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Terramoto em Los Angeles

Para além dos filmes e das celebridades que a colocam no imaginário coletivo, Los Angeles é igualmente um dos mais importantes centros de produção de vestuário nos EUA. A concorrência internacional e o recente aumento do salário mínimo estão, contudo, a abalar a indústria na região.

Los Angeles já foi um dos epicentros da produção de vestuário, atraindo compradores de todo o mundo às suas fábricas, showrooms e gabinetes de design. Mas ao longo do tempo, o trabalho mais barato no estrangeiro levou muitas empresas a deslocalizar a produção para países como a China e o Vietname.

Os que ficaram enfrentam agora um novo desafio: o aumento do salário mínimo na Califórnia para 15 dólares (13,2 euros) por hora em 2022, que pode levar a que mais unidades industriais abandonem a região, escreve o Los Angeles Times.

A American Apparel, a maior produtora de vestuário em Los Angeles, revelou que pode entregar parte da sua produção a subcontratados nos EUA e pôr fim a cerca de 500 postos de trabalho locais. A empresa ainda emprega cerca de 4.000 pessoas no sul da Califórnia.

«O êxodo começou», afirma, ao Los Angeles Times, Sung Won Sohn, economista na universidade Cal State Channel Islands e antigo diretor-executivo na Forever 21. «A indústria de vestuário está gradualmente a encolher e essa tendência irá provavelmente continuar», acrescenta.

Na última década, a produção local de vestuário reduziu significativamente. No ano passado, Los Angeles County contava com 2.128 fábricas de vestuário, menos 33% em comparação com 2005, segundo o Bureau of Labor Statistics. Durante esse período, o emprego também caiu em um terço, para 40.500 trabalhadores. Os salários, entretanto, aumentaram 17%, em valores ajustados à inflação, para 698 dólares por semana – embora possa incluir o pagamento aos executivos de topo, assim como bónus, gorjetas e férias pagas.

Muitas empresas de vestuário afirmam que Los Angeles é um sítio difícil para se fazer negócios. O imobiliário comercial é caro e limitado, o custo das matérias-primas continua a subir e pode ser difícil encontrar trabalhadores qualificados que consigam viver na cidade. Os desafios deverão avolumar-se ainda mais com o aumento do salário mínimo, que irá fazer subir os custos.

Felix Seo confeciona vestuário para grossistas na baixa da cidade há 30 anos. A sua empresa, a Joompy, costumava vender para gigantes do retalho como a Forever 21. Mas à medida que os preços foram subindo, os players da fast fashion deixaram de lhe colocar encomendas. «Costumava pagar 5 dólares para ter isto costurado e agora custa 6,50 dólares», revela Seo com um vestido estampado na mão. «Mas o meu cliente não quer pagar isso, por isso já não posso vender», acrescenta. Para sobreviver, Seo, de 59 anos, pondera importar em vez de produzir localmente. «Vai ser impossível fazer roupa em Los Angeles», garantiu.

O salário mínimo está a acelerar as mudanças na indústria de vestuário de Los Angeles, que começaram há várias décadas, sustentam os especialistas da indústria. Nos anos 90, com a abertura das fronteiras, os concorrentes internacionais começaram a “roubar” o negócio das empresas localizadas na região.

Eventualmente, muitas das principais marcas optaram por localizações mais baratas. A Guess Jeans, que incorpora o look sexy da Califórnia, transferiu a produção para o México e para a América do Sul e, há alguns anos atrás, a produtora de denim premium Hudson Jeans seguiu o mesmo caminho e passou a produzir no México.

Jeff Mirvis, proprietário da MGT Industries em Los Angeles, refere que o outsourcing é necessário para se manter a par dos rivais low cost. A MGT, que produz vestuário para retalhistas, transferiu a sua produção para o México na década de1990, para a China em 2000 e para o sudeste asiático uns anos depois. O design e as amostras ainda são feitos em Los Angeles, aponta. «Os produtores não têm escolha», reconhece Mirvis, que lidera a empresa criada pelo seu pai em 1988. «Com a ascensão da Forever 21 e lojas do género, os preços desceram, desceram e desceram», sublinha.

Os sindicatos, no entanto, acreditam que é a ganância, e não a sobrevivência, que está a levar os produtores de vestuário para fora da Califórnia. «É sempre “se pagar o salário mínimo a este valor não consigo ter lucro”», indica Nativo Lopez, conselheiro-sénior na Hermandad Mexicana, que está a ajudar os trabalhadores da American Apparel a criar um sindicato. «Eles usaram esse argumento quando o salário era de 6,75 dólares por hora», recorda.

O exemplo American Apparel

Durante quase duas décadas, a American Apparel contrariou esta tendência. Em 1997, quando os produtores de vestuário estavam a ir para o estrangeiro, a American Apparel começou a fazer t-shirts de algodão em Los Angeles e a pagar aos seus trabalhadores mais do que o salário mínimo. Na altura, lembra o fundador Dov Charney, a indústria de vestuário local pensava que a empresa estava condenada. «Basicamente achavam que os meus esforços eram fúteis e juvenis. Os concorrentes, os consultores, os bancos – toda a gente pensou que eu era doido», confessa.

Mas a empresa provou que todos estavam errados e o seu sucesso inspirou outros produtores de vestuário a investirem em Los Angeles, acredita Ilse Metchek, presidente da California Fashion Assn. «Foi o impulso para muitas, muitas outras empresas se mudarem para cá para fazer os seus produtos. Se podia ser feito por um principiante como o Dov, outras pessoas pensaram que também o podiam fazer», afirma. Se a produção da American Apparel sair, isso «infelizmente vai fazer a diferença», considera.

Chaney deixou de ser diretor-executivo e presidente do conselho de administração da American Apparel em 2014, após uma investigação ter descoberto alegadamente uma má utilização dos fundos da empresa e comportamento inapropriado com os funcionários. Em fevereiro, o negócio foi comprado depois de ter emergido de um processo de insolvência.

Depois de anos de prejuízo, deslocalizar a produção para fora de Los Angeles é necessário para a sobrevivência da American Apparel, admitem os especialistas da indústria. A empresa inicialmente considerou ficar na Califórnia e estabelecer-se na cidade de Vernon, segundo uma fonte próxima, mas depois do estado ter subido o salário mínimo, os executivos começaram a procurar produtores no sul, revela uma fonte. Sentindo a oportunidade, os produtores de vestuário de Las Vegas, El Paso, no Texas, e Las Cruces, no Novo México, já fizeram visitas para dar a conhecer as vantagens de mudar a produção para as suas respetivas regiões, indica o economista Sung Won Sohn.

Foco no valor acrescentado

Craig Johnson, especialista em retalho na Customer Growth Partners, considera que Los Angeles pode tornar-se para o vestuário aquilo que Sillicon Valley é para a tecnologia: o centro para o design mas não para a produção dos artigos. A maior parte da produção de chips – que está na origem do nome Silicon Valley – abandonou a zona nos anos 80. «Não é uma situação pouco comum em várias indústrias. A componente criativa, que, em certo sentido, é o maior valor acrescentado, fica na sede de uma empresa, enquanto os outros componentes gravitam para ambientes com preços mais baixos», explica.

O que pode ficar em Los Angeles, afirmam os economistas, são fábricas que sirvam clientes que precisam de uma entrega muito rápida das encomendas e confeções especializadas em vestuário de gama alta ou produtos de nicho.

É o caso da Nature USA, que produz vestuário premium para marcas como Patagonia e REI, e que, garante o presidente Mike Farid, vai manter-se na região. A empresa emprega cerca de 140 pessoas em duas unidades produtivas, que fazem casacos, tops e outros artigos com matérias-primas nobres, como o algodão pima.

Fundada em 1996, a Nature USA foi, durante uma década, uma pequena operação. Mas nos últimos anos, refere Farid, a empresa cresceu, à medida que os retalhistas se envolveram em questões como a sustentabilidade e usaram o algodão orgânico como uma oportunidade junto dos consumidores. Nos últimos três anos, o negócio registou uma taxa de crescimento anual das vendas de dois dígitos.

Mike Farid considera que as empresas que fazem vestuário barato com margens de lucro baixas terão de procurar outros locais. Mas a Nature USA deve ser capaz de absorver os custos extra resultantes do aumento do salário mínimo. Farid revela que está a pensar produzir vestuário de gama ainda mais alta. Atualmente, os trabalhadores das suas fábricas ganham em média 13 a 14 dólares por hora. «Nem toda a gente compra no Wal-Mart. Quando se vende uma t-shirt a 30 dólares, não é grave que se gaste mais um dólar a fazê-la cá do que no estrangeiro», advoga.