da Fibrenamics, assumiu em junho a direção do 2C2T. Que áreas estão preferencialmente a investigar?

O 2C2T é o único centro de investigação na área têxtil em Portugal e é um centro que tem tido, ao longo dos anos, um reconhecimento muito forte pela comunidade científica internacional, mas também nas diversas avaliações que a Fundação para a Ciência e Tecnologia tem feito aos centros de investigação. Obviamente, tem tido sempre boas classificações. É um centro que tem uma atividade muito forte na área têxtil, como o próprio nome indica, e estamos divididos em duas linhas de investigação principais: uma que tem a ver com os materiais têxteis, onde se incluem as fibras, as malhas, os tecidos e por aí fora, ou seja, os materiais que configuram os produtos têxteis; depois temos uma segunda linha que tem a ver mais com o desenvolvimento de produtos com base em materiais têxteis e à base de fibras, onde temos um grupo de investigadores da área do design, com novas abordagens ao design, ao ecodesign, à biomimética, portanto, da interação do produto com o utilizador, que é uma vertente muito importante dentro do grupo. O Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil, sendo já um centro de grande história dentro da Universidade do Minho e dentro do panorama científico português, é um centro que se vai continuar a afirmar nestes materiais e neste design de têxteis para também suportar o crescimento das empresas portuguesas, e da sociedade em geral, nesse domínio.

Como vê a relação das empresas com o conhecimento, estão mais abertas à inovação e à colaboração com os centros de I&D?

Sem dúvida! Penso que o panorama mudou muito nos últimos 10 anos. Quando criámos a Fibrenamics ainda havia barreiras bem vincadas que separavam a academia e as empresas. Neste momento, essas barreiras são cada vez menores e esta relação faz-se de forma natural. Lembro-me que, no início da Fibrenamics, eu dizia que para as empresas virem à universidade não precisavam de colocar a gravata, esta relação deveria ser o mais natural possível e cada um saber exatamente qual é o papel que desempenha neste relacionamento sem pôr em causa esse papel e sem tentar sobrepor-se ao papel que o outro tem de desempenhar. Essa comunicação, essa tomada de consciência do papel de cada um nesta relação, aligeirou muito a questão das barreiras que estavam definidas inicialmente. É evidente que há fatores que contribuíram fortemente para isso, há uma maior procura por parte das empresas pela necessidade de inovarem, pela necessidade de fazerem face aos desafios que são colocados diariamente, mas depois também obviamente que há políticas públicas que também vão explorando este relacionamento.

Quais são hoje os planos para a Fibrenamics?

Tendo sido constituída como uma entidade independente, sendo agora uma associação, a Fibrenamics terá as suas instalações próprias – foi anunciado pela Câmara Municipal de Guimarães que seria na Fábrica do Arquinho, que será reestruturada e albergará as instalações do curso Engenharia Aeroespacial da Universidade do Minho e a Fibrenamics –, constituirá os seus próprios laboratórios e a sua própria infraestrutura e, a partir daí, fará o desenvolvimento da sua atividade. Isso sob o ponto de vista mais formal. Sob o ponto de vista de objetivos de implementação da Fibrenamics, a questão da internacionalização é, para nós, muito importante. Este trabalho que estamos a fazer com o Brasil e que está a correr muito bem, pretendemos depois fazer noutras zonas geográficas – temos alguns países da Europa com quem estamos em conversações. Por outro lado, temos sempre o objetivo de desenvolver conhecimento na área das fibras e compósitos e sermos reconhecidos como a entidade que, neste domínio, desenvolve esse conhecimento e que, sobretudo, o consegue aplicar em produtos e tecnologias inovadoras. Isso é fundamental. Foi o que esteve na sua génese e será sempre aquilo que é o objetivo da Fibrenamics.