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Tunísia cria novo plano para potenciar ITV

A indústria têxtil e vestuário e o governo tunisino uniram-se num acordo que visa dar uma nova vida ao sector. Atingir os 4 mil milhões de euros em exportações e criar cerca de 50 mil postos de trabalho, até 2023, são alguns dos objetivos da parceria público-privada.

O primeiro-ministro da Tunísia, Youssef Chahed, assinou um acordo com a União Tunisiana da Indústria, do Comércio e do Artesanato (UTICA) e a Federação Têxtil e de Vestuário da Tunísia (FTTH) para potenciar a recuperação do sector, ao longo dos próximos cinco anos, através de um plano de desenvolvimento. Segundo o acordo, o governo irá investir 100 milhões de dinares tunisinos (cerca de 29 milhões de euros) para impulsionar o desenvolvimento da indústria e alavancar mais investimentos, de cerca 350 milhões de dinares tunisinos (cerca de 100 milhões de euros), tanto do sector privado como de fundos privados de investimento.

Após a cerimónia de assinatura da parceria, o ministro da indústria da Tunísia, Slim Feriani, explicou que o acordo pretende melhorar a estratégia, a administração, a integração, o marketing, a formação, as infraestruturas e o clima negocial em geral da indústria têxtil e vestuário.

Os empresários tunisinos esperam que a nova parceria criada com o governo permita ao sector atingir o seu potencial máximo. «Já fomos o quarto maior fornecedor [da Europa]. O nosso objetivo é voltar a estar no top cinco de produtores que fornecem à Europa», revela o diretor-geral da FTTH, Néjib Karafi, ao just-style.com.  O responsável explica que a FTTH pretende potenciar a produção de vestuário na Tunísia e «aproveitar a proximidade da Europa. Estamos apenas a 24 horas [de barco] de Marselha e, consequentemente, de Paris».

O diretor-geral da FTTH acrescenta que o objetivo deste novo plano de investimento é criar novas empresas, assim como promover a produtividade das empresas já existentes, nomeadamente potenciando a sua verticalidade. Se as empresas se quiserem candidatar a fundos para alcançar estes desígnios «são muito bem-vindas», afirma.

Os objetivos concretos

O pacto visa que as exportações anuais de têxteis e vestuário, que em 2018 foram de 2,18 mil milhões de euros, cheguem aos 4 mil milhões de euros em 2023. Ao longo dos primeiros dois anos, o objetivo é recuperar do recente enfraquecimento da indústria, causada pela instabilidade política e económica, com o objetivo de crescer anualmente em exportações em cerca e 5% a 6%, acelerando para 13% em 2021.

A ambição é, igualmente, criar cerca de 50 mil postos de trabalho no sector até 2023. A Tunísia irá beneficiar, igualmente, da existência de mão-de-obra capacitada e do desemprego jovem. De acordo com o Banco Mundial, o desemprego entre os jovens tunisinos (dos 15 anos aos 24 anos) foi de 36,27% em 2018.

Recorde-se que a indústria têxtil e vestuário da Tunísia sofreu com o impacto da crise financeira internacional de 2007 e da revolução de 2011, que levou a saída do poder do presidente Zine El Abidine Ben Ali, que ocupava o cargo desde 1987. A democracia chegou com o custo da instabilidade política e económica e, em 2016, a indústria atingiu mínimos históricos. «Perdemos 400 empresas e 40 mil postos de trabalho», indica Néjib Karafi. A resposta dos empresários da ITV foi a criação da FTTH, de modo a conseguirem um maior controlo do destino do sector, que, como resultado, já registou melhorais significativas.

Cadeia de aprovisionamento vertical

A base da parceria passa por uma aposta numa cadeia de aprovisionamento mais vertical e integrada, criando novas infraestruturas de fiação, tecelagem e acabamentos, com o objetivo não só de aumentar as margens de lucro, mas também de controlar a qualidade dos produtos. Além disso, a expansão poderá acelerar o ritmo da cadeia de aprovisionamento, um fator essencial, já que a fast fashion é uma prioridade.

Néjib Karafi aponta ainda que o pacto pretende impulsionar o segmento dos jeans, renovando ligações antigas com marcas como Tommy Hilfiger, Monoprix e Lacoste, que as empresas tunisinas já forneceram no passado. Este tipo de marcas é particularmente importante para a Tunísia, considera o diretor geral da FTTH. «Se trabalharmos com estas marcas, automaticamente vendemos para a Europa, América e outros territórios, incluindo África», assegura Néjib Karafi.

Melhorar confiança dos mercados na Tunísia

A Tunísia pretende ainda melhorar a confiança internacional dos mercados no que concerne à responsabilidade social, bem como encorajar a produtividade, garantindo aos trabalhadores estabilidade financeira. Nesse sentido, a FTTH e o Sindicato Nacional do Trabalho da Tunísia concordaram num processo de aumento salarial ao longo dos próximos dois anos.

No entanto, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística da Tunísia, as exportações de têxteis, vestuário e artigos em pele caíram 2,2% em termos de volume, nos meses de janeiro e fevereiro, em relação ao ano passado. De modo geral, as exportações do país baixaram 3,5%.