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Tensões comerciais pesam na lã australiana

As incertezas que envolvem a guerra comercial entre os EUA e a China estão a pesar no preço da lã australiana. Apesar disso, a China continua a ser responsável por cerca de 80% das exportações da fibra produzida na Austrália.

O diretor executivo da Australian Council of Wool Exporters and Processors, Peter Morgan, afirmou ao just-style.com que a guerra comercial entre Pequim e Washington tem tido impacto nas vendas de lã. «Eventos com as guerras comerciais entre os EUA e a China, as disputas entre os EUA e a Índia, as tensões políticas entre os EUA e o Irão e a retórica negativa que resulto do mais recente encontro do G20 tem sido prejudicial o que, obviamente, afeta a confiança económica global. Tudo isto prejudica a procura por lã. Observámos isto após a crise financeira mundial em 2008; e, uma vez mais, na primeira metade de 2019, particularmente em junho, uma altura em que houve muitas conversações negativas a nível global», explicou.

Ainda que Peter Morgan assegure que os preços da lã têm vindo a dar sinais de recuperação em julho, a tendência deste ano tem sido de queda. O Eastern Market Indicator (EMI), na semana de 21 de junho, atingiu os 17,66 dólares australianos (cerca de 10,96 euros), por quilo de lã, uma diminuição em relação aos 20,25 dólares australianos de fevereiro, de acordo com a Australian Wool Exchange.

Foram registadas descidas similares nas vendas a dólares norte-americanos, com o EMI a diminuir para 12,18 dólares americanos (aproximadamente 10,95 euros) por quilo, uma quebra em relação aos 14,50 dólares americanos de fevereiro. Em relação ao dólar americano, o EMI não atingia estes valores desde outubro de 2017. A nota da Australian Wool Exchange refere que «as atuais tensões relacionadas com as taxas alfandegárias, o Brexit e o declínio geral da economia global estão a enfraquecer quase todos os mercados financeiros e categorias de produto – a lã e os têxteis não estão certamente imunes a esses fatores».

Peter Morgan recordou, no entanto, que, embora com algumas flutuações, em 2017 e em 2018 os preços atingiram valores históricos. Apesar das recentes diminuições, a média de preços entre julho de 2018 e junho de 2019 foi de 19,39 dólares australianos por quilo e superou os 20 dólares australianos durante a maior parte da época. 2018/2019. Em contraste, para efeitos de comparação, o preço médio na época 2008/2009 foi de 7,94 dólares australianos por quilo, adiantou Morgan. A lã é sujeita às variações normais da procura e da oferta, mas «é uma matéria-prima cuja procura e preço são muito sensíveis a fatores da economia global», apontou.

Novos mercados?

Quando enfrentam disputas comerciais, como a atual guerra entre os EUA e a China, será que os exportadores de lã procuram novos mercados? «Quando se diz novos mercados, é necessário pensar que realmente só existem dois mercados», esclareceu Peter Morgan. O primeiro é os produtores que compram lã australiana e produzem artigos que são propostos aos consumidores. O segundo mercado é os consumidores que compram os produtos laneiros Na verdade, «é justo afirmar que existe sempre uma procura por novos mercados de consumidores», admitiu o responsável, acrescentando que este trabalho é levado a cabo pela Australian Wool Innovation, entidade que representa os produtores de lã do país e que tenta oferecer novos produtos ao mercado global. «Por exemplo, agora é possível comprar calçado em lã», ilustrou Peter Morgan, garantindo ainda que as marcas que usam lã australiana também procuram novos mercados. «Procurar novos mercados é um processo contínuo em tempos bons e menos bons», reconheceu.

Contudo, mesmo com a diminuição dos preços, não existe atualmente pressão para aumentar a quantidade de lã produzida na Austrália. Apenas 6,5% da lã é processada no país. A maior parte é processada na China, que é responsável por cerca de 80% das exportações da lã australiana. Para o sector laneiro australiano enveredar por este caminho é «um grande investimento», concluiu Morgan.