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Têxteis investem na sustentabilidade

A sustentabilidade tem ganho uma importância crescente nas vendas e isso refletiu-se nas novas propostas apresentadas no Modtissimo, onde estrelaram os orgânicos e os reciclados, numa altura em que as empresas procuram retomar o dinamismo nos negócios.

A tendência sente-se dos fios às malhas, passando pelos acessórios e pelos tecidos. Na Solinhas, «sem dúvida» que o sustentável tem registado uma maior procura, garante Lurdes Fernandes, que aponta que «o poliéster reciclado é o artigo pelo qual mais têm perguntado e é uma das nossas apostas». Aliás, refere, «não sei se vai, de um momento para o outro, superar os nossos outros artigos, mas nota-se que o mercado, e o mundo, está nesse caminho». Outro trunfo da empresa de linhas de costura tem sido as opções de fantasia, tanto próprias como da marca Gunold, que representa em Portugal, onde constam também linhas mais técnicas, como as solúveis com água e pelo calor. Propostas para dinamizar a retoma, que, depois da queda entre março e maio, se fez sentir entretanto. «Até em Portugal, apesar de algumas dificuldades, as coisas estão a crescer novamente. Ainda não atingimos os valores que tínhamos, mas também é um processo», afirma a administradora da Solinhas, que em 2019 registou um volume de negócios na ordem dos 3,5 milhões de euros.

Lurdes Fernandes

A atenção ao ambiente consta também das preocupações, e das prioridades, da Idepa. A especialista em fitas e etiquetas deu seguimento ao desenvolvimento de soluções ecológicas, incluindo a utilização de matérias-primas recicladas, embora, reconhece Nuno Almeida, coordenador de vendas da empresa, o ponto de partida seja ainda pequeno. «Há pessoas que têm essa pretensão [de usar materiais mais sustentáveis] mas quando chegamos à questão do preço ou de cores que não são possíveis, abandonam o projeto», adianta ao Jornal Têxtil.

A atenção da Idepa está igualmente muito focada na customização para cumprir os requisitos do cliente e, durante os últimos seis meses, no estabelecimento de um contacto mais direto, nomeadamente com o reforço da plataforma própria. «Temos um sistema em que definimos o produto para o cliente e este faz o seu pedido», explica, salientando que, tendo em conta a personalização que é feita, «o nosso tipo de produto não se consegue vender numa página web como conhecemos».

Nuno Almeida

A atividade da empresa manteve-se, apesar da queda sentida nos artigos para a indústria de vestuário e do calçado. «Nunca parámos», destaca Nuno Oliveira, que refere que os elásticos para máscaras e as fitas para cadeiras de bebé, entre outros, permitiram «manter a dinâmica. Fomo-nos adaptando às coisas novas que iam aparecendo», sublinha.

Adaptação é igualmente palavra de ordem na Albano Morgado. «Este vírus vai mudar o mundo. Aquela normalidade, a forma como vivíamos até surgir a pandemia, não vai voltar. O mundo vai mudar e a nossa forma de viver e de comercializar vai alterar, obviamente», assevera Baltazar Lopes. A produtora de tecidos laneiros viveu os últimos meses «com muita dificuldade e muitas incertezas», sobretudo no início do confinamento, confessa o administrador. «Tivemos muitas suspensões e reduções de encomendas – sobretudo reduções, algumas de 50%», afirma. Neste momento, há «uma vontade de voltar ao normal» e as vendas online por parte de alguns dos clientes da empresa têm contribuído para manter a produção, assim como os mercados do Norte da Europa. «A Alemanha, a Holanda, a Dinamarca e a Suécia são países que me parece que estão a recuperar bem – tenho esperança nesses mercados», enumera Baltazar Lopes. Ainda assim, uma queda no volume de negócios será inevitável para a empresa, que em 2019 ultrapassou os 5 milhões de euros.

Baltazar Lopes

«É óbvio que este inverno vai ser difícil, mas 2021 vai ser um ano de renascimento», acredita o administrador da Albano Morgado, que para o outono-inverno 2021/2022 apresentou uma coleção marcada pela lã, por vezes em misturas com matérias-primas nobres como caxemira, alpaca e pelo de camelo, e pela preocupação com o meio ambiente. «80% da nossa coleção é 100% lã. Temos uma linha de reciclados e depois temos uma linha também de produtos que designamos por Ecolife, que não têm utilização de qualquer produto químico. Criámos ainda uma nova linha só com cores da natureza, a Nature Line», indica.

Na Modelmalhas, a coleção apresentou-se dividida em quatro conceitos, onde o orgânico é transversal: Advance, para malhas com mais performance; Essential, dedicado aos básicos; Fancy, mais voltado para as tendências; e Premium, com fibras mais nobres e acabamentos com qualidade superior. A empresa apresentou ainda uma malha com acabamento antibacteriano e antiodor, que esteve em destaque no Fórum de Tecidos Técnicos e Inovadores do iTechStyle. «É um antibacteriano desenvolvido pela Success Gadget, uma das empresas do grupo [Diastêxtil]. É aplicado um composto químico através de nanopartículas no substrato têxtil e tem uma durabilidade de 50 lavagens», esclarece John Gomes, do departamento comercial da empresa, que durante o confinamento manteve-se a trabalhar, apesar de ter reduzido a atividade para 60%.

John Gomes

«2019 foi um bom ano e, de forma geral, temos vindo a consolidar-nos no mercado europeu e a nível mundial – há muitas marcas que têm voltado para Portugal e as produções estavam a aumentar. Com a pandemia, abrandou bastante no início do ano. Agora algumas encomendas estão novamente a surgir e esperamos que se mantenha», revela. A Modelmalhas permanece, por isso, empenhada em continuar a expandir-se para novos mercados. «Os objetivos são os mesmos. Agora, em vez de ser num espaço de tempo mais curto, vai prolongar-se», admite John Gomes.

Já na MMRA – Maria Madalena da Rocha Azevedo & Filhos, a expectativa é que o volume de negócios de 2020 se mantenha em linha com o de 2019.

«Curiosamente, não tivemos uma quebra no volume de negócios, contrariamente àquilo que foi a tendência da têxtil, dos nossos parceiros e concorrentes. Não sentimos grandes dificuldades: poderemos ter baixado um bocadinho, mas estivemos muito acima daquilo que eram as expectativas no mercado nacional», aponta o diretor de exportação Ricardo Monteiro. A procura por fibras sustentáveis, embora não mais do que antes da pandemia, tem estado «muito elevada» e isso refletiu-se nos contactos que a empresa teve no Modtissimo.

Ricardo Monteiro

«Não foram muitos [os clientes internacionais], mas se calhar 70% dos que apareceram estavam à procura de artigos sustentáveis, orgânicos, reciclados», avança Ricardo Monteiro. Nesta estratégia inclui-se ainda as certificações, nomeadamente a BCI – Better Cotton Initiative, que garantiu no início deste ano, e a GRS – Global Recycled Standard e GOTS – Global Organic Textile Standard. «Esperamos até ao final do ano ter ambas as certificações concluídas», resume o diretor de exportação da MMRA.