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«Tínhamos vontade de aumentar o peso do mercado nacional e conseguimos»

Mais proativa no mercado português, a Solinhas foi capaz de equilibrar o peso das vendas internacionais com o das vendas internas, com as linhas para o calçado e para os têxteis-lar a terem um papel importante, como revela a administradora Lurdes Fernandes em entrevista ao Portugal Têxtil.

Lurdes Fernandes

A Solinhas foi afetada pelo aumento dos custos, das matérias-primas aos serviços, e, por isso, foi obrigada a aumentar os preços várias vezes nos últimos 12 meses. Ainda assim, tem sentido um aumento da procura tanto em Portugal, onde tem estado mais dinâmica, como no estrangeiro, em especial na Tunísia, onde tem instalações próprias.

O lançamento da loja online há um ano tem dado um impulso à divulgação da produtora de linhas de costura, que com 26 pessoas, espera, segundo a administradora Lurdes Fernandes, terminar o ano com um crescimento próximo dos 10% e, talvez, superar a barreira dos 4 milhões de euros de volume de negócios.

A Solinhas lançou a sua loja online há um ano. Que balanço pode já fazer desta experiência?

Tem corrido bem. O nosso grande objetivo não era tanto as vendas, mas que as pessoas tenham acesso à informação, às cores que existem, porque cada vez mais os catálogos e o papel têm tendência a diminuir por uma questão do ambiente e de sustentabilidade. Quando uma pessoa quer uma informação, nós encaminhamos para o site, enviamos o link. Acho que o site é um bocadinho para isso, para divulgar, porque sei que as pessoas ainda têm dificuldade em escolher um produto, uma cor no ecrã de um computador ou de um telemóvel. Temos sentido esse contacto com as pessoas através da loja online e por isso é que eu acho importante, no próximo ano, melhorarmos o nosso site. Queremos ter uma imagem mais interativa, menos estática.

Ao nível da sustentabilidade, que outras apostas têm feito?

Temos tentado, com os nossos parceiros, melhorar e reduzir o consumo. Acho que esse processo levou assim um boost, porque serve dois sentidos: por um lado, sermos mais sustentáveis e, por outro lado, também reduzir custos. Hoje, por exemplo, enviamos para o cliente uma maior quantidade de cones na mesma caixa. Outro processo que temos vindo a fazer, e vamos provavelmente até fazer um diploma para, no fundo, agradecer aos nossos clientes, é a devolução dos cones depois de utilizados. Temos já muitos clientes que fazem isso, alguns porque os comerciais pediram, mas alguns até por sua própria iniciativa. É pena que tudo o que é para exportação não seja possível retomar porque financeiramente não é sustentável. Mas, a nível nacional, temos tido uma ótima colaboração dos nossos clientes. É o custo e é o plástico. Aquilo não se estraga, na maioria dos casos. Temos o trabalho depois de os limpar, mas, de qualquer maneira, está o ciclo a funcionar e acho que isso é o mais importante. Uma outra coisa que já conseguimos, mas não à escala que gostaríamos, é tentar sensibilizar alguns clientes para ver se conseguimos evitar o uso do saco de plástico – em cada cone, vai um saco de plástico que depois vai para o lixo, para reciclar, como é óbvio, mas, de qualquer maneira, poderíamos evitar isso. Não está a ser tão fácil como eu achava, mas acho que é um caminho que podemos percorrer.

Em termos de exportações, qual é hoje a quota da Solinhas?

Antes da pandemia, exportávamos 63% de tudo aquilo que produzíamos e sentíamos que o mercado nacional estava um bocadinho estagnado. Então, fizemos um esforço, mesmo na alteração de alguns produtos, numa dinâmica mais ativa na parte comercial, para que isso mudasse, porque sentíamos que havia mercado em Portugal, nós é que estávamos, se calhar, um bocadinho focados na internacionalização. Atualmente, embora a média seja 55% para exportação e 45% nacional, há meses em que, se calhar, já é 50%/50%. E não foi porque o internacional diminuiu, foi porque realmente o nacional aumentou. Tínhamos vontade de aumentar o peso do mercado nacional e conseguimos. Quer pela linha de calçado, em que estamos a ser bem sucedidos, quer pelas representações.  Passo a passo temos vindo a crescer e estamos satisfeitos, mas achamos que ainda há mercado e que ainda há para onde crescer.

No mercado internacional, a questão da incerteza na Ásia tem contribuído para o crescimento?

Sim, temos notado isso. Na Tunísia, também temos aumentado, temos vindo para valores de faturação que já não tínhamos há algum tempo. Temos umas instalações próprias na Tunísia e estamos a ter valores de faturação mensal ao nível dos melhores anos da Solinhas.

E isso, na sua opinião, deve-se a quê?

Acho que é uma questão de proximidade. Não quer dizer que os grandes grupos não continuem a ir à Ásia. Mas, mesmo empresas mais pequenas, preferem ir a locais mais perto, a fornecedores mais próximos, mais fiáveis, do que correr o risco de as coisas não correrem bem, de haver atrasos nos embarques, porque isso tem acontecido. Acho que temos sido favorecidos com isso. Mesmo em Portugal, nos têxteis-lar, temos vendido bastante bem e acho que tem muito a ver com isso. Até o calçado, em que muita coisa já era feita na India, está a regressar a Portugal. Sinto, às vezes, que não se faz mais porque não temos mão de obra.

Além da Tunísia, há outros mercados em que estejam presentes nos quais tenha notado um grande dinamismo?

Mesmo em Espanha notamos mais procura. Embora não tenha tanta confeção, ao nível de distribuidores notamos uma maior procura, um movimento, e acho que isso é muito bom para nós.

Quais são os principais mercados de exportação da Solinhas?

Tunísia, Marrocos, Alemanha, França e Espanha.

Há novos mercados debaixo de olho?

Novos países, não.

Ainda há margem para crescer nesses mercados?

Sim. Estamos a ver algumas possibilidades. Em Espanha e mesmo na Alemanha, onde temos uma empresa com quem trabalhamos há muitos anos, temos sido abordados e temos vindo a estudar essas hipóteses.

As feiras estão em stand-by?

Sim, estamos um bocadinho em stand-by, mas pensamos mudar isso para o ano, porque gostávamos de avançar nesta parte do calçado, em que nunca fizemos nenhuma feira específica. Acho que já temos um produto de muito boa qualidade, que já estamos mais à vontade no mercado, temos catálogos feitos, temos stock, acho que já podemos dizer que temos know-how e que estamos preparados para, se calhar, escolher uma feira que se enquadre. Seria interessante para nós. Queremos crescer e implementarmo-nos nessa área e, portanto, acho que faz sentido procurar uma feira nesse sector. Relativamente à moda e ao têxtil, estamos um bocadinho a ver o que acontece. Também é uma situação de bola de neve. Se não vamos, não estamos presentes, não agarramos, se calhar, as oportunidades que podem surgir. Por outro lado, os nossos custos estão tão elevados, em tudo, que não sobra muito para grandes experiências.

É uma questão de prioridades neste momento?

Exatamente. É mesmo tentar escolher algo que valha mesmo a pena. Nunca é certo, mas tentar. Não faz sentido ir só por ir.

Como correram os primeiros oito meses do ano para a Solinhas?

Temos tido bastantes encomendas e trabalho. Nesse sentido, e se pensássemos só em termos de encomendas e pedidos de clientes, não teríamos muito a lamentar. No entanto, a questão do aumento dos preços das matérias-primas, dos combustíveis, todas as despesas afetas à nossa produção têm aumentado muito. Tudo tem aumentado imenso e isso está realmente a causar um problema – acho que posso dizer grave – na nossa estrutura. Há uma perda de margem, mas, mais do que tudo, é o ter de lidar com isso diariamente. Todos os dias a atualizar preços, chega a encomenda e temos de avisar o cliente que temos, obrigatoriamente, de alterar o preço. E nem sequer estávamos habituados a isso, porque mantínhamos o preço durante muito tempo para o cliente e, neste momento, não. Portanto, o nosso trabalho passa muito por estar no Excel e nas fichas de custo a ver preços dia a dia. É um stress muito grande, acrescido a tudo o que já temos ao nível da produção, da compra, da venda, ou seja, ao normal do nosso trabalho, acrescentarmos esta situação. E, depois, gerir isto com o cliente. Acho que toda a gente está sensível a esta questão porque não é só nas linhas, não é só nos acessórios, é em tudo, mas, de qualquer maneira, cada um faz o seu trabalho e tenta sempre arranjar a melhor solução para cada um e isso está a tornar-se difícil de gerir.

Que tipo de aumentos tiveram?

Entre a energia, as matérias-primas, as caixas de cartão e todo o tipo de embalagens, a tinturaria, que aumentou 15% a 30%, e a questão da paridade do dólar com o euro, estamos a falar em 30% de aumento.

Mesmo com os painéis solares que instalaram no passado?

No caso da energia tivemos a sorte de colocar os painéis solares antes desta situação. Fizemos esse investimento, de 45 mil euros, no ano passado e está a amenizar, pelo menos, o aumento da energia. Não estamos a ter uma diminuição da fatura, mas não está a aumentar aquilo que poderia aumentar. Dá uma economia de 30% nos gastos de energia.

 

Conseguiram passar esses aumentos de custos para os clientes?

Não completamente. Precisávamos de fazer aumentos na ordem dos 30% no produto final e fizemos 15% a 20%, para alguns, depende do artigo.

Quando começaram a subir os preços?

Começámos no ano passado, em setembro. No início do ano, aumentámos outra vez. Antes das férias, tivemos a necessidade de, num artigo que disparou, aumentar novamente. Agora com o dólar, em setembro, estamos nesta luta novamente de ter de aumentar. Já fomos informando os clientes, uns a partir de outubro, outros já em setembro. É desgastante. E acredito que também o seja para o cliente que trabalha com coleções. A minha preocupação maior é perceber o efeito que isto vai ter no consumo e toda esta questão da inflação e das taxas de juro, tudo isto de que se fala, o que é que isto vai comportar para o consumidor final, se as pessoas se vão retrair no consumo, e eu penso que já há um bocadinho essa tendência. Isso é que é grave. Se as pessoas se começarem a retrair no consumo, o problema torna-se muito maior.

Em matéria de vendas, como foram estes primeiros oito meses do ano, comparativamente com o mesmo período de 2021?

Acho que há aqui um ponto de equilíbrio. Temos vindo a crescer em termos de valor também porque aumentámos os preços, mas, ao mesmo tempo, no número de unidades e de quilos transformados, acho que também há um aumento entre os 7% e os 10%.

Quais são as perspetivas para o resto do ano?

Tivemos agora necessidade de aumentar os preços em alguns artigos, mas vamos tentar, até ao final do ano, se nada se alterar com as compras e com os contratos que já temos com os nossos fornecedores, não fazer mais nenhum aumento. Mas, em janeiro, se se mantiver esta tendência, vamos ter de rever novamente. Em relação a vendas, recebemos as encomendas muito em cima. Infelizmente, não temos essa possibilidade de planear. Mas o final do ano é sempre mais calmo.

Quantas pessoas trabalham atualmente na Solinhas?

Vamos passar a ser 26 porque passamos a ter três turnos, porque sentíamos que estávamos a asfixiar muito as pessoas. Temos uma equipa espetacular, um dos motivos de orgulho da Solinhas é a equipa que temos, mas também acho que temos de entender que ter as pessoas sempre no seu limite, não pode ser. As pessoas vestem mesmo a camisola, mas têm os seus limites.

Com que volume de negócios fecharam 2021?

Com 3,6 milhões de euros.

Quanto pensam crescer no corrente exercício?

Pensamos que vamos ter um crescimento à volta dos 8% a 9%. O objetivo, sinceramente, era ultrapassar os 4 milhões de euros. Vamos ver se conseguimos.

No curto/médio prazo, que metas têm fixadas para a Solinhas?

Gostávamos de investir um bocadinho mais. Vamos agora tentar perceber melhor o que nos compensa. Temos uma área em que podíamos colocar mais alguns painéis, mas há um limite da nossa utilização diária e não dá para acumular ainda, infelizmente. Mas podíamos melhorar um bocadinho essa autonomia energética.

Há novos investimentos planeados para outras áreas?

Planeados, mesmo, não. Há algumas ideias ao nível da digitalização. Já temos o software de gestão, melhorar um bocadinho aquilo que temos no sentido da digitalização dos processos produtivos. É por aí que queríamos ir. Ao nível de armazém e de logística, já estamos relativamente bem, mas claro que há sempre por onde melhorar e otimizar. Ao nível da produção queríamos melhorar um bocadinho e é aí que, no próximo ano, gostaríamos de investir.