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Travão na exploração de refugiados

Numa altura em que os refugiados sírios continuam a chegar à Turquia, os postos de trabalho na indústria do vestuário mostram-se como uma fonte de rendimento capaz de travar a procura desesperada pela subsistência.

Em fevereiro, a organização Business & Human Rights Resource Center indicou que entre 250 mil a 400 mil refugiados sírios estariam a trabalhar ilegalmente na Turquia, muitos deles em fábricas de vestuário que aprovisionam retalhistas internacionais (ver Refugiados ilegais na ITV). Apesar de este cenário garantir uma fonte de rendimento aos migrantes, aqueles que conseguem emprego sem uma autorização de trabalho mostram-se particularmente vulneráveis ​​à exploração, analisa a Quartz.

Para garantir que os refugiados não estão a ser alvo de exploração, a Primark revelou ter duplicado as suas inspeções às fábricas localizadas dentro das fronteias do país. «Sabemos que, nesta altura, os refugiados sírios são um problema na Turquia, por isso, temos feito auditorias não anunciadas», afirmou Paul Lister, responsável pela equipa de ética da Primark, à agência Reuters.

Lister explicou que a Primark tem 100 fornecedores na Turquia, que representam cerca de 5% da sua produção. A retalhista de moda rápida é uma das marcas que produzem vestuário no país, tal como a Inditex e a H&M.

No seu relatório, a Business & Human Rights Resource Center questionou 28 marcas sobre as fábricas com as quais trabalham na Turquia e descobriu que algumas, incluindo a H&M, Primark e C&A, tinham encontrado refugiados ilegais entre os funcionários fabris.

A H&M deparou-se com uma fábrica que recorria ao trabalho de crianças refugiadas e a Next descobriu que duas das unidades fabris com as quais trabalha tinham casos semelhantes. «De acordo com a nossa posição sobre os refugiados sírios na Turquia, terminámos esta relação comercial imediatamente», revelou um porta-voz da H&M. «Informámos depois a nossa ONG parceira para conseguirmos o seu apoio nas atividades de resolução».

Já a Primark indicou ter discutido a situação com o seu fornecedor e implementado um plano de tempo limitado no local para resolver quaisquer problemas. «Se não encontramos o nível necessário de envolvimento que esperamos na resolução, as relações comerciais com os fornecedores são revistas e, em alguns casos, encerradas», afirmou a empresa em comunicado.

Há, contudo, diferentes pontos de vista sobre qual a melhor linha de atuação para as marcas quando estas encontram refugiados sem autorizações de trabalho nas respetivas cadeias de aprovisionamento. Nenhuma marca quer sua a imagem denegrida pelo trabalho infantil ou atropelos aos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, estes postos de trabalho, que muitas vezes requerem pouca formação, podem ser vitais para a subsistência dos migrantes.

A H&M anunciou o cortar de relações com qualquer fornecedor que empregasse nas suas fábricas trabalhadores sem uma autorização de trabalho. Todavia, outras retalhistas internacionais consideram que a melhor abordagem é continuar a trabalhar com a fábrica, mas ajudar os trabalhadores a obter as autorizações e certificar-se que estes estão a ser pagos corretamente. Ruth Vermeulen, da Fair Wear Foundation, disse ao The Guardian que as marcas «devem trabalhar em conjunto com o fornecedor no sentido de formalizar o estatuto dos trabalhadores, sempre que possível».

Muitas empresas, incluindo a Inditex, referiram à organização Business & Human Rights Resource Center que têm programas em vigor para ajudar os migrantes a obterem a documentação necessária. Alguns dos campos de refugiados erguidos pelo governo turco têm também promovido workshops para munir os refugiados sírios da formação necessária – como costura – para serem integrados nas fileiras da indústria do vestuário.