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Têxteis com muitas funções

Maior volume de negócios através de funções

Bem-vindos ao futuro. Fibras e tecidos com valor acrescentado conseguiram infiltrar-se com sucesso na indústria de vestuário. Os produtores sempre tentaram inovar e apresentar soluções que facilitassem a vida dos utilizadores. O sucesso foi obtido com os têxteis técnicos, onde se inclui o vestuário funcional e tecidos de valor acrescentado que nos últimos anos geraram muitos lucros aos produtores num mercado em que os têxteis e vestuário tradicionais se encontram em queda. Os têxteis técnicos são, a nível global, o segmento de crescimento mais rápido no mercado têxtil.

A empresa de consultoria britânica David Rigby Associates avaliou a utilização mundial de têxteis técnicos e não-tecidos no ano de 2000 em 16,7 milhões de toneladas, o que representa uma subida de quase 50 por cento comparativamente ao valor estimado do volume de mercado de 1997 de 11,3 milhões de toneladas. Até ao ano de 2010, a Rigby prevê uma taxa de crescimento que poderá alcançar 23,6 milhões de toneladas. Nos EUA e na Europa, os têxteis técnicos representam actualmente 40 por cento do volume de negócios da indústria têxtil. Até 2010, os especialistas prevêm um crescimento anual do volume de negócios nos têxteis técnicos entre 3 a 5 por cento na UE, nos EUA e no Japão. Na China e Índia, o crescimento nos próximos cinco anos deverá ficar nos 5 a 7 por cento.

No que diz respeito à Alemanha, a fatia dos têxteis técnicos e têxteis inovadores, no total de utilização de têxteis, situava-se ainda no final dos anos 80 em apenas 8 por cento. «Verificou-se um grande desenvolvimento entre 1988 e 1995, e actualmente os têxteis técnicos representam na Alemanha 40 por do volume de negócios total», afirma Werner Zirnak, vice-director-executivo da Federação da Indústria de Fios, Tecelagem e Têxteis Técnicos (IVGT), em Eschborn. Em 2003, o volume de negócios atingiu 5,36 mil milhões de euros num volume de negócios total de têxteis de 13,43 mil milhões de euros. Nos próximos dois a três anos, os têxteis técnicos vão aumentar a sua fatia para 45 por cento, de acordo com as previsões de Zirnzak. A Federação divide os têxteis técnicos em nove grupos, entre os quais estão Buildtech, Geotech e Medtech. O vestuário funcional, em que está incluído o vestuário de trabalho, protecção e corporativo, encaixa-se no grupo Protech. O vestuário de lazer é considerado dentro do segmento Sporttech.

Segundo Zirnzak, os produtores alemães têm no mercado mundial um papel de líder e, juntamente com os fornecedores europeus, não precisam de recear os fornecedores chineses ou outros fornecedores asiáticos. «Temos nos têxteis técnicos um avanço no know-how entre cinco e dez anos». O importante é manter esta vantagem o maior tempo possível. Muitas empresas-membro da federação registaram nos últimos anos resultados muito positivos com os têxteis técnicos. Zirnzak presume «que este ano a situação se torne a verificar».

Funções identificáveis

As feiras Techtextil e Avantex servem para demonstrar que o desenvolvimento de fios e tecidos inovadores não é uma diversão para os produtores, uma vez que permitem dar a conhecer o que pode ser feito através destes materiais sem chegar a introduzir o produto no mercado. Um dos projectos distinguidos com o prémio “Inovação” da Avantex foi um fato para motociclistas com articulações flexíveis. A ideia foi inspirada na natureza, mais precisamente no tatu, cujo corpo é composto por anéis articulados. Utilizando esta tecnologia, o fato para motociclistas torna-se cómodo nas várias posições, sem negligenciar a vertente de protecção. Outro premiado foi o Baby-Body desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia Têxtil e Engenharia Química (ITV), em Denkendorf. Através da incorporação de bandas condutoras laváveis no body, é possível monitorizar o rimo cardíaco, a respiração e a temperatura do bebé, protegendo-o assim, por exemplo, da síndrome da morte súbita. Actualmente, este body esta a ser testado clinicamente e poderá estar disponível no mercado dentro de um a dois anos. «Hoje em dia já é possível incorporar muitas propriedades técnicas nos têxteis», afirma Hansjürgen Horter, do ITV. O problema reside, tal como anteriormente, no encarecimento do artigo quando lhe são conferidas estas propriedades, agravado pelo facto de a indústria de vestuário estar ligada aos curtos ciclos de moda e os desenvolvimentos electrónicos não poderem acompanhar este rimo. «Os fornecedores de vestuário recebem com agrado estas inovações, possibilitando cada vez mais a aproximação a produtos com características funcionais», afirma Horter.

Já em utilização está a fibra de bambu da Toray. Actualmente a fibra de bambu misturada com poliéster é utilizada em vestuário desportivo. «O bambu tem a vantagem face ao algodão de poder absorver consideravelmente mais humidade», afirma Nicholas Zapotocky, da Toray Alemanha. Para além disto, as fibras de bambu são completamente recicláveis.

Muitos produtores interessam-se também pelo desenvolvimento de produtos já existentes. Os collants de descanso Lycra Legcare, da Invista, estão no mercado há já dez anos e o novo desenvolvimento deste produto chama-se Lycra Power, tendo a característica de exercer compressão sob determinados grupos de músculos. «O cansaço dos músculos é reduzido em 10 por cento», explica Petros Dafniotis da Invista. A empresa deu mais um passo em frente ao apresentar o primeiro protótipo de um fato de desporto justo, sem costuras, que exerce pressão em diferentes partes do corpo, ao mesmo tempo que é extremamente elástico.  

O produtor de fibras Trevira também aposta no melhoramento de tecnologias conhecidas, como é o caso da fibra de poliéster Bioactive, com propriedades anti-microbianas cada vez mais utilizadas em têxteis ligados à medicina e ao vestuário de trabalho. De acordo com a política da empresa, os novos desenvolvimentos de produtos já existentes levam sempre a novas e mais específicas aplicações que podem revelar-se interessantes para outras áreas.

A SwissCotton Silver, do grupo suíço Hermann Bühler, promete uma lista de propriedades adicionais. «Esta fibra une as propriedades do algodão com a função da prata», explica Leo Berginz. A fibra de poliamida X-Static, revestida com prata, é anti-microbiana, anti-estática, anti-odor e térmica. As fibras são incorporadas na roupa interior e meias juntamente com algodão. «Nós podemos avançar para outros campos, como por exemplo a produção de ligaduras medicinais ou batas cirúrgicas com SwissCotton Silver». Berginz pensa ainda noutras aplicações como o revestimento interior de casacos de couro que não podem ser lavados. «O importante é que o campo de aplicações possíveis é muito diverso e a aplicação pode ser feita rapidamente».

O exemplo do desporto

Muitas das funções que encontraram aplicação no vestuário do dia-a-dia são uma constante para os comerciantes de vestuário desportivo e de trabalho. Prova disso são os materiais térmicos que continuam em constante desenvolvimento. As diferenças acentuadas de temperatura obrigam o corpo a reagir, sempre em detrimento da performance. Manter a temperatura do corpo é a promessa da empresa Suiça X-Technologie com a sua roupa interior Bionic Energizer e Bionic Vitalizer. A transpiração activa a função refrescante obtida através da tecnologia 37ºCCR. Nas zonas do corpo onde se transpira mais, como por exemplo nas axilas, são incorporados nas t-shirts depósitos adicionais que absorvem a humidade, transportando-a para as camadas superficiais do tecido.

A técnica de microcápsulas da Outlast Europe permite também a compensação de diferenças de temperatura. Os denominados Materiais com Mudança de Fase (PCM)  assimilam o excesso de temperatura corporal, retêm-na e devolvem-na ao corpo quando necessário.  Esta tecnologia foi inicialmente desenvolvida pela NASA com o objectivo de proteger os astronautas das diferenças térmicas extremas. De acordo com a Outlast, os PCM podem ser directamente incorporados nas fibras ou usados como revestimento. Esta tecnologia é muito utilizada por quem fornece equipamento para forças policiais ou para o exército, mas também encontra aplicação civis, como por exemplo no vestuário de lazer de marcas como Bugatti, Pierre Cardin e Lufthansa.

Este acabamento está ainda actualmente limitado às fibras de acrílico. Para de futuro poder ser aplicado noutras áreas, a empresa está a trabalhar noutras fibras. A Schoeller Textil conseguiu este ano um avanço nas fibras naturais. «Agora podemos aplicar também no algodão, lã e seda, propriedade repelente de nódoas conferida pela tecnologia das nanoesferas», afirma o director executivo Hans-Jürgen Hübner.  As propriedades das fibras naturais, como a suavidade e respirabilidade, permanecem inalteradas. «A abrangência de utilização será ainda maior, distanciando-se da simples função de protecção para o conforto», afirma Petra Harrer da W. L. Gore & Associates. No entanto, muitos ainda duvidam se tudo o que possível é também necessário.

Linguagem corporal

Na opinião de Klaus Faust, director-executivo da empresa de vestuário masculino Lodensfrey, a fronteira entre o possível e o necessário é muito ténue. Fundado há um ano, o Londenfrey Service produz vestuário para motociclistas e fatos de protecção para bombeiros, tal como a Wearable Electronics em cooperação com a Infineon. Não com o seu nome, mas para concorrentes. Faust está desde há muito presente no mundo do automobilismo e é verdadeiramente fascinado pelas possibilidades que a electrónica pode ainda no futuro ter no vestuário. «Nos automóveis, as novidades mais importantes vêm do campo da electrónica e não da mecânica. Para mim o processo de desenvolvimento é importante. Aprender a fazer», afirma ele. É verdadeiramente entusiasmante testar a lavagem de um têxtil em conjunto com a electrónica ou integrar um teclado num material maleável.

Cada vez mais designers de moda se interessam pelo tema dos têxteis inteligentes. O designer Hussein Chalayan afirma que «as verdadeiras novidades na moda têm origem na tecnologia. Com base nela podemos criar coisas que no passado seriam impossíveis». Suzanne Lee, professora no Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, quer eliminar as fronteiras. «Os laboratórios são os ateliers de amanhã» é o tema da sua tese. Com as novas tecnologias pode transformar-se o vermelho em verde, bolas em riscas e o escuro em claro. Em vez de usar processos complexos de estampagem os tecidos serão trabalhados no computador portátil.

Marion Ellwanger, professora na Swedish School of Textiles, incentiva os seus alunos e coloca-lhes perguntas como «O que são têxteis inteligentes?; Que novos métodos de design é que precisamos para o seu desenvolvimento?; Para que precisamos desses produtos?». Nesta escola também existe unanimidade relativamente à tecnologia, ou seja que esta vai modificar completamente a formação e profissão dos designers têxteis e de moda.

 Sabine Seymour, da Moondial Inc, de New York, cita o autor do livro “The Supermodern Wardrobe” (o guarda-roupa super-moderno). Este autor escreve que o vestuário tem funções sociais, psicológicas e físicas. Seymour acrescenta que «a nossa comunicação não depende exclusivamente da fala». O seu projecto ambicioso é criar vestuário que com a ajuda da electrónica reaja ao olhar dos outros.

Possibilidades técnicas

Lisa Stead, do Central Saint Martins College e Peter Goulev, do Department of Electrical and Eletronic Engineering do Imperial College (departamento de engenharia eléctrica e electrónica), estão interessados em estabelecer uma ligação entre a moda e a tecnologia. Na sua opinião, «já existe muito vestuário funcional. Mas a investigação ainda se ocupa muito pouco com a utilização da tecnologia para fins estéticos e comunicativos». O seu “Emotional Wardrobe” (guarda-roupa emocional) utiliza o computador para tornar visíveis os sentimentos. O seu vestuário reage a emoções, emite sinais, fala a denominada linguagem corporal.

Muito foi já descoberto, mas há ainda muito por descobrir.