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Tumultos abalam ITV mexicana

Os retalhistas mexicanos perderam mais de 65 milhões de euros com os protestos e pilhagens que na semana passada bloquearam as principais autoestradas e causaram atrasos nos envios de vestuário dos cinco principais centros de produção em Torreon, Chihuahua, Aguas Calientes, Estado do México e Puebla.

«Diria que os prejuízos vão rondar 1,5 mil milhões de pesos por causa das pilhagens, mas pode ser mais», afirma Vicente Yanez, presidente da associação de retalhistas Antad. «Não estamos apenas a ver a perda de mercadoria, mas também os locais destruídos que temos de reabilitar», acrescenta.

Yanez confirma, segundo o just-style.com, que a Wal-Mart Stores, a Coppel e as cadeias de hipermercados Soriana e Chedraui foram as empresas mais atingidas, com os mexicanos furiosos a roubarem quase 2.000 retalhistas para protestarem conta um aumento de 15% a 20% no preço dos combustíveis, num caso apelidado de “gasolinazo”.

Milhares marcharam contra o aumento súbito imposto pelo cada vez menos popular presidente Enrique Peña Nieto, que em 2013 se comprometeu a fazer uma reforma da energia que iria manter os preços estáveis. O caos, que terá levado à morte de cinco pessoas e à detenção de 800, surgiu num cenário agravado pelo aumento da inflação e o espectro de uma recessão, provocada pelas políticas anti-México anunciadas pelo presidente-eleito dos EUA, Donald Trump (ver México prepara-se para o embate).

As perspetivas económicas do país ficaram ainda mais ensombradas esta semana depois de Trump ter renovado as ameaças de construir um muro de 10 mil milhões de dólares na fronteira com o México e fazer com que o México o pague. O muro pode implicar enormes perdas para os produtores de têxteis e vestuário de ambos os lados da fronteira, já que irá atrasar os envios. Ao mesmo tempo, a promessa de Trump de atualizar o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (Nafta) para refletir a sua visão e impor uma taxa de 35% sobre os bens produzidos no México está a causar dores de cabeça ao governo.

Martin Barrios, que lidera a Comissão de Direitos Humanos de Tehuacan – o principal centro de produção em Puebla – acredita que os desacatos deverão afetar os envios de vestuário a partir de Torreon, Chihuahua, Aguas Calientes, Estado do México e Puebla, onde o México produz a maior parte do vestuário que vende para os EUA.

Barrios acrescenta ainda que o agravamento das perspetivas económicas para o país vai apenas prejudicar os trabalhadores, apesar de um aumento de 10% nos salários em janeiro.

«Isto não se irá refletir nos trabalhadores da indústria têxtil e vestuário, que ganham 10 pesos [0,43 euros] à hora – basicamente são 11 pesos e isso é o que a maioria gasta no transporte para ir para o trabalho», refere Martin Barrios, acrescentando que os aumentos anuais de salário do governo quase não fazem a diferença para as costureiras pobres.

O líder da Comissão de Direitos Humanos de Tehuacan indica ainda ao just-style.com que as federações de patrões estão agora a usar o “gasolinazo” como uma desculpa para reduzir as suas contribuições para a segurança social, argumentando que os custos de produção vão subir rapidamente, enquanto é da responsabilidade do governo pagar as pensões.

Se Trump impuser taxas de 35%, será uma «sentença de morte» para o sector de produção de vestuário do México e para os seus trabalhadores, incluindo em Puebla, onde há 150 trabalhadores na indústria.

«Éramos o principal exportador para os EUA há 10 anos, mas isso acabou quando a China e outros começaram a competir» no sourcing, acrescenta Barrios.

Para os 50 mil membros da Antad, os tumultos – cujos prejuízos as seguradoras se recusaram a pagar – surgem numa altura em que estão a ser feitos esforços para apanhar os ladrões de lojas e em que as perdas provocadas pelos roubos têm vindo a melhorar.

«Perdemos 13,8 mil milhões de pesos com roubos e outras ineficiências de inventário em 2014», revela Vicente Yanez, acrescentando que os membros da Antad investiram 100 milhões de dólares para reduzir essa perda, através de nova tecnologia de vigilância e controlo de inventários.

Mas apesar destes esforços, os roubos e os custos com falta de inventário ficaram «bem acima» de 450 milhões de dólares (cerca de 421,2 milhões de euros) anualmente desde 2010, totalizando 1,3 mil milhões de dólares, aponta Yanez, acrescentando que até 12% disso, ou 165 milhões de dólares, diz respeito a vestuário e calçado.

O presidente da Antad atribui a culpa à falta de eficiência da polícia local e estatal, que a Antad pediu ao governo para melhorar.