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Trump mancha vestuário

Recentemente, milhares de pessoas de todo o mundo reuniram-se em Nova Iorque para participar nos desfiles da semana de moda local. Ao longo de sete dias, designers de países como Alemanha e Índia vestiram modelos naturais da Jamaica e do Gana em coleções produzidas em países como Itália e Japão. O evento é a montra perfeita da natureza global da moda. Porém, desde que Donald Trump venceu as eleições norte-americanas em novembro, a indústria da moda tem olhado para a sua administração como uma ameaça ao negócio.

Desde o início da sua campanha presidencial, Trump abraçou o nacionalismo e medidas protecionistas que envolveram, por exemplo, entraves à imigração ou impostos sobre as importações. Contudo, como afirmou recentemente a ministra francesa da cultura Audrey Azoulay, «as potências populistas» são «absolutamente incompatíveis com a ideia de moda e liberdade».

Historicamente, considera a revista Vice, a comunidade europeia conheceu os efeitos nocivos do hipernacionalismo. A obsessão de Adolf Hitler com a autossuficiência da Alemanha foi um dos agravantes da queda dos negócios de moda em Berlim. Donald Trump não é fascista, mas algumas das suas perspetivas e políticas económicas e culturais poderão colocar em perigo os 343 mil milhões de dólares (aproximadamente 316 mil milhões de euros) da indústria de vestuário.

Antes de Hitler chegar ao poder, em 1933, Berlim era uma capital de moda conhecida pelo seu pronto-a-vestir. O sucesso era alimentado pelos judeus, que dominavam o ofício desde o início do século XVIII. No seu pico, a Alemanha era o lar de aproximadamente 2.400 empresas de vestuário judaicas.

«Os judeus muitas vezes tinham salões, quer dentro de grandes armazéns, quer como negócios autónomos», revela Irene Guenther, autora de “Nazi Chic?”. «Eram conhecidos não só pelo seu design, mas também pela meticulosa alfaiataria, porque estavam na indústria há muito tempo, muitos deles também se tornaram muito importantes para a produção de botões, fechos e tecidos», acrescenta.

Nos EUA, os imigrantes têm uma história profundamente enraizada na indústria da moda. No início do século XX, uma onda de imigrantes europeus chegou a Nova Iorque, onde montou lojas e começou a trabalhar em fábricas. Muitos desses imigrantes europeus eram judeus que fugiam aos nazis e trouxeram consigo a experiência em design e confeção de vestuário.

A integração dos imigrantes na indústria da moda continuou desde então. Em 2005, mais de 75% dos trabalhadores da indústria de vestuário eram imigrantes, segundo os dados da Vice. Embora os imigrantes trabalhem muitas vezes em condições precárias e por salários mais baixos, as fábricas de vestuário continuam a ser um dos principais empregadores para os recém-chegados aos EUA. Isto é especialmente verdadeiro para aqueles que vieram ilegalmente para os EUA. De acordo com um estudo de 2012 do Pew Research Center, 20% da força de trabalho da indústria de vestuário nos EUA é ilegal.

Em 1933, Hitler tentou limpar a indústria ariana de qualquer influência judaica. Os seus esforços foram apoiados por boicotes e aquisições ilegais de empresas judaicas e os nazis fundaram inclusivamente uma organização para promover a compra de produtos arianos.

Em janeiro de 1939, os nazis tinham sido capazes de eliminar os judeus da moda. «A purga demorou seis anos, mais do que qualquer outro sector económico na Alemanha nazi», refere a autora Lisa Pine no livro “Life and Times in Nazi Germany”.

Nos EUA, com Donald Trump, uma parte significativa da indústria está num impasse com a política anti-imigração que exige a «remoção acelerada» de estrangeiros ilegais. As pesquisas já afirmaram que a deportação de 11 milhões de imigrantes ilegais custará ao governo americano 114 mil milhões de dólares, mas não é só o trabalho que estas pessoas fazem que tem enriquecido o país, é também a sua cultura.

«Vêm de outro lugar com diferentes práticas culturais e histórias que podem sobrepor-se à moda americana e torná-la algo completamente diferente e excitante, seja Raf Simons ou Diane von Furstenberg», explica Guenther. «Essa foi a miopia do regime de Hitler, a sua xenofobia arruinou as exportações e expulsar os judeus significou expulsar a maioria dos melhores designers, e também significou que não haveria nenhuma nova injeção de visão e empreendedorismo ou mesmo cor e cuidado nos têxteis».

Trump tem também procurado incutir nos americanos o mantra “compra americano, contrata americano”. O presidente destacou este slogan nacionalista em janeiro, o que poderá querer dizer que os EUA vão concentrar-se em exportar, mas não em importar bens (ver Trump defende protecionismo). «Devemos proteger as nossas fronteiras dos estragos de outros países que fabricam os nossos produtos, roubando as nossas empresas e destruindo os nossos empregos», afirmou Trump durante o discurso inaugural.

Para desencorajar ainda mais as empresas americanas a produzirem fora de portas, Donald Trump tem vindo a citar o chamado “Border Adjusted Tax”, um ajustamento dos impostos na fronteira que eliminará os benefícios fiscais para as empresas americanas que produzem no exterior. Se a reforma tributária for aprovada, os designers serão confrontados com três opções: fechar lojas, pagar mais para produzir no mercado interno ou passar os custos para os consumidores, sendo esta última a mais provável.

No início deste mês, a National Retail Federation, que se opõe firmemente à proposta da administração Trump, emitiu um alerta comercial sobre os efeitos do aumento dos impostos sobre as importações (ver Retalhistas hostis ao protecionismo).

Segundo a American Apparel and Footwear Association, os EUA importaram 97,5% do seu vestuário em 2014. Apesar dos esforços para manter a produção de moda nos EUA, muitas marcas e gigantes do retalho continuam a voltar-se para a produção no exterior, em países como China e Índia, devido aos menores custos de produção.