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Tunísia aposta em iniciativas circulares no denim

As empresas tunisinas especialistas em denim estão a avançar com investimentos e desenvolvimentos para criar uma economia circular sustentável de produção de jeans de alta qualidade a partir de tecidos reciclados.

[©Unplash]

Os passos no caminho da sustentabilidade estão a ser incentivados pelo SwitchMed, uma iniciativa regional de eficiência de recursos financiada pela União Europeia e liderada pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi). Este programa, iniciado em 2013/2014, encontra-se agora na fase três, que visa construir economias circulares reais, revela Antonino Trimarchi, coordenador sub-regional do SwitchMed para Tunísia e Marrocos, ao  just-style.com,.

A Tunísia, Marrocos e Egito estão todos focados nas suas indústrias têxtil e vestuário, afirma Trimarchi. «Os seus problemas são praticamente idênticos, à exceção do Egito, que usa materiais diferentes e tem malhas circulares», sublinha.

As empresas têxteis da Tunísia, em particular os produtores de denim de alta qualidade, optaram por «desenvolver o processo de reciclagem recorrendo a resíduos industriais do corte e da tecelagem, de modo a recuperar e reciclar os materiais para dar origem ao mesmo produto, o que é particularmente interessante para o denim», explica o coordenador sub-regional do SwitchMed para Tunísia e Marrocos.

Antonino Trimarchi desvenda ainda que as empresas e os investigadores integrantes estão a elaborar uma análise que tira conclusões sobre o que é desperdiçado no processo de corte e quanto é preciso investir neste sector para evitar desperdícios e conseguir criar novos tecidos a partir dos antigos. Apesar da pandemia ter desacelerado os esforços neste âmbito, Trimarchi acredita que assim que a análise for divulgada, os especialistas vão definir um projeto-piloto para ser implementado na indústria têxtil e vestuário da Tunísia e de Marrocos.

Sistemas sustentáveis

A iniciativa já despertou a atenção com comentários positivos de marcas líderes que aprovisionam na Tunísia, incluindo a Diesel, Inditex, Benetton e Nudie Jeans, que estão interessadas em adquirir vestuário como jeans produzidas a partir de materiais reciclados e procuram investir de forma direta ou indireta em novos sistemas sustentáveis.

«É verdade que marcas como a Tommy Hilfiger e a Calvin Klein estão agora 100% focadas na economia circular», reconhece Johnny de Meirsman, CEO da Demco, produtora belgo-tunisina de vestuário em malha e jeans, fundada em 1991 e sediada em Moknine, acrescentando que as empresas estão já a produzir jeans em conformidade com as diretrizes de desenvolvimento sustentável da Ellen MacArthur Foundation.

Os primeiros jeans a serem criados mediante a iniciativa Jeans Redesign foram lançados em outubro com a Boyish, H&M, Seventy + Mochi,Triarchy e Weekday a fazerem as honras. A seguir os mesmos passos estão dezenas de outras marcas como a Gap, Reformation, Lee e Wrangler, que vão lançar os próprios produtos nos próximos meses.

«O nosso objetivo é o desperdício zero e estamos a chegar aí. Agora, o próximo desafio da economia circular é, em vez de transformar os nossos resíduos em cobertores, isolantes ou têxteis para automóveis, transformá-los em novos pares de jeans», adianta o CEO, que assegura que a Demco vai superar as metas do SwitchMed. «É preciso controlar a qualidade e garantir que o desperdício é limpo. É muito difícil controlar a qualidade do material reciclado», reconhece, admitindo ainda que o objetivo é «ambicioso e desafiante».

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Entre as dificuldades, Johnny De Meirsman aponta os custos dos investimentos na conversão ou adaptação das máquinas para a produção têxtil.

É importante manter ligações a montante quando a meta é atingir uma economia circular na indústria têxtil. A indústria de fiação e tecelagem tunisina diminuiu, mas várias fábricas continuam de pé, como por exemplo a SITEX (Société Industrielle des Textiles) que, neste momento, fia, tece e tinge algodão importado.

Segundo Johnny De Meirsman, a SITEX investiu em maquinaria para a economia circular e está já a fabricar tecidos para a Demco com 20% de algodão reciclado a partir dos desperdícios da empresa, que espera que a SITEX consiga alcançar os 50%.

«Um dos principais problemas é que o vestuário para reciclagem é atualmente considerado produto acabado e tem as mesmas taxas que o vestuário vendido nas “Fripes” (lojas de segunda-mão na Tunísia)», alerta o CEO.