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Têxteis com água salgada ganham prémio

A SaltyCo foi uma das empresas distinguidas no Blue Bio Value, um programa português de aceleração de negócio. A empresa britânica usa plantas cultivadas em água do mar para fazer têxteis que podem ser usados na produção de enchimento de casacos, tecidos e não-tecidos.

[©James Dyson Award]

O projeto teve início com estudantes do Royal College of Art e do Imperial College of London, ambos do Reino Unido, que pretendiam encontrar uma alternativa mais sustentável ao algodão, que usa 20 mil litros de água doce na produção de apenas um quilo de fibra.

«Inicialmente ficamos chocados com a grande quantidade de recursos que atualmente são usados na moda e na indústria têxtil em geral, sobretudo água potável», explicou à Dezeen Julian Ellis-Brown, engenheiro mecânico que criou a SaltyCo juntamente com Neloufar Taheri, Finlay Duncan e Antonia Jara.

«Temos levado o nosso planeta ao limite dos seus recursos e estamos agora a começar a ver os efeitos com os poços a secar, os lagos e reservatórios a transformarem-se em desertos e cada vez mais pessoas a sofrerem diariamente com a escassez de água», apontou.

Embora a maioria dos esforços para combater este problema estejam centrados em usar matérias-primas orgânicas ou recicladas, Julian Ellis-Brown destacou que a SaltyCo está já a olhar para o próximo desafio.

«Durante muito tempo pudemos comprar têxteis orgânicos, vegan e naturais. Mais recentemente, estamos também a ver a introdução da neutralidade de carbono como uma norma. Agora estamos a olhar para o que será o padrão de sustentabilidade amanhã – tecidos sem utilização de água potável», afirmou.

Três versões

A SaltyCo está a desenvolver três têxteis diferentes a partir das plantas cultivadas em água salgada: um tecido, um não-tecido e um enchimento técnico. Este último está mais próximo de chegar ao mercado, tendo sido mostrado como parte de um casaco que Elis-Brown descreve como quente, leve e hidrofóbico, pelo que o material é adequado para ser utilizado como isolamento.

O não-tecido também já foi mostrado de algumas formas e poderá ser usado em acessórios ou como imitação de couro.

O tecido, por seu lado, necessita de mais desenvolvimento e, se tudo correr como planeado, pode ter propriedades semelhantes ao linho ou ao algodão.

[©James Dyson Award]
A distinção no Blue Bio Value, um programa da Fundação Oceano Azul e da Fundação Calouste Gulbenkian, realizado com o apoio da Fábrica de Startups e da BlueBio Alliance, valeu à SaltyCo um prémio de 15 mil euros, que poderá ser gasto  na Blue Demo Network, que inclui uma série de infraestruturas e serviços, nomeadamente laboratórios, espaços de escritórios e serviços de apoio, incluindo aconselhamento legal.

Nesta edição, o Blue Bio Value contou com a participação de 14 startups finalistas, que deram a conhecer soluções e negócios ligados, entre outros, à descarbonização, ao restauro de ecossistemas, à dessalinização, à produção sustentável de algas para diferentes fins e à utilização de desperdícios de atividades piscatórias. 2020 foi, de resto, o ano com o número mais elevado de candidaturas desde o lançamento do programa, em 2018, tendo contado com 120 projetos participantes de mais de 30 países.

Além da SaltyCo foram ainda premiadas a espanhola Refix, que desenvolveu bebidas feitas a partir de água recolhida no Oceano Atlântico, e a portuguesa Horta da Ria, que produz salicórnia, uma planta comestível que cresce em zonas de sapal como a Ria de Aveiro e que serve de alternativa saudável ao sal.