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Trabalhadores da ITV perdem milhões

A crise provocada pelo novo coronavírus na indústria têxtil e vestuário fez com que os trabalhadores fossem mal remunerados ou não recebessem os devidos salários, com perdas que chegam mesmo a atingir aproximadamente os seis mil milhões de dólares de acordo com os especialistas do sector.

[©Inter Press Service]

O encerramento das lojas e a quebra nas vendas subjacente ao confinamento adotado no combate à pandemia fez com que vários retalhistas cancelassem pedidos aos fornecedores ou exigissem um preço muito mais baixo pelas encomendas, o que colocou os meios de subsistência dos trabalhadores da indústria têxtil e vestuário em risco.

O grupo ativista Clean Clothes Campaign revelou que os trabalhadores da indústria de vestuário no sudeste e sul da Ásia receberam uma média de apenas três quintos do valor do rendimento habitual de março a maio. No caso de algumas regiões da Índia, os trabalhadores receberem menos de metade do salário, segundo as informações que constam no relatório “Un(der)paid in the pandemic”.

Para fazer frente a esta situação, a Clean Clothes Campaign, uma rede de organizações e sindicatos dos direitos do trabalho, apelou às marcas para não deixarem de se responsabilizar pelo incumprimento destas normas e se comprometerem publicamente a garantir que os trabalhadores das respetivas cadeias de aprovisionamento recebem o que lhes compete por direito.

«As desigualdades salariais causadas pela crise fazem com que os trabalhadores não consigam alimentar as famílias de forma apropriada», afirma Khalid Mahmood, diretor da Labour Education Foundation no Paquistão, à Reuters. «Eles não conseguem pagar as despesas escolares nem médias, muitos deles estão com dívidas», acrescenta.

A rede ativista recolheu informações de um total de sete países – Bangladesh, Camboja, Índia, Indonésia, Mianmar, Paquistão e Sri Lanka –, visto que a falta de dados impossibilitou o abrangimento de outras nações que, na perspetiva da Clean Clothes Campaign, estão, provavelmente, a viver um cenário similar.

Na análise dos dados, os investigadores descobriram que os trabalhadores da indústria perderam entre 3,19 mil milhões e os 5,79 mil milhões de dólares nos primeiros três meses de pandemia, com os especialistas a estimar que 500 milhões de dólares ficaram retidos em salários no Bangladesh e 400 milhões na Indonésia.

[©Ecotextile News]
À Thomson Reuters Foundation, Shorifa Begum, costureira no Bangladesh, confessou ter sido demitida em maio através de uma mensagem via telemóvel, logo após os colegas de trabalho terem entrado em protestos contra os salários não pagos. A empresa em que a costureira trabalhava estava a dever-lhe 708 dólares, a maior parte do valor em horas extras que não foram pagas, o que é equivalente a mais de um terço do conjunto anual de salários de Shorifa Begum, que tem o marido doente e incapacitado para trabalhar. «Tenho vivido de empréstimos desde maio. Devo dinheiro de arroz e lentilhas a várias lojas e não sei quando é que vou poder pagar», admitiu, assegurando que muitas vezes não consegue comprar leite para o filho.

A necessidade de sobreviver fez com que Shorifa Begum começasse a trabalhar noutra fábrica que lhe ofereceu um rendimento que não chega a atingir metade do que costumava receber juntamente com as horas extra. «Obviamente não será suficiente, mas preciso de sobreviver», reconheceu.

A Clean Clothes Campaign garantiu que esta é uma prática comum no sector como um meio de obtenção de lucro nas empresas sediadas em países com salários baixos, onde os direitos de trabalho não estão devidamente implementados. «Estamos a apelar às marcas individualmente para estabelecerem um compromisso público que evite situações onde toda a gente da cadeia de aprovisionamento tem responsabilidade, mas na prática ninguém a assume», adianta Christie Miedema da Clean Clothes Campaign.

Insígnias como a Adidas, H&M, Primark e a Ralph Lauren, juntamente com a Organização Internacional de Empregadores (OIE), anunciaram, em abril, um grupo de trabalho formado pelas Nações Unidas, que visa ajudar no pagamento dos salários.

«A maioria das marcas agiu de forma responsável, mas há muito mais a fazer em muitas partes – marcas, governos, fabricantes, retalhistas», avança Roberto Suarez Santos, secretário geral da OIE, que revelou estar a colaborar com os governos, trabalhadores e entidades empregadoras dos países mencionados no relatório para criar sistemas de proteção social neste âmbito.

Sediada no Reino Unido, a Ethical Trading Initiative asseverou estar à espera de que os seus membros, que incluem a H&M e a Primark, cobrissem os custos dos pedidos já em curso ou concluídos e negociassem para evitar o cancelamento de mais encomendas.