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Tratave na linha da frente

Criada em 1998 para gerir a rede de despoluição do Rio Ave, a Tratave tem assistido na primeira fila às mudanças na indústria em relação à gestão da água, ao mesmo tempo que tem investido em novos sistemas para garantir um futuro mais sustentável.

Cláudio Costa

Responsável, há mais de 20 anos, pela gestão e exploração do serviço público de drenagem, depuração e destino final das águas residuais industriais e domésticas do Vale do Ave, designado por Sistema Integrado de Despoluição do Vale do Ave (SIDVA), a Tratave tem acompanhado a maior consciencialização e os esforços da indústria têxtil e vestuário para uma melhor utilização dos recursos hídricos.

«Quando começámos, a sensibilidade ambiental era muito baixa. Antigamente, as pessoas lançavam, sem vergonha, água para o rio», revela Cláudio Costa, diretor-geral da Tratave. Hoje em dia, «ninguém quer estar ligado a uma empresa poluidora. As pessoas querem que a sua empresa trate corretamente o ambiente, ninguém quer ter uma empresa que esteja conotada negativamente no ambiente», afirma ao Jornal Têxtil.

Prova disso são as várias auditorias a que a Tratave é sujeita por parte de clientes internacionais da ITV portuguesa, como a Inditex. «Vêm fiscalizar-nos para ver se estamos a trabalhar corretamente ou não. A Inditex planeou três dias de auditoria. Falaram comigo um dia e decidiram que não precisavam de ver mais nada, nem quiseram ver as outras três ETAR. Mas estão muito próximos, perguntam-nos coisas dos seus fornecedores, pedem informações, querem saber se eles se portam bem. E acabam por selecionar os que trabalham bem. Obrigam a que a indústria têxtil trabalhe bem e, às vezes, com muito mais eficiência do que as nossas instituições governamentais», indica Cláudio Costa. «Há toda uma preocupação ambiental e, hoje, a pegada ecológica da têxtil no Vale do Ave é muito inferior à que era caso não existisse o SIDVA», acredita.

Atualmente, a Tratave, que tem contrato de exploração do SIDVA até 2025, conta com uma lista de cerca de 400 clientes industriais e trata à volta de 40 milhões de metros cúbicos de água nas quatro ETAR que gere, em Serzedelo, Lordelo, Rabada e Agra. «Mais de 90% é efluente da indústria têxtil», aponta o diretor-geral da Tratave.

O sistema está informatizado, permitindo um maior controlo e manutenções preventivas. «Temos um SCADA [Sistemas de Supervisão e Aquisição de Dados] e a partir de um computador conseguimos parar e arrancar cada fase do tratamento. Toda a ETAR funciona em automático. Tentamos ser sempre pioneiros porque não chega só tratar, temos de ser cada vez mais sustentáveis, quer do ponto de vista energético, quer da utilização dos recursos que existem», considera Cláudio Costa.

A empresa instalou vários medidores de caudal ao longo dos 126 quilómetros da rede de coletores e tem um sistema preditivo, que permite estimar, de acordo com as previsões meteorológicas, o caudal que vai passar nos dias seguintes. «Sempre que existem situações que saem fora dos padrões normais, temos um sistema informático que nos dá alertas por forma a vermos o que é que se está a passar e, assim, conseguimos controlar melhor a rede em termos de obstruções, se há caudais clandestinos a serem drenados – fazemos todo esse controlo. É um projeto interessante que entra aqui já um bocadinho no campo da modelação matemática e inteligência artificial. E tem sido apresentado como uma mais-valia do nosso trabalho», afirma o diretor-geral da Tratave.

A empresa está também a acreditar o seu laboratório perante o Instituto Português de Acreditação, «para que os nossos resultados nunca sejam colocados em causa e para ter a certeza que temos as práticas mais corretas possíveis», revela.

A união faz a força

Para estar na vanguarda, a Tratave tem ainda feito parcerias com entidades do sistema científico e tecnológico. «Temos projetos juntamente com o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, temos projetos com várias universidades, temos frequentemente mestrandos e doutorandos da Universidade do Minho, tentamos fazer parte da sociedade também, ter um papel ativo naquilo que é possível», sublinha Cláudio Costa. «Acreditamos que, de facto, isto é mais do que um trabalho, é uma missão. Temos noção da importância do nosso trabalho nesta região e do que é que mudou», assume.

O desafio atual prende-se com as alterações climáticas e com a reutilização da água. «O que temos verificado com as alterações climáticas, e este é um problema que existe a nível mundial, é que o Vale do Ave também está a ser afetado. Desde que começámos a explorar o sistema que vimos o caudal com cheias frequentes no inverno, com chuvas intensas, e depois períodos de alargada seca, sem chuvas. Chega o verão e não temos água e, por isso, muitas vezes, somos acusados de não estar a tratar corretamente a água. E porque é que isto acontece? Porque o rio não tem capacidade de diluição e a água tratada não é uma água com a qualidade do rio, pressupõe uma diluição. Em todo o rio Ave existe uma série de mini-hídricas e barragens que vão retendo a água ao longo do rio e depois, obviamente, o interesse delas é turbinar essas águas quando a energia é mais cara, nas horas de ponta. Às vezes não existe mesmo água para garantir os caudais mínimos», esclarece Cláudio Costa. Para perceber melhor a situação, a Tratave instalou, em parceria com uma empresa da área, um sensor automático no rio para estudar o impacto da descarga no meio hídrico. «É para isso que existimos, não é só para cumprir uma licença de descarga, mas para, pelo menos, conhecer, de forma a saber o que podemos fazer. Tecnicamente podemos tornar a água boa para beber, mas que custo é que isso teria? E quem é que iria pagar esse custo? Neste momento o objetivo é que não hajam bactérias. A questão é que, cada vez mais, com a redução dos caudais dos rios, dos volumes que circulam no rio, o impacto é maior», reconhece.

Há, por isso, «sempre coisas a fazer e podemos melhorar sempre mais», sendo que a evolução, considera Cláudio Costa, deverá resultar da necessidade de reutilização da água por causa da escassez deste recurso. «Sem dúvida que a reutilização é uma coisa de futuro que temos de começar a trabalhar agora», sustenta o diretor-geral da Tratave. «A água vai ter de ser desinfetada a 100%, não pode ter vírus porque vai ser reutilizada e, obviamente que o fim não será um fim da água de abastecimento, será um fim menos nobre, não sei se para regas, não sei se na agricultura, não sei se até no processo têxtil. Pode pensar-se em algo que devolva a água, que recolha e depois volte a entregar a água com outra qualidade, para que os industriais consigam produzir com esta água. O futuro? Vai depender. Espero que não cheguemos aí, seria sinal que o ambiente não está assim tão mau e que não houve assim tantas alterações climáticas, mas, infelizmente, acho que essa é a tendência», conclui.