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Têxteis jogam à defesa

Os materiais com características de proteção vão tornar-se essenciais no quotidiano, com as preocupações com a higiene e a saúde a aumentarem em resultado da pandemia. Os têxteis serão, segundo o WGSN, a primeira linha de defesa na proteção das pessoas.

Com a pandemia de Covid-19, o interesse mundial em máscaras e vestuário de proteção aumentou significativamente e, no pós-pandemia, os receios do consumidor com novos surtos vão impulsionar a procura por inovações ao nível dos materiais que possam melhorar a sua proteção.

Proteção antiviral

Os acabamentos usados habitualmente apenas no vestuário de profissionais de saúde deverão migrar para o vestuário quotidiano, numa altura em que os investigadores e os produtores estão a testar as tecnologias antivirais existentes e a desenvolver novas para o Covid-19.

Ingredientes como o grafeno e tecnologias ultrassónicas fazem parte das possíveis receitas. A empresa belga Devan trabalhou com o Institut Pasteur, em Lille, França, para testar o seu revestimento antibacteriano BI-OME AV para coronavírus e rotavírus, que obteve excelentes resultados. Já bioquímicos de Manchester desenvolveram uma espécie de gola “apanha germes”, batizada Virustatic Shield, no seguimento de uma investigação de 10 anos, que entrou agora em produção.

Guardian G Volt

O revestimento do tecido usa glicoproteínas para capturar 96% dos vírus aerossolizados. A gola molda-se à cara com um fit universal e irá ser fornecida ao National Health Service do Reino Unido. Por seu lado, a LIGC Applications lançou recentemente a Guardian G-Volt – uma máscara com um sistema de filtros de grafeno que é esterilizado através de cargas elétricas, podendo, por isso, ser reutilizada com segurança.

Metais antimicrobianos

Originalmente usados na medicina, os metais ativos inorgânicos como prata, zinco, cobre, titânio, magnésio e até ouro são antimicrobianos. Embora a sua segurança para os humanos esteja relativamente comprovada, tem havido preocupações com a possível toxicidade pela absorção pela pele e irritação cutânea.

Os metais inibem as bactérias ao libertarem iões quando expostos a humidade e suor. A prata é habitualmente utilizada no vestuário – útil quando misturada com algodões e sedas, que são mais propensos a bactérias devido à sua natureza porosa e hidrofílica. A tecnologia Meryl Skinlife da Nylstar incorpora micropartículas de prata, com eficácia garantida testada após 100 lavagens a 40 ºC. A linha Silverescent da Lululemon, com tecnologia X-Static, infunde 99,9% de prata pura diretamente na fibra, graças a uma parceria com a Noble Biomaterials Inc.

Silverescent

Os sais e o óxido de zinco têm eficiência antimicrobiana duradoura quando depositados, em solução, na poliamida, poliéster e algodão. E o cobre, usado em cuidados de saúde, tem propriedades antivirais, antibacterianas, antifúngicas e antialergénicas superiores, aponta o WGSN. A sua capacidade de matar vírus em minutos torna-o potencialmente num material a ter em consideração para têxteis de proteção antivirais.

Autolimpeza

Com os cuidados com a limpeza a estarem cada vez mais sob a atenção dos consumidores, o vestuário com características de autolimpeza pode trazer benefícios ao nível do impacto ambiental, além de oferecer outras vantagens.

Estas tecnologias permitem proteger o vestuário usado regularmente, como roupa interior, meias, athleisure, vestuário de desporto e outras peças de vestuário, evitando as lavagens frequentes e aumentando o ciclo de vida da peça de vestuário.

De acordo com o WGSN, há duas vias na nanotecnologia que podem ser aplicadas. A limpeza fotocatalítica usa óxido de titânio ou óxido de zinco para decompor nódoas em água e dióxido de carbono na presença de luz ultravioleta.

Já a via da biomimetização da repelência de água e de sujidade permite afastar as bactérias, para que sejam removidas pela chuva ou quando passadas por água. A tecnologia foi inspirada pelas propriedades de repelência da folha de lótus.

Pangaia

Investigadores da Universidade RMIT de Melbourne cultivaram nanoestruturas à base de cobre e prata diretamente no tecido que degradam matéria sob ação dos raios ultravioletas, abrindo caminho à autolimpeza sob a luz ou quando usado ao sol.

A tecnologia à base de proteína NanoSphere da Schoeller é repelente à água, óleo e sujidade, sendo igualmente resistente às lavagens e à abrasão. E a marca ecológica Pangaia lançou uma t-shirt em algodão orgânico e alga tratada com óleo de hortelã-pimenta para propriedades antibacterianas e antifúngicas, com o objetivo de alargar o tempo entre lavagens até 10 utilizações, o que deverá poupar 3.000 litros de água por cada peça de vestuário.

Soluções naturais

Os ingredientes naturais são apelativos para os consumidores com forte consciência ambiental, podendo ser orgânicos, renováveis e biodegradáveis e, em conjunção com fibras naturais, darem origem a têxteis macios e frescos.

Estes compostos podem ser provenientes do mar – como quitosano, péptidos de colagénio proveniente das escamas de peixe, com efeitos anti-infeção  e antibacterianos, e algas, ricas em vitaminas essenciais, aminoácidos e minerais que reduzem a irritação e ajudam a regeneração da pele – ou de plantas terrestres, como é o caso da sílica encontrada no linho, que é antiséptica, antiviral, antimicrobiana e antifúngica, enquanto a atividade antibacteriana do cânhamo é ativada no seu composto canabinoide.

adidas x Stella McCartney

Marcas como a italiana DueDiLatte estão, por seu lado, a utilizar a proteína do leite para criar peças de vestuário macias e antialergénicas. Já Stella McCartney explorou péptidos antimicrobianos em fio de seda de aranha produzido artificialmente pela Bolt Threads para criar um vestido, depois combinado com celulose para a coleção adidas x Stella McCartney.

Compostos de carbono

A Activated Carbon Cloth, inventada pelo Ministério da Defesa britânico para fatos de proteção para a guerra química, é leve e resistente, durável, tem condutividade elétrica e resistência aos ultravioletas, assim como comportamentos de absorção de toxinas. Numa utilização mais quotidiana, o grafeno derivado de carbono tem sido utilizado pela sua resistência por marcas de outdoor, denim e ténis. A capacidade do carbono de melhorar a performance elétrica no corpo, ajudar a circulação sanguínea, fornecer oxigénio às células, alimentar a resistência num treino e reduzir a fadiga muscular tem ainda um enorme potencial no sportswear.

O carvão elimina o excesso de odor, humidade, bactérias e químicos ambientais. A marca holandesa Senscommon e a fábrica japonesa Uchino lançaram, em conjunto, uma coleção-cápsula autopurificante com carvão de carvalho ubame. O carvalho é moído em pó, amassado com fibras de algodão e viscose e fiado para produzir malhas e tecidos.

Vollebak

Já a Vollebak usou grafeno para criar o primeiro casaco do mundo neste material em 2018. A membrana de revestimento utilizou nanoplacas de grafeno com poliuretano, fundidas na poliamida de um lado do casaco, tornando-o reversível. Em 2019, a Vollebak lançou uma t-shirt de fibra de carbono, aplicando grafeno para conferir propriedades de resistência, leveza, respirabilidade, antiodor e conforto hidrofílico.