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Têxtil e cortiça: um casamento feliz

Foi assim que José Morgado resumiu a união destas duas matérias-primas – amadrinhada pela Sedacor, Têxteis Penedo, FEUP e Citeve –, que deu ontem a conhecer oficialmente o seu segundo rebento, o Cork.a.Tex-Yarn.

O diretor do departamento Tecnologia e Engenharia do Citeve abriu a sessão pública de demonstração do projeto Cork.a.Tex-Yarn (ver Sedacor dá asas à cortiça) – fio com elevada incorporação de cortiça, promovido pela Sedacor (ver A especiaria da Sedacor) em parceria com a Têxteis Penedo (ver No coração da Penedo e Têxteis Penedo espera milhão das cortinas com Led), o Citeve e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, através do laboratório associado LSRE-LCM, que teve início em outubro de 2016 e será encerrado no final do corrente mês.

Mas foi durante a apresentação da linha piloto, instalada no Citeve, que José Morgado caracterizou prosaicamente a combinação do têxtil com a cortiça, cujo “casamento” permitiu que a primeira conferisse à segunda «a flexibilidade e a permeabilidade», destacou, entre outras propriedades fundamentais para possibilitar o processamento têxtil e garantir o conforto essencial ao uso. Contudo, trata-se de «um fio de algodão revestido com cortiça», fez questão de sublinhar quando inquirido que etiqueta deveria levar a peça resultante – algodão.

No entanto, para chegar ao têxtil linear, o fio, houve um longo caminho a percorrer. «A ideia foi lançada em 2011», afirmou o diretor do departamento Tecnologia e Engenharia do Citeve. E os obstáculos ultrapassados foram muitos, como revelou Graça Bonifácio, também do centro tecnológico.

«Porque é que não é possível encontrar no mercado, com tanto interesse que existe na cortiça, produtos de vestuário e têxteis-lar para comprar, para levar para nossas casas, para utilizar?», questionou a engenheira têxtil do Citeve, dando em seguida a resposta. «Porque há bastantes dificuldades na utilização dos materiais que existem disponíveis no mercado».

Desafios superados com distinção

Graça Bonifácio

A oferta comercial resume-se, com efeito, a «folhas finas de cortiça natural ou aglomerada, com espessura de 0,5 a 8 milímetros» e «fitas provenientes do corte das folhas laminadas, normalmente com espessuras que variam entre os 3 e os 10 milímetros», explicou Graça Bonifácio. «Se compararmos a chamada folha de cortiça têxtil com um tecido têxtil normal, notámos que há falta de flexibilidade, há falta de maleabilidade, não é fácil de dobrar, tem pouca respirabilidade e depois também existem problemas ao nível da conservação e limpeza», apontou. «As fitas têm também problemas de utilização na indústria têxtil, porque não podem ser usadas nos equipamentos de produção de estruturas. São demasiado grossas, densas, para que os equipamentos como um tear de tecidos ou de malhas possa absorver um fio desta natureza», acrescentou.

«Tendo em conta todas estas limitações, o consórcio teve a ideia de desenvolver um projeto nesta área», contou Graça Bonifácio. Foi assim que nasceu, primeiramente, o o Cork.a.Tex e, agora, o Cork.a.Tex-Yarn, sustentados em quatro pilares – desenvolver têxteis com incorporação de cortiça, criar produtos de valor acrescentado com forte componente exportadora e estimular e promover tanto o eco-design como a economia circular, com o reaproveitamento dos resíduos da indústria da cortiça.

«Tivemos a noção de que o fio de cortiça era o produto mais complexo e mais difícil de desenvolver, mais estimulante, mais inovador e também aquele que ia permitir no futuro produzir uma gama mais alargada de produtos comparativamente aos outros materiais apenas revestidos», reconheceu a engenheira têxtil. O Cork.a.Tex-Yarn veio, assim, otimizar o fio desenvolvido no Cork.a.Tex e melhorar algumas das fragilidades identificadas processualmente.

A linha piloto que resultou do projeto é composta por quatro módulos – suporte das bobines, revestimento, secagem (estufa) e enrolamento do fio (bobinagem). Os fios foram validados em ambiente laboratorial e industrial. «Não houve perdas significativas de cortiça nem libertação de partículas ou constrangimentos no processo industrial», garantiu Graça Bonifácio. Em termos de produtos, o consórcio ainda transformou os fios em tecidos jacquard, confecionados posteriormente em edredões, roupa de mesa e almofadas decorativas.

As ambições futuras do consórcio

Para o futuro, as metas passam pelo pedido de patente, registo da marca e industrialização do processo.

Xavier Leite, presidente da Têxteis Penedo, acredita tratar-se de «um produto totalmente inovador e com sucesso total porque o mercado procura cada vez mais os produtos ecológicos, recicláveis. E acho que isto será uma novidade que vai trazer valor acrescentado. Estamos orgulhosos do trabalho que conseguimos».

«Vai ser uma fidelização de uma nova família de negócio, vamos chamar-lhe assim, que acho que vai ter condições para ser um negócio interessante para a nossa área, os têxteis-lar, mas também para outras áreas em que vamos poder estabelecer parcerias e quem sabe até vender o próprio fio. Está tudo em aberto», acrescentou Agostinho Afonso, administrador da Têxteis Penedo. «Acho que há interesse, inclusivamente temos possíveis clientes a visitar esta sessão de demonstração», adiantou ao Portugal Têxtil.

Albertino Oliveira

«O próximo passo é o sucesso junto do consumidor final, junto dos diversos alvos que queremos atingir, quer no vestuário, quer nos têxteis-lar, quer na área dos têxteis técnicos. Julgamos ser disruptivo e que pode ser uma mais-valia, mas a última palavra é sempre do consumidor final», assegurou o diretor comercial e de marketing da Sedacor, Albertino Oliveira.

A empresa do grupo JPS Cork – que faturou 18 milhões de euros em 2017 – emprega atualmente cerca de 90 pessoas, um número muito próximo da Têxteis Penedo (96 trabalhadores), que faturou no último exercício fiscal cerca de 12 milhões de euros.