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«Tentamos que o nosso produto seja o mais diferenciador»

Carlos Folhadela, diretor comercial, e Joana Garcia, diretora de desenvolvimento de produto, revelam os projetos futuros da Imprimis by Gulbena – que já estampou desenhos para marcas como Gianni Versace, Prada, Just Cavalli, H&M e Carolina Herrera – para continuar a crescer e a fidelizar os clientes.

Criada em 2012 como nova área de negócio da Gulbena – que tem também a Corporalys e a Bergand –, a Imprimis tem vindo a crescer passo a passo, contando atualmente com três equipamentos de estamparia digital, dois com corantes reativos e um com corantes ácidos. Mas a capacidade de produção pode, em breve, duplicar, com um novo investimento no valor de cinco milhões de euros – que incluirá novas tecnologias de estamparia mas também de preparação e acabamentos –, atualmente em equação.

Quando começou o investimento em estamparia digital?

Joana Garcia – A Imprimis by Gulbena é um dos segmentos da Gulbena. Montámos a primeira máquina em 2012, mas o primeiro ano de produção foi 2013.

Que equipamentos dispõe a Imprimis by Gulbena na atualidade?

Carlos Folhadela – Tem três máquinas, sendo que houve uma alteração. Tínhamos três máquinas a estampar com corantes reativos e, no final do ano passado, passámos uma para ácidos.

Qual é hoje produção média?

Carlos Folhadela – Os números que vou dizer são, digamos assim, quase ótimos. Portanto, a reativos estampamos 130 mil metros por mês e em ácidos 35 mil metros por mês.

Joana Garcia – Claro que tudo isto é ajustável. Há alturas de pico em que trabalhamos três turnos. Ainda temos margem por onde crescer.

Carlos Folhadela – Há a possibilidade – se realmente vai avançar ou não ainda não está absolutamente decidido – de um novo projeto de investimentos que, no mínimo, duplica esta capacidade. Não é só comprar mais máquinas, implica também comprar outro tipo de equipamentos, que são necessários para dar apoio. Antes de estampar é preciso preparar e depois vaporizar, lavar e acabar. Estamos a falar de um investimento de 4,5 a 5 milhões de euros, que basicamente é o mesmo que investimos nestes cinco anos.

Joana Garcia – Aumentaríamos a capacidade tanto em ácidos como em reativos.

Carlos Folhadela – O que também está pensado, e é algo que nós vamos notando que falta no mercado, é a possibilidade de acabar tecidos em contínuo. As empresas que o fazem são muito poucas, muito menos que aquelas que acabam malha por esgotamento. Existem poucas alternativas e há alguma procura. Quando temos tecidos para a nossa estamparia, bases nossas, que temos que preparar em Portugal, conseguimos, mas estamos dependentes das datas que nos dão, que às vezes são longas. O ritmo de quem trabalha em tecidos não é o mesmo de quem trabalha em malhas.

O objetivo é ter total capacidade de resposta dentro de portas?

Carlos Folhadela – Exato. E ainda que tendo como objetivo trabalhar exclusivamente para nós, não pomos de lado nem descuramos a possibilidade de estar no mercado, porque também entendemos que há uma lacuna e que há aqui uma oportunidade de negócio. Também temos experiência na verdadeira prestação de serviços com a empresa mais antiga do grupo, a TTT Tech, portanto não será muito difícil agilizar e conseguir pôr isto em funcionamento, se avançar.

Que processos domina a Imprimis by Gulbena?

Carlos Folhadela – Cada vez mais passamos a dominar o processo por completo. Há equipamento da Gulbena que está na TTT Tech – vaporizador, máquina de lavar, râmula,… A única coisa que efetivamente hoje ainda não fazemos, nem faz sentido no futuro fazê-lo, é o branqueamento. Isso é com eles. Tudo o resto hoje já é connosco.

Joana Garcia – Estamos a preparar um software de acompanhamento online, para saber em qualquer sítio se estampou, quando está a entrar para o vaporizador, quando dá saída do vaporizador, se está na lavagem…

Carlos Folhadela – Quantas encomendas temos esta semana, o que temos para este mês, o que está previsto, como vamos fazer, conseguimos aceitar esta encomenda e dar um timing dentro daquilo que o cliente pretende… Vai permitir um controlo verdadeiro para que ninguém tenha dúvidas.

Quantas pessoas estão afetas a esta área de negócio?

Joana Garcia – Somos cinco, mais os colaboradores das máquinas. Usufruímos dos recursos do grupo. No total [incluindo a Gulbena e a TTT Tech] somos 100 pessoas. Na Imprimis by Gulbena o maior crescimento em número de pessoas tem sido no departamento de design, onde já somos três. A Imprimis tem uma coleção de desenhos, mas mais do que uma coleção feita e fechada por estação – e acho que é diferenciadora das outras empresas precisamente por isto –, está muito mais próxima do cliente no desenvolvimento. Temos clientes constantemente a mandar-nos ideias daquilo que pretendem e nós estamos continuamente a fazer estampados, a enviar-lhes propostas e a alterar produtos. É um desenvolvimento de design, de estampados, muito direcionado para cada cliente.

Carlos Folhadela – Para além de ser um acompanhamento personalizado, é tudo feito à medida. As pessoas dominam as técnicas. A Joana domina porque passou a estar junto da máquina – sabe quais são os problemas, o que dá dores de cabeça, o que é mais crítico, e depois foi passando todo esse know-how a quem foi chegando a seguir.

Joana Garcia – Uma das responsabilidades do Rui Teixeira [administrador do grupo] é essa: não contratou pessoas já especializadas, mas meteu pessoas com conhecimento zero que tiveram 100% formação interna.

Passados mais de cinco anos, que análise fazem da evolução desta atividade?

Joana Garcia – É como se fossem anos-luz. É toda uma constante evolução porque foi o início, a aprendizagem. Embora a tecnologia, as máquinas em si, sejam as mesmas, existe todo um toque diferente de estamparia para estamparia. Conseguirmos um estudo da melhor receita para atingir o melhor nível de cores. Tentamos fazer o nosso caminho e tentamos que o nosso produto seja o mais diferenciador possível. Nós já começámos com as melhores máquinas do mercado, portanto não tivemos a necessidade de, ao fim de dois anos, pensar que já existia uma máquina muito melhor e capaz de oferecer uma nitidez e uma resolução muito superiores. Por aí não se prendeu, mas tudo à volta sim, foi um constante desenvolvimento. Foram as próprias malhas, no acabamento, a ter um toque muito superior, ou melhor, não terem toque nenhum, terem bons amaciadores. Foi por estes pormenores que fomos evoluindo.

Carlos Folhadela – Somos pouquinhos, mas este misturar de experiências, cada um com as suas valências, faz com que funcione. Vamo-nos apercebendo, pelo feedback dos clientes, que conseguimos dar-lhes um atendimento e um serviço que alguns sítios, seja lá pela razão for, não conseguem dar. Nós fidelizamos os clientes. Peixe que cai aqui dificilmente sai deste lago.

Quanto representa a exportação?

Carlos Folhadela – Em 2017 estávamos a falar de 14% de exportação direta. Mas 2018 foi ligeiramente inferior, 11%. O mercado nacional tem uma parcela relativamente significativa, porque se estivermos a fazer para a Givenchy, é para uma confeção portuguesa. Mas temos o objetivo sempre de crescer. Ainda temos margem de progressão.

Quais são hoje os principais mercados geográficos da Imprimis?

Carlos Folhadela – Eu dir-lhe-ia quase sem hesitar que aquele que representa mais para nós é Itália. Não é diretamente, mas é o mercado italiano.

Que outros mercados estão a trabalhar?

Carlos Folhadela – Bélgica, França e Espanha. Temos esperança nalguns países escandinavos, Holanda e Alemanha. E temos um agente no Japão. Tínhamos expetativas nos EUA que acabaram por não se concretizar.

Em termos de estratégia de internacionalização, que planos têm para 2019?

Carlos Folhadela – Passa pela presença em feiras.

Joana Garcia – Para o próximo ano estamos com perspetiva de entrada na Milano Unica. Mas pode ser ainda para 2019.

Carlos Folhadela – Há hipótese de outra feira, em Cannes, a Mare di Moda.

Joana Garcia – Depois mantemos a presença no Modtissimo, na SVP em Londres, na Ispo Munich e na Techtextil em Frankfurt com outras marcas da Gulbena.

Que sentimento lhes transmite hoje o mercado da estamparia digital?

Carlos Folhadela – Acho que se sentem duas coisas: há mais oferta em Portugal, obviamente, e há alguma pressão no lado dos preços – não há que esconder, é um facto. Mas não é algo que sintamos muito. É pontual. Consigo se calhar contar pelos dedos de uma mão as situações em que uma encomenda foi perdida pelo preço, porque o outro fez mais barato. Mas sinto que está já a existir alguma retração. Mas nós temos tanta margem de progressão que podemos nem sequer sentir. O nosso jardim é muito pequenino e, portanto, precisa de pouca água para ser regado. E a água existente é uma questão de procurarmos mais ou cavar mais fundo.

Como têm evoluído os preços?

Carlos Folhadela – No geral têm caído. Isso não há dúvida nenhuma. No que à Gulbena diz respeito, de 2015 para 2018 os preços caíram praticamente nada. A nossa estrutura e a forma de fazer o preço não desceu. Portanto, continuamos a utilizar a mesma ferramenta sob o mesmo princípio.

Que balanço fazem de 2018?

Carlos Folhadela – O ano de 2018 foi ligeiramente inferior a 2017: registámos um volume de negócios de 1,175 milhões de euros e tínhamos tido, em 2017, 1,4 milhões de euros. Não consigo dizer se houve no mercado menos procura e menos trabalho de estamparia digital. Estivemos meia estação parados com um cliente – e tinha um peso, de alguma forma, significativo. E outro cliente que tinha encomendas absolutamente regulares, semanais, deixou de ter. E não conseguimos substituir isso de um dia para o outro. Se estas duas coisas não tivessem acontecido, teríamos registado novamente crescimento. Agora vamos procurar retomar o crescimento.

Por onde pode passar esse crescimento?

Carlos Folhadela – É possível conquistarmos novos clientes que estampam em digital. Se estampam digital, estampam em Portugal. Para passarem a fazer connosco, é uma encomenda que se vai deslocar. Portanto, ele vai ter exatamente a noção de quanto pode pagar por aquele estampado e quanto paga. E eu vou perceber onde é que nós nos situamos. Por aí vamos crescer. E a máquina que passou para ácidos era uma máquina que dava apoio à produção e fazia umas amostras, portanto verdadeiramente não produzia, e nós temos noção do que é capaz de produzir.

Joana Garcia – O facto de termos mudado uma máquina para ácidos, estamos com poliamidas, estamos com banho, entramos no segmento de fitness, ioga, running. Acho que o nosso crescimento vai passar por aí, por vender um produto acabado, por sermos muito mais do que meros prestadores de serviços.

Que expectativas têm para o corrente ano?

Carlos Folhadela – O ano de 2019 trará eventualmente mais dificuldades, mais trabalho e é preciso também alguma sorte. Não podemos dar nada como certo.