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Têxteis e vestuário com novas tendências na gestão da produção – Parte I

No universo da indústria dos têxteis e vestuário, é geralmente aceite que o principal objectivo de uma cadeia de produção eficiente e dinâmica é reduzir o tempo até os produtos chegarem ao mercado. No entanto, este consenso parece estar a ser desafiado por algumas pessoas inovadoras, que acreditam que o enfoque deve ser posto sempre nas necessidades e gostos do cliente, tendo como recompensa um reduzido stock e um aumento de 15% nos lucros. “O novo lema destes visionários é «menos tempo até o consumidor»”, afirma Vicky Hyde, da empresa especializada em software para a indústria têxtil, Intentia. “Devemos esquecer a antiga noção segundo a qual o mais importante é colocar os artigos nas prateleiras, porque não é. O principal objectivo actual é proporcionar a toda a cadeia de produção de vestuário uma visão integrada das exigências e gostos dos consumidores, de forma permanente”, defende esta responsável. “Segundo esta abordagem, o fluxo de material é sincronizado ao longo de toda cadeia de produção, de forma a acompanhar permanentemente a procura por parte dos clientes, e abandonando assim a abordagem tradicional que defendia que os stocks devem ser assegurados ao longo das diferentes fases da referida cadeia de produção”, prossegue Vicky Hyde, citada no artigo do Just-style.com. Vicky Hyde explica igualmente que, ao referir-se à moda, ela inclui o vestuário, calçado, têxteis e acessórios, adiantando que, apesar de cada um destes sectores possuir as suas características e desafios particulares, todos partilham um aspecto em comum, que é o modelo de negócio totalmente virado para os consumidores, que se sobrepõe a todos os outros aspectos. Aliás, esta especialista mostra-se quase angelical na sua crença de que, com apenas um pequeno investimento na área das tecnologias da informação, esta indústria poderá erradicar o que ela chama “cegueira da cadeia de produção”, obtendo ao mesmo tempo um elevado retorno desse investimento, traduzido em óptimos resultados financeiros. Entre as vantagens desta abordagem, contam-se “a redução do tempo até chegar ao consumidor pode chegar até um terço, assim como a redução dos custos e despesas com a manutenção e gestão de enormes stocks, que pode ir até aos 50%, resultando em melhores cash flows”. Vicky Hyde explica ainda que estas cadeias de produção podem confiar nas relações cooperantes e abertas para criarem flexibilidade e agilidade, porque todos os participantes – do retalhista ao fabricante, passando pelos fornecedores de matérias-primas e sub-contratados – consideram as necessidades dos consumidores em simultâneo e podem assim responder a elas quase em simultâneo. Esta especialista cita os exemplos da Mango e da Zara, como empresas inovadoras e que as outras devem seguir. “Elas começam no consumidor, e continuam de trás para a frente através da cadeia de produção, e têm uma abordagem mais agressiva nos pontos de venda do que no resto da cadeia”, refere Vicky Hyde, acrescentando que “isto cria um ambiente aberto e no qual todos os elementos se focam num único objectivo: a satisfação das necessidades dos consumidores, e assim se a procura variar subitamente, a cadeia de produção estará suficiente ágil e flexível e poderá responder de forma imediata”. Esta especialista da Intentia acrescenta ainda que as cadeias de produção tradicionais têm, em média, 75% de artigos a mais em stock, tendo em conta a procura estimada por parte dos consumidores, acrescentando que isto só acontece devido a uma mentalidade, na qual, por exemplo, são fabricadas 50.000 peças para responder a uma encomenda, e essa quantidade é colocada num armazém central, sendo posteriormente retirados os artigos em pequenas quantidades. Como responsável pela área de soluções globais para a indústria têxtil da Intentia, Vicky Hyde vê muitas empresas acumularem vastos stocks de artigos, o que lhes custa uma fortuna. “As empresas de vestuário deviam ser mais cuidadosas: as sweaters, por exemplo, deveriam ser renovadas três vezes por ano, as calças para homem seis a oito vezes por ano, e o sportswear nove vezes”, explica esta especialista. Vicky Hyde defende que o exemplo a seguir para evitar este problema com as quantidades em stock assenta numa perspectiva total de toda a cadeia de produção de vestuário, o que exige naturalmente que todas as partes trabalhem em conjunto, numa óptica de parceria e com objectivos comuns. Adiantando que, se a indústria do vestuário pretende realmente implementar esta renovação e adoptar novos e mais eficazes modelos e técnicas de gestão, terá forçosamente que levar a cabo profundas alterações, tanto a nível da cultura e mentalidade de gestão, como em termos das novas inovações ao nível da tecnologia. A confirmar esta posição, existe um estudo levado a cabo pela AMR Research, em 1999, em que se afirmava o seguinte: “No retalho actual, a capacidade de explorar as tecnologias da informação define a apetência de um determinado retalhista para ser bem sucedido”. Ainda segundo este estudo, “a tradicional abordagem na aplicação e gestão das infraestruturas tecnológicas está a revelar-se como um sério risco estratégico, e os retalhistas devem melhorar as suas capacidades para se integrarem, cooperarem e negociarem contratos com os seus fornecedores”. Em síntese, “uma cadeia de produção integrada constitui uma mais-valia ilimitada e vem ao encontro dos principais objectivos das empresas, pois assegura um planeamento eficaz e racional, ao mesmo tempo que garante a eficácia, a visibilidade e a comunicação entre os retalhistas e os respectivos fornecedores e parceiros”, concluía o referido estudo da AMR Research.