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Têxteis da Índia enfrentam 2005 – Parte 2

Os analistas da indústria têxtil internacional são unânimes em afirmar que o crescimento do retalho organizado na Índia pode constituir um forte impulso para a melhoria da qualidade dos produtos, bem como a sua variedade e produtividade, ao longo de toda a cadeia de produção.

Embora os maiores retalhistas indianos não passem de pequenas peças, quando comparados com os seus concorrentes globais, muitos deles têm vindo a adoptar entusiasticamente novos processos de gestão que em nada ficam atrás das principais práticas mundiais neste sector, incluindo oB2B e oe-commerce.

Este facto tem funcionado como um “filtro”, quer esta adopção seja fruto de um planeamento antecipado e devidamente estruturado, quer seja ditada pelas exigências internacionais ao nível da qualidade dos artigos e da gestão das relações comerciais.

Diversos observadores, incluindo os próprios retalhistas indianos, concordam que os retalhistas estrangeiros podem ajudar a acelerar este processo de desenvolvimento.

Ainda assim, o governo deste país parece pouco receptivo à entrada de empresas estrangeiras no seu tecido industrial, embora o ministro indiano das finanças tenha afirmado numa recente entrevista que o seu governo está “empenhado no princípio de permitir até 26% de investimento estrangeiro no retalho de têxteis e vestuário”, desde que os retalhistas locais atinjam uma dimensão que lhes permita competir com eles.

Cada vez mais a Índia é vista pelos maiores retalhistas mundiais como um importante mercado futuro, ao qual pretendem ter acesso directo através das suas próprias filiais, em vez de recorrerem aofranchise ou a acordos do tipo licenças, sempre em parcelas minoritárias.

Como sinal desta sua aposta no país em questão, muitos desses retalhistas têm vindo a defender posições politicamente correctas em relação ao aumento dos seus volumes de compras aos fabricantes indianos e apoiando os seus fornecedores locais.

Como exemplo desta política, o artigo doJust-style.com refere aJC Penney, grupo norte-americano que prevê comprar mercadoria no valor de700 milhões de dólares nos próximos anos, enquanto aGap faz já compras no montante de 600 milhões nesta região.

Outros grupos internacionais vêm igualmente a Índia como um potencial mercado fornecedor de vestuário, tendo a recente visita ao país do responsável de compras daDebenhams, Francis McAuley, sido amplamente divulgada pela imprensa local.

Por seu lado, aWal-Mart tem vindo a testar a capacidade de produção do interessante mercado indiano, perspectivando vendas no valor total de 1.000 milhões de dólares.

Esta aposta começou com um projecto-piloto em Houston, no Texas, através do qual a referida cadeia vende os seus doces e gomas aos emigrantes indianos residentes nos Estados Unidos, e se os resultados forem encorajadores, aWal-Mart planeia expandir esta presença à Califórnia, Nova Iorque e New Jersey, os três estados com maior número de população de origem indiana.

Apesar destas perspectivas, oCarrefour, segundo maior retalhista mundial, adiou os seus planos para instalar uma operação retalhista na Índia, tendo chamado o seu representante no país, Jean Chritophe Goarin, em Março passado.

O Carrefour pretendia inicialmente explorar a sua opção de entrada no mercado indiano através de um franchisado, antes de mostrar preferência por uma presença directa no país, que no entanto não é permitida pelas leis actualmente em vigor.

Alias, para a maioria dos grandes retalhistas internacionais, a possibilidade de abordar o mercado indiano numa óptica de venda não deverá ser explorada sem antes existir uma clara definição política de Nova Deli, que só agora pode ser assumida, na sequência das eleições realizadas em Maio passado.

As empresas chinesas mostram-se igualmente entusiasmadas com a Índia, vendo este país como um lucrativo mercado consumidor, ideal para os seus produtos, mais do que como uma base de fornecimento de produtos têxteis.

As actuais infraestruturas de produção da Índia são ainda mais caras do que as chinesas, bem como o custo do capital emprestado.

Apesar deste interesse, as autoridades indianas revelam ainda uma certa resistência à importação dos artigos chineses baratos, facto que constitui um obstáculo ao estabelecimento de um acordo de comércio entre os dois estados, tendo em 2001 e 2002 sido instauradas 36 investigaçõesanti-dumping contra as importações da China.

Os cépticos da evolução do mercado indiano referem igualmente que a assinatura de um acordo de livre comércio entre a Índia e o Sri Lanka não obteve ainda um impacto verdadeiramente significativo nas trocas comerciais entre estes dois países.

Ainda assim, as empresas indianas permanecem na expectativa, uma vez que actualmente têm que recorrer a ummix de instalações industriais dispersas pela China, Índia e outros países, dinamizadas pelas capacidades de design emerchandising da Índia, de forma a atender os seus clientes de marca e retalho, como já sucede com aRaymond e aAditya Birla.

Em síntese, os indianos comercializam têxteis a nível global há milhares de anos, vendendo os produtos fabricados no seu país, bem como os produzidos noutras paragens, pelo que 2005 poderá trazer o renascimento do comércio têxtil na Índia, seguindo um modelo de negócio impulsionado pelo design e desenvolvimento de produtos, com a respectiva produção a ocorrer em diversos países, entre os quais a própria Índia…