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Tempo de repensar

Os hipermercados franceses parecem não ter motivos para estar em festa. Os Franceses estão a preteri-los em favor de outros formatos, mais pequenos, mais próximos de casa, mais baratos. Esta não é a primeira vez que as grandes superfícies alimentares sentem dificuldades – o último grande golpe foi no início dos anos 2000, face ao ataque do hard-discount –, mas desta vez o abrandamento dos hipers estÁ a deixar marcas nas contas do primeiro semestre de 2008 do Carrefour, Casino e Auchan, três cadeias de hipermercados francesas. Apesar do seu volume de negócios global ter aumentado e da sua rentabilidade em termos gerais não estar ainda em causa, o facto é que as vendas internas estão a diminuir consideravelmente. Nesta “rentrée”, muitos tentam, por isso, atrair consumidores com uma baixa de preços. A actividade dos nossos hipermercados franceses (219 com afiliados) no primeiro semestre de 2008 não foi, claramente, satisfatória», considera o director-geral do Carrefour, José-Luis Duran, numa referência à diminuição das suas vendas. Para recuperar, no segundo semestre, as quotas de mercado perdidas no primeiro, o número dois da distribuição mundial vai fazer um relançamento comercial». Ou seja, gastar em marketing e comunicação para falar de preço, ou então baixÁ-los. A marca pensa poder compensar este esforço através de uma redução de custos de 100 milhões de euros até ao final do ano, que o Carrefour pretende conseguir através da renegociação das condições com os fornecedores. O Carrefour vai também reexaminar os seus investimentos, para dar prioridade a projectos criadores de valor» e mudar o seu centro de gravidade para países ditos em crescimento», como o Brasil ou a China. Actualmente, a França não representa mais de 46% do volume de negócios (contra os 65% de hÁ três anos) e as cores da insígnia dos seus hipermercados flutuam hoje em 30 países, dos quais 18 com lojas integradas. O Brasil tornou-se o terceiro contribuidor em resultados operacionais (depois da França e da Espanha) e a China, o quinto. Além disso, o Carrefour vai ainda cortar nos orçamentos disponibilizados para a remodelação de lojas. Nas alterações das lojas, os produtos alimentares são privilegiados nas nossas gamas, em detrimento dos artigos não-alimentares», indica José-Luis Duran. No final de 2007, o Carrefour fazia 72% das suas vendas no sector alimentar, nos hipermercados mas também nos seus outros formatos de loja, que funcionam como um factor de resistência aos ciclos económicos». Questionado se a empresa estÁ mais sensível à Bolsa e à pressão dos seus accionistas – onde figura, em primeiro lugar, o grupo de Bernard Arnault, também accionista do LVMH (ver Carrefour com patrão de luxo), e os fundos de investimento Colony Capital –, o director do Carrefour responde que o grupo tem uma boa saúde financeira, o que permite ter meios para o seu desenvolvimento. é o nosso melhor semestre desde 2005». Na cadeia Casino, o principal accionista e o responsÁvel operacional é o mesmo: Jean-Charles Naouri. Também ele estÁ a enfrentar problemas com os seus hipermercados franceses (Géant Casino), que viram a sua frequência recuar e as suas vendas estagnarem no primeiro semestre de 2008, embora tenham conseguido aumentar a sua margem operacional. A nova aposta do grupo, para além dos seus outros formatos de loja, é actualmente o comércio electrónico, com o cdiscount.com, que tem uma gama de vestuÁrio. As vendas adicionais da cdiscount (359 milhões de euros no primeiro semestre, um crescimento de 16%, e 850 milhões de euros para 12 meses) compensam o recuo das vendas de produtos não-alimentares dos hipermercados, conduzindo a uma estabilidade global das vendas deste tipo de artigo em França», afirma a Casino, que não prevê prejuízos em 2008 para o seu site. Os nossos hipermercados têm um formato rentÁvel. Como somos proprietÁrios de 98% dos edifícios, podemos criar valor com galerias comerciais», declara Jean-Charles Naouri, que tem também uma empresa imobiliÁria – a Mercialys. O grupo Casino detém a sua marca própria Casino, tanto em produtos alimentares como em produtos não-alimentares, que representou mais de 50% do seu volume de vendas em Julho de 2008 nos seus 131 hipermercados e supermercados. Na estratégia do grupo, o novo conceito passa pelo vestuÁrio e pela decoração da casa, que são, segundo o director-geral do grupo, Jacques-Edouard Charret, as gamas com uma margem maior no sector não-alimentar. O grupo Casino mantém-se, apesar de tudo, mais exposto do que o Carrefour à situação em França, jÁ que faz apenas 35% do seu volume de negócios com a exportação. JÁ o Auchan aproxima-se, actualmente, dos 50% de volume de negócios fora de França. Menos de um ano após ter deixado Marrocos, o grupo dos Mulliez assinou este Verão uma joint-venture com o Nakheel – promotor e distribuidor do grupo Dubai World (holding do governo do Dubai) – para lançar a marca nos países do Golfo Pérsico. No HexÁgono, o Auchan conseguiu melhorar as vendas dos seus 121 hipermercados no primeiro semestre de 2008 (mais 5,5%). Contudo, o lucro de exploração actual, com excepção das taxas de exploração e amortizações (EBIDTA), da marca de hiper e supermercados diminuiu 7% em França. Os outros negócios do grupo permitem-lhe, no entanto, registar, no total, um crescimento de 3,6% do EBIDTA.