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Trump aproxima Europa da China

À medida que o presidente eleito dos EUA vai fortalecendo o seu mantra protecionista “America Primeiro”, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente chinês Xi Jinping estão a aproveitar quase todas as oportunidades para afirmar o seu compromisso com o livre comércio. Na semana passada, Merkel e Jinping concordaram «continuar a cooperação de confiança» em mercados abertos.

O desafio, consideram os analistas, será usar essas palavras para superar as questões que têm azedado as relações China-União Europeia (UE) há anos. «Ainda há muitos obstáculos à cooperação», afirma Wang Yiwei, professor de Relações Internacionais na Universidade de Renmin, em Pequim, à Bloomberg. «Não olhamos para a Europa para compensar os EUA, mas podemos esperar que a Europa possa ajudar face ao unilateralismo americano», explica.

Os sinais de reaproximação da Europa e da China surgem quando Jinping planeia visitar Berlim e os EUA enviam mensagens ambíguas sobre a sua futura política comercial.

Por um lado, o conselheiro de Donald Trump, Steve Schwarzman, referiu, este mês, que o presidente deverá moderar as suas críticas à China com o passar do tempo e Jinping poderá ser hospedado no clube Mar-a-Lago, na Flórida, no próximo mês.

Por outro, tanto a Alemanha como a China estão na linha de mira dos EUA relativamente às taxas de câmbio. O principal consultor comercial de Trump, Peter Navarro, por seu lado, declarou que a China é «a maior fraude comercial do mundo» e que o défice dos EUA com a Alemanha estará entre os mais difíceis de saldar. A par disso, depois de Trump receber Merkel pela primeira vez na Casa Branca na semana passada, o presidente repetiu as suas queixas de que os EUA foram tratados «de forma muito injusta» nos acordos comerciais.

As posições de Trump podem, por isso, fomentar uma abertura nas relações UE-China, de acordo com Berlim. Dias antes de Trump assumir a presidência dos EUA, Jinping comparou o protecionismo a «trancar-se num quarto escuro».

Numa reunião do grupo dos 20 ministros das Finanças e governadores de bancos centrais em Baden-Baden, na Alemanha, a China posicionou-se como defensora do sistema de comércio global, resistindo às exigências dos EUA para se afastar dos acordos multilaterais, o terreno comum entre a UE e China.

«Estas duas grandes potências económicas estão prestes a iniciar as negociações sobre um acordo de livre comércio, mais cedo ou mais tarde», admite Hosuk Lee-Makiyama, diretor do Centro Europeu para a Economia Política Internacional em Bruxelas. «Estamos provavelmente a falar de três a cinco anos», acrescenta.

Desde as observações de Jinping em janeiro, entretanto, as dúvidas persistem na Europa sobre a vontade da China cumprir a sua parte da promessa. A Europa tem sido severamente afetada pelas políticas de exportação chinesas – em 2005, cerca de 75 milhões de têxteis chineses ficaram retidos nos portos europeus, face a preocupações de que os fabricantes domésticos não pudessem competir com as importações baratas.

Mais de uma década depois, as tensões continuam. No ano passado, os 28 membros da União Europeia mantiveram um défice comercial de 175 mil milhões de dólares (aproximadamente 163 mil milhões de euros) com a China, enquanto três anos de negociações entre Bruxelas e Pequim sobre um acordo de investimento para nivelar o campo de atuação das empresas europeias na China pouco terá a mostrar.

«Há certas reformas que a China precisa de fazer e talvez ainda não esteja pronta para fazê-las», advoga a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmstrom, em à Bloomberg. «Infelizmente, a realidade na China hoje não é tão otimista; é difícil para as empresas europeias e outras fazerem negócios lá», acrescenta.

A UE não tem nenhum plano concreto – político ou técnico – para estimular uma relação comercial mais forte com a China, como resultado de um possível protecionismo dos EUA.

Ainda que o primeiro-ministro chinês Li Keqiang tenha pedido, na semana passada, para que a Europa abraçasse o tratado de investimento bilateral, as conversações em curso sobre o acordo são difíceis, o que dificulta a negociação de qualquer acordo de livre comércio com Pequim.

Os chineses fizeram compras de alto nível na Europa, incluindo aeroportos alemães, o porto de Pireu na Grécia e a fabricante de pneus italiana Pirelli. Pelo contrário, as incursões europeias na China têm sido dificultadas por limites de capital e restrições de licenciamento, segundo a UE. O acordo de investimento «não avançou muito», afirma Malmstrom. «Esperamos que possamos dar um passo à frente».

Num relatório divulgado no início deste mês, a Câmara de Comércio da UE na China alertou que os subsídios destinados a reforçar a produção em 10 indústrias de alta tecnologia, desde maquinaria a dispositivos médicos, distorcerá os mercados e deverá potenciar a superprodução.

Não obstante, os chineses também têm frustrações. Pequim tem vindo a pedir à Organização Mundial do Comércio que se pronuncie sobre a política antidumping da UE em relação à China, considerando que esta viola as regras internacionais.

Por tudo isso, os esforços para aliviar as tensões UE-China podem reforçar o argumento para as negociações de livre comércio entre as duas geografias, tornando-se parte de um grande acordo político.

«Trump tem pressionado a China e a Alemanha de forma semelhante sobre a moeda e isso aumentou a necessidade de cooperação», destaca Wang Yiwei, professor de Relações Internacionais na Universidade de Renmin, em Pequim. «A Europa está mais dependente da globalização do que os EUA e a China tem as mesmas preocupações», conclui.