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Tintex de braços abertos

No Open Day organizado pelo IAPMEI na empresa de Cerveira, as portas abriram-se a mais de 300 pessoas para mostrar o coração da Tintex, que provou, uma vez mais, que transparência, sustentabilidade e, acima de tudo, muita inovação estão incutidos no seu ADN e na equipa de 132 pessoas que todos os dias veste a camisola.

Mário Jorge Silva

Quase 21 anos volvidos sobre a sua criação, a Tintex é hoje uma empresa diferente do que era há duas décadas, mas há valores que se mantêm. A transparência e a colaboração são dois pilares, como foi sublinhado pelos diversos intervenientes no Open Day organizado no passado dia 17 de abril pelo IAPMEI em parceria com o Citeve e o CeNTI, e, por isso, as portas abriram-se a clientes mas também a concorrentes, com mais de 300 pessoas a ignorarem o mau tempo e a percorrerem, numa visita guiada, as diversas áreas da empresa, do showroom ao armazém, onde puderam ver de perto os demonstradores dos vários projetos.

João Neves e Mário Jorge Silva

«Gostamos de fazer parcerias, trabalhamos com muita gente, somos abertos, somos transparentes», sublinhou, ao Portugal Têxtil, Mário Jorge Silva, CEO e fundador da Tintex, para quem «a transparência é obrigatória. Quando somos transparentes as pessoas confiam em nós e não podemos comunicar aquilo que não somos – somos obrigados, nós próprios, a controlar muito mais aquilo que fazemos».

Antes, a plateia, sentada no mesmo espaço onde está a linha de revestimento, montada em 2015, ouviu falar do percurso da empresa, das suas apostas na sustentabilidade e nos projetos de I&D que, em cerca de duas décadas, evoluíram drasticamente.

Evolução e revolução

Contrariando a ideia redutora de que a inovação se aplica apenas à tecnologia ou ao produto, a Tintex assumiu o conceito em toda a sua abrangência, garantiu Ricardo Silva. «Estamos ligados à inovação do ponto de vista das coleções, de inovação à microescala e em macroescala, inovação tecnológica, inovação de produto, de processos, comercial, marketing, comunicação», apontou o diretor de operações.

Ricardo Silva

Em 1998 a empresa iniciou a sua atividade na área da tinturaria e acabamentos de algodão e lã, em 2000 foi das primeiras a apostar no processamento de liocel e em 2002 muda o seu modelo de negócio, tornando-se «na primeira empresa de tinturaria e acabamento que vem para trás na cadeia de valor e começa a criar produto», assinalou Ricardo Silva. No ano seguinte, a venda de malha acabada atingiu um milhão de euros e, 15 anos depois, tornou-se no core business da empresa, tendo ascendido aos 10 milhões de euros em 2018 – representando quase 90% de um volume de negócios que rondou os 11,3 milhões de euros. Pelo caminho surgiram diversos projetos de inovação, do Algo.Natur, em 2013, ao mais recente TexBion, iniciado em 2018.

Aliás, afirmou Mário Jorge Silva, «este evento pretende ser uma ação de demonstração dos resultados que desenvolvi ao longo destes anos, através de projetos feitos em parcerias com várias empresas, fornecedores, colaboradores e todos os que fazem parte da nossa comunidade» e «não são para inglês ver».

Inovação no caminho para a sustentabilidade

Efetivamente, referiu ao Portugal Têxtil Pedro Magalhães, diretor de inovação, «estamos agora na fase de industrialização de muitos projetos. Não estamos só em projetos para inglês ver – conseguimos ter produtos e, felizmente, nos próximos tempos, começar a oferecê-los aos consumidores».

Carla Siva, José Morgado, Pedro Magalhães, Ana Silva e Ana Colaço

PICASSo, Couro Vegan, integrado no projeto Texboost, promovido pelo Citeve, e TexBion são três dos projetos que estão atualmente a ser desenvolvidos pela Tintex.

Resultado da evolução do Algo.Natur, que deu origem à marca Colorau, o PICASSo é «uma solução de coloração natural, sem a utilização de compostos químicos», com recurso a plantas e cogumelos, como castanheiro ou hortelã-pimenta, e vai mais longe, explicou Carla Silva, diretora de I&D no CeNTI. «No Colorau ainda tínhamos algumas limitações na industrialização. No fim do PICASSo, que vai terminar este ano, teremos

várias cores industrialmente definidas, com processos industriais completamente regulados, controlados e validados», adiantou ao Portugal Têxtil.

No caso do Couro Vegan, são usados resíduos essencialmente da indústria florestal e agroalimentar – como serrim, casca de arroz, borras de café, resíduos de chá príncipe e de milho, entre outros –, que são transformados para que possam ser utilizados no revestimento. «É um processo de revestimento completamente diferenciador em que as empresas têm que ter tecnologia nova e perfis novos para trabalhar com estes novos materiais», explicou José Morgado, diretor do departamento Tecnologia e Engenharia do Citeve, ao Portugal Têxtil.

O mais recente é o TexBion, iniciado apenas no ano passado. Este projeto abrange «a produção de uma fibra para a qual estamos a usar fontes naturais, biopolímeros, renováveis, e dar-lhe as características durante do processo de extrusão, de forma a que possam ter um tratamento igual ao algodão e que possam ser coloridas com corantes naturais», apontou Carla Silva. «Acaba por estar a conjugar não só os substratos baseados nos biopolímeros, que já de si é diferenciado, com o tingimento natural que vem da evolução do Algo.Natur e do PICASSo», acrescentou Pedro Magalhães.

Além da inovação, estes projetos assumem uma outra característica comum: a busca pela sustentabilidade numa área nem sempre entendida como positiva para o ambiente: a química. «A química faz parte do nosso quotidiano. O tingimento é uma reação química. O que fazemos de diferente desde que começamos a focar-nos mais nesta questão da sustentabilidade – que é algo que vem de trás na parte da utilização das fibras, como o liocel e o PLA – é a otimização dos processos, a escolha dos químicos», justificou Ana Silva, diretora de sustentabilidade da Tintex, ao Portugal Têxtil.

A par disso, a empresa trocou, em 2015, o parque de máquinas e com isso «conseguimos reduzir em cerca de 30% o nosso consumo específico de água» e «uma redução de cerca de 10%» no consumo energético, enumerou Ana Silva. A energia solar faz também parte desta equação sustentável da Tintex, que tem instalada uma capacidade de 460 kW.

Exemplo de futuro

Tudo isso fez com que a empresa evoluísse na cadeia de valor, aproximando-se tanto dos fornecedores a montante como dos consumidores. «Queremos criar produtos, soluções, para que cada um de nós possa escolher aquilo que quer comprar quando vai a uma loja e tenha confiança no que está a comprar», destacou Ricardo Silva. «Hoje temos um modelo de negócio baseado na ligação e nas parcerias. Penso que foi mais visível nos últimos dois anos aquilo que fizemos, mas começou há 20 anos», salientou o diretor de operações e segunda geração envolvida na administração da Tintex.

António Amorim

Entre os parceiros da Tintex estão o Citeve e o CeNTI, que têm acompanhado o desenvolvimento dos diversos projetos de inovação da empresa. «A Tintex é uma empresa de referência e não é por acaso. Há vários anos que a Tintex baseou a sua estratégia numa parceria com o Citeve e com o CeNTI e acho que isso fez a diferença, porque a Tintex soube utilizar as competências do centro tecnológico, as competências que lhe foram postas à disposição e com isso fez vários projetos», afirmou António Amorim, presidente do conselho de administração do Citeve.

Nuno Mangas

Para Nuno Mangas, presidente do conselho diretivo do IAPMEI, a Tintex destaca-se porque tem «uma estratégia ambiciosa, estruturada, que assenta na diferenciação do produto, na sustentabilidade. Uma empresa que se destacou pela satisfação dos seus clientes e sobretudo tem uma preocupação enorme com a ligação aos centros de saber, às universidades, aos politécnicos, ao Citeve, ao CeNTi. Há efetivamente aqui um trabalho de parceria e de um caminho percorrido em conjunto, e é seguramente isso que faz também com que a Tintex seja uma empresa diferente para melhor».

Um exemplo que, acredita João Neves, Secretário de Estado da Economia, poderá ser seguido por outras empresas. «Julgo que é isto que precisamos. Precisamos que aquilo que são percursos individuais possam ser aproveitados pela comunidade. Não para cópias, não para encontrar soluções para problemas particulares que exigem respostas particulares, mas para percebermos todos que há um caminho de construção de soluções para os problemas, que as empresas têm de melhorar a sua capacidade potencial, melhorar a sua escala de valor nos produtos que têm, melhorar as respostas àquilo que são as tendências de mercado. Tem que ser feito com a perseverança de que este percurso se faz através de um caminho que tem dificuldades. Temos que ter a capacidade de perceber que não é no curto prazo que muitas vezes conseguimos responder aos problemas que temos, mas que temos que calcorrear um caminho que nos leve a ter uma indústria diferente, como a Tintex aqui nos demonstrou».