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Têxteis velhos dão papel novo

Fundada em 2012, a Papel D’Ouro tem vindo a transformar desperdícios têxteis de algodão em papel. O projeto é completamente amigo do ambiente e tem apostado no design e na inovação para chegar a novos clientes, nomeadamente com a introdução de sementes que permitem “plantar” o papel e torná-lo verdadeiramente circular.

[©Papel D'Ouro]

A Papel d’Ouro usa resíduos provenientes de empresas da indústria têxtil e vestuário, que são depois macerados, triturados e transformados em pasta de papel, recorrendo apenas à adição de água, num processo manual que valoriza os desperdícios.

Como explica Sofia Gomes, fundadora e gerente da Papel d’Ouro à Ambiente Magazine, o papel é feito «folha-a-folha» através de «quadros em rede» e o resultado, com aplicações que variam desde convites a sacos, embalagens, cadernos ou até objetos decorativos, é «totalmente amigo do ambiente», já que as propostas têm uma lógica de «desperdício zero» e «promoção de uma economia sustentável».

A empresa está igualmente a diferenciar-se através da junção de «autenticidade, qualidade e intemporalidade» com «inovação», destaca Sofia Gomes, onde se inclui a «introdução de elementos eminentemente naturais (sisal, flores, ervas aromáticas, etc.) na pasta de papel», em primeiro lugar com uma finalidade apenas estética mas, atualmente, também com a «função do nosso papel 100% algodão poder ser plantado e dele germinarem sementes diversas».

[©Papel D’Ouro]
Nascida em outubro de 2012, a Papel d’Ouro tem como objetivo «diminuir o impacto ambiental» por três vias, enumera a fundadora: «utilização de celulose não-madeireira para fabricar papel»; prática da «economia circular», uma vez que dá uma «segunda vida aos desperdícios têxteis e, no caso do papel plantável, até permitimos o início de outra»; e «gestão otimizada dos recursos produtivos almejando o desperdício zero», uma vez que os restos resultantes da produção de objetos são reutilizados através da «reintrodução na cadeia aquando da produção de nova pasta».

Luta pela sustentabilidade

A sustentabilidade ambiental, de resto, é uma preocupação de Sofia Gomes, que acredita que Portugal está no caminho certo para responder a este desafio. «Estamos acima da média, nomeadamente ao nível de várias iniciativas que trabalham diariamente para construir um futuro mais sustentável», afirma. Exemplos positivos podem ser retirados nas áreas da alimentação, energia e educação, refere. Na indústria têxtil, contudo, Sofia Gomes sublinha que há ainda um longo caminho pela frente, tanto ao nível do consumo como de uma «produção mais sustentável», apontando que «73% dos têxteis produzidos acabam em aterros ou incinerados».

A pandemia gerou um novo desafio na utilização de materiais mais amigos do ambiente, uma vez que acabou por trazer mais plástico para o dia a dia. Para a fundadora da Papel d’Ouro, é fundamental a «substituição de plástico» por «outros materiais igualmente eficientes» na «adequação aos fins a que se destinam», principalmente na «área da saúde».

Sofia Gomes sugere ainda a criação de uma «plataforma marketplace» que facilite a partilha de informação e promova simbioses industriais, algo que seria importante para a atividade da sua empresa. «Na nossa atividade diária não é dado o devido reconhecimento» ou até «incentivo aos fornecedores “sustentáveis” por parte do Estado e entidades públicas», quando «estes deveriam ser os primeiros a fazê-lo», afirma em declarações à Ambiente Magazine.

[©Papel D’Ouro]
Quanto ao futuro dos resíduos, a questão «é praticamente impossível de responder! Aliás, a forma como o mundo mudou em tantos aspetos no espaço de três meses com o surgimento da Covid-19 é a prova disso. Seja a nível comportamental, de responsabilidade partilhada ou hábitos de consumo, a consciencialização para a importância deste sector (pois a pandemia veio evidenciar a importância de soluções imediatas e sustentáveis) sofreu uma aceleração considerável; ponto que considero fulcral. E só lamento que esta mudança de mentalidades tenha surgido à custa da interiorização de uma necessidade advinda da situação pandémica, para que deixássemos definitivamente de encarar as preocupações ambientais como uma “moda” ou “mania de alguns”», conclui.