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tica comprometida? – Parte 2

Apesar da confiança na sustentabilidade dos desenvolvimentos conseguidos ao nível do comércio ético, é incontornável a existência de ameaças efectivas. Ebrahaim Patel, vice-presidente da Organização Internacional do Trabalho e secretário-geral da Southern African Clothing and Textile Workers Union (SACTWU), afirma que «como as empresas são obrigadas a competir em condições financeiras mais apertadas e com prazos mais reduzidos, existe o perigo da crise acabar com décadas de progresso. Não é apenas a arquitectura financeira que precisa de ser reparada, mas também a arquitectura social da globalização». O receio é que muitos revendedores deixem de considerar como prioritárias questões como o salário mínimo ou a redução no tempo de trabalho nas fábricas dos seus fornecedores agora que estão a lutar contra a quebra de vendas e, em muitos casos, pela sua própria sobrevivência. Também ocorrem problemas quando os compradores recebem instruções para comprar mais barato, para a que os retalhistas possam manter os seus custos baixos, diminuir os preços e melhorar a oferta aos seus clientes. Os fornecedores e os operários vão ser sempre os primeiros a sofrer quando os retalhistas esmagarem os custos, diminuírem os preços no contrato e reduzirem ou colocarem mudanças de última hora nas encomendas sem aviso prévio. «Portanto, cabe às empresas comportarem-se de forma mais inteligente, olhando para o que podem melhorar ao longo da cadeia de fornecimento para benefício de todos e oferecer aos consumidores um melhor negócio», considera Phil Wrigley. A questão da liderança é também salientada por Alan Roberts, ao referir que «a ética não é apenas um código de conduta e inspectores fabris, deve ser conduzida do director-executivo para baixo. Os directores-executivos precisam de começar a falar de comércio ético na mesma proporção em que falam de lucros, e não de forma limitada como se fosse um qualquer serviço filantrópico localizado no fundo do corredor». Roberts acrescenta ainda que «a prática de conduzir os prazos e os preços cada vez mais para baixo tem de parar. O cerne da cultura empresarial deve ser o de respeitar as pessoas em toda a cadeia de fornecimento e nas actividades de negócio fulcrais. Os compradores devem compreender as implicações das suas decisões, e tal deve ser direccionado a partir do topo». Por exemplo, a aprovação tardia de análises laboratoriais ou alterações de última hora em cores originam quebras no tempo de produção e tornam difícil para os fornecedores o cumprimento de prazos de entrega, o que por sua vez pode levar a horas extraordinárias ou à subcontratação não autorizada. Wrigley concorda que não existe liderança suficiente por parte dos directores e questiona: «Qual é a diferença entre liderança e aparência? É preciso haver um empenho mais visível – o principal papel dos directores é criar valor, e os stakeholders perceberem que existe valor no comércio ético e na responsabilidade social». Determinado a não deixar desvanecer as questões éticas dos negócios durante a actual turbulência económica, o ETI (Ethical Trading Initiative) está a avançar com planos para actualizar os seus códigos de base, os códigos de conduta no trabalho, no âmbito dos quais os seus membros corporativos são monitorizados. Os novos códigos, que foram elaborados em conjunto com ONGs e sindicatos, serão publicados dentro dos próximos quatro a cinco meses e prometem «levantar a fasquia e torná-la mais desafiadora», sublinha Roberts, que também quer ver mais declarações de directores-executivos e de compras no sentido de que estão mais empenhados no aprovisionamento ético. «Mas ainda sinto que esta orientação a partir do topo é bastante limitada e o próximo ano será de interacção com os directores-executivos dos nossos membros, porque enquanto eles não se envolverem nós não conseguiremos realizar progressos satisfatórios», conclui Roberts.