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Têxteis europeus beneficiam com o alargamento?

Em 1959, um dos fundadores da União Europeia, o visionário francês Robert Schuman, afirmou “devemos estar prontos para receber os países da Europa de Leste na União no momento em que eles o desejarem”.

Ajudada pela inesperada queda do Muro de Berlim (1989) e pelo fim da Cortina de Ferro, a União Europeia levou em conta a antevisão de Schuman.

Ao receber dez novos membros em 1 de Maio passado, a UE assumiu uma nova dimensão.

De um só golpe, a União Europeia passou a contar com 453 milhões de consumidores, enquanto há escassos meses tinha 380 milhões.

O alargamento efectuado em Maio de 2004 foi, porém, muito peculiar…

Com efeito, em nenhum outro momento se registou a entrada de tantos novos membros – dez – no espaço europeu comum. Outro aspecto saliente deste alargamento é o facto de, à excepção de Chipre e Malta, os restantes novos estados membros da UE estarem ainda na fase de transição do sistema de mercado socialista para o sistema de mercado livre.

Ao contrário do que é esperado acontecer já em 2005, com a queda das actuais quotas no comércio internacional de têxteis, não deve dar-se nenhum “big bang” nos têxteis europeus, na sequência do referido alargamento da Comunidade.

Provavelmente, a maior alteração decorrente da entrada destes dez países é a introdução de taxas aduaneiras na União Europeia, bem como o estabelecimento temporário (durante apenas 8 meses) de quotas no espaço comercial europeu.

Segundo o artigo doJust-style.com, o comércio entre os anteriores países membros e os dez novos estados da UE será positivamente influenciado pelo alargamento, devido ao aumento da concorrência e do grau de especialização neste sector.

As exportações de vestuário dos países mais antigos para os novos membros vais seguramente beneficiar do forte crescimento do consumo e do fascínio pelas marcas e fabricantes ocidentais que se verifica nos mais recentes membros da União.

Por outro lado, as regiões têxteis que carecem de reestruturação, em especial na Grécia, Portugal e Espanha, terão que partilhar os fundos estruturais europeus com zonas ainda mais debilitadas nos novos estados da UE.

Até à data, os fabricantes de vestuário europeus acreditaram que a Europa Oriental significaria uma produção de nível europeu, a custos de nível asiático.

O alargamento comunitário vai provavelmente encorajar cada vez mais produtores de têxteis e acessórios a levar em conta o verdadeiro potencial da Europa de Leste, em termos da produção e/ou subcontratação de certos tipos de artigos.

Na última década, as empresas europeias investiram mais de 100 mil milhões de euros nos dez novos membros da União Europeia, adquirindo as suas empresas ou criando novas fábricas.

Alias, os novos aderentes da UE são claramente um Mercado em potencial crescimento para a indústria dos têxteis e vestuário dos países mais antigos da Comunidade.

Tomemos como exemplo a evolução das exportações da ITV europeia para a Polónia, um mercado com cerca de 40 milhões de consumidores. Em 1989, quando a Polónia era ainda um estado socialista e a União Europeia tinha apenas 12 membros, as exportações de têxteis e vestuário não ultrapassaram os 350 milhões de euros.

Já em 1995, as mesmas exportações superaram os 1,6 mil milhões de euros, embora desde esse ano as vendas da Europa para este país de Leste tenham vindo a crescer a um ritmo mais lento, para os 2,4 mil milhões de euros.

Devido ao aumento dos salários e ao fácil acesso ao crédito, o consume tem vindo a crescer rapidamente na maioria dos novos países da UE, e deve manter esta tendência após a sua adesão.

A consultora internacionalMcKinsey estima que a adesão à União Europeia pode acrescentar 1-1,8% às taxas de crescimento anual do PIB destes estados europeus, o que, a suceder de forma sustentada, pode levar países como a República Checa e a Hungria a igualar o PIB de estados como a Grécia e Portugal, no prazo de 15 anos.

Actualmente, o poder de compra em Chipre, Malta e Eslovénia está já muito próximo do registado na Grécia, o membro mais pobre da comunidade.

Ao mesmo tempo, o baixo nível dos salários praticados nestes recém-chegados países parece menos ameaçador para o emprego na Europa comum do que se poderia esperar, embora os vencimentos no sector industrial nestes estados sejam, em média, apenas 1/7 dos praticados nos restantes países.

Existem três grandes motivos pelos quais os grandes fabricantes de vestuário da União Europeia não devem lançar-se desenfreadamente na produção nos novos membros.

Em primeiro lugar, muitos dos referidos fabricantes já produzem artigos nestes países, e a maioria dos 600.000 trabalhadores dos têxteis e vestuário dos dez novos estados trabalham para o mercado comum europeu, sendo que quase 100% das suas exportações se destinam à União.

Em segundo lugar, as empresas compradoras levam em conta que a produtividade nestes países é cerca de metade da média dos anteriores 15 membros da EU, embora esteja a crescer a um ritmo de 3%-3,5% ao ano.

Finalmente, estes compradores esperam um forte crescimento dos preços nestes estados, apesar dos esforços dos respectivos governos para tentar desesperadamente travar a subida dos salários.

Em síntese, tudo indica que as principais vantagens competitivas dos novos membros da Comunidade face à concorrência asiática – a proximidade e a reciprocidade das trocas comerciais – serão fortemente valorizadas pelas empresas de têxteis e vestuário dos restantes países…