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Tunísia é alternativa, mas traz desafios

Empresas como a Petratex têm tido boas experiências no mercado tunisino, para onde estão a transferir encomendas às quais não conseguem dar resposta em Portugal. Apesar da vontade de aprofundar as relações comerciais da ITV dos dois países, há, contudo, desafios a ultrapassar, como a logística e os transportes.

«Até hoje tenho uma boa experiência na Tunísia», afirmou Sérgio Neto, CEO da Petratex, durante o webinar Tunísia-Portugal, promovido pelo CENIT e pela ANIVEC, que decorreu ontem. Com uma experiência de mais de 20 anos neste país do Norte de África, a operação da empresa portuguesa na Tunísia, onde conta duas unidades e 450 trabalhadores, um número que se deverá expandir para os 600 até ao final deste ano, está atualmente em transição para artigos mais especializados, depois de ter começado mais vocacionada para as quantidades. «Queremos fazer na Tunísia um satélite da Petratex», esclareceu.

Para isso está a dotar tecnologicamente estas unidades – à semelhança do que acontece em Portugal, também na Tunísia cada costureira tem um tablet. «É importante que o nosso cliente não sinta diferença» entre a produção em Portugal ou na Tunísia, sublinhou Sérgio Neto.

Foi para apoiar as empresas portuguesas que estavam a investir neste mercado que também o CITEVE avançou para a Tunísia, tendo criado, em 2005, uma representação no país, onde é o representante oficial da certificação Oeko-Tex, ao mesmo tempo que foi estabelecendo relações com instituições locais, nomeadamente com o centro tecnológico Cettex, com o qual tem uma grande proximidade. A experiência, contudo, tem sido pautada por altos e baixos, assumiu António Braz Costa. «É muito inconstante», justificou o diretor-geral do CITEVE, lembrando eventos como as alterações políticas impulsionadas pela chamada Primavera Árabe, em 2011, e os ataques terroristas de 2015, como condicionadoras das relações.

Obstáculos a ultrapassar

Esta inconstância tem sido sentida também pela Petratex, que tem 30% da sua produção na Tunísia. «Uma das viagens que fiz foi para entregar a chave porque queriam queimar a fábrica», contou Sérgio Neto. Além disso, referiu, há outras dificuldades, a maior das quais se prende com os transportes. «A principal dificuldade são as ligações aéreas», apontou o CEO da Petratex, dando conta que, apesar de estarmos a duas horas de distância de avião, com ligações diretas, chegar a Túnis a partir de Portugal demora oito horas, já que é necessário fazer escala em Frankfurt ou Paris.

[©FTTH]
Outro entrave tem a ver com os procedimentos burocráticos na entrada e saída de produtos. «A mercadoria pode ficar retida uma semana nas alfândegas», exemplificou.

E há ainda o problema logístico, com as principais ligações a serem a Marselha ou Barcelona e apenas uma vez por semana. «Não consigo ter dois transportes semanais», revelou Sérgio Neto, que acredita que o investimento por parte de mais empresas portuguesas no país pode contribuir para uma solução. «Podemos depois criar um centro logístico para as empresas portuguesas», sugeriu.

Apostar agora

Apesar destas questões, o país apresenta-se como uma alternativa interessante para a deslocalização da produção de têxteis e vestuário. «Portugal sempre teve muita timidez em olhar a globalização como uma grande oportunidade. Focámo-nos muito na sofisticação das nossas indústrias e fizemos uma internacionalização focada na venda de private label, mas nunca nos focamos numa internacionalização inversa», declarou César Araújo, presidente da ANIVEC. «Portugal tem aqui uma grande oportunidade para fazer joint-ventures com os tunisinos para sermos uma referência a nível mundial», acredita.

A escassez de mão de obra em Portugal faz com que seja premente encontrar uma solução para o futuro, consideraram praticamente todos os intervenientes portugueses no webinar, com António Braz Costa a referir três potenciais soluções: incremento significativo da digitalização para operações manuais, «o que levará tempo»; importação de mão de obra; e deslocalização da produção.

Esta última, apesar dos investimentos tecnológicos que tem feito, é considerada uma das mais eficazes pelo CEO da Petratex, até porque a importação de mão de obra tem um entrave.

[©FTTH]
«Onde existem pequenas e médias empresas, não existem casas para habitar», indicou. Para Sérgio Neto, e tendo em conta a existência de mão de obra qualificada no nosso país, «Portugal pode ser o laboratório da Europa para o desenvolvimento de produto», subcontratando a produção noutros mercados. Portugal, asseverou, pode funcionar «como laboratório, isto é, os clientes contratarem-nos para desenvolver coleções, desenvolver o on-demand, fazer reparações – na Petratex já temos três linhas a fazer reparações de produto, porque é a verdadeira sustentabilidade».

O CEO da Petratex reconheceu ainda que é necessário proteger as pequenas empresas portuguesas, apelando à ação por parte da ANIVEC nesse sentido, até porque «precisamos delas» e realçou que a deslocalização para outros países não prejudica o emprego em Portugal. «Fomos para a Tunísia aumentar o emprego em Portugal, porque senão a Petratex hoje não tinha 22 modelistas, não tinha 18 técnicos, não tinha 22 engenheiros. É esta mentalidade aberta que temos que ter», assegurou. Além disso, «a têxtil nunca será a mesma [de antes da pandemia]. A têxtil mudou, vai mudar, mudou para sempre, não estou a dizer que vai ser pior, mas existem outras oportunidades de negócio que devem ser aproveitadas», afiançou Sérgio Neto.

Minimizar os riscos

Também o presidente da ANIVEC frisou que parcerias com países produtores como a Tunísia não são uma ameaça. «Só se faz na Tunísia o que não temos capacidade de fazer cá», lembrou. Embora enquanto empresário – é presidente da Calvelex – nunca tenha recorrido à subcontratação, César Araújo admitiu que «tenho muitos clientes que estão a pedir produções e não tenho capacidade de resposta. O meu caminho vai ser parte da deslocalização da produção que não consigo fazer em Portugal». Para o empresário, «nos próximos anos vamos ter uma enorme pressão por falta de recursos humanos. (…) Ou perdemos encomendas ou temos de arranjar parceiros de confiança, neste caso a Tunísia, para podermos dar resposta aos nossos clientes».

Para Rui Cordovil, gestor de mercado da AICEP, «não há mercados fáceis. A Tunísia tem vindo a ultrapassar vários constrangimentos» e, numa altura em que Portugal tem necessidade de encontrar parceiros para a produção de têxteis e vestuário, como já aconteceu com a grande maioria dos países europeus, «não faz sentido esquecer o Norte de África», uma região que pela proximidade geográfica e até cultural, «faz mais sentido do que a China», exemplificou.

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Nesta relação com a Tunísia, a ANIVEC quer «estar com os empresários para minimizar os riscos» de exposição ao mercado, garantiu César Araújo, nomeadamente com a criação de protocolos. O presidente da associação pretende ainda pressionar no sentido de resolver as questões relacionadas com as ligações aéreas entre Portugal e a Tunísia, simplificação dos processos de importação e exportação e a criação de «um corredor verde» para permitir que trabalhadores dos dois países possam viajar e fazer ou dar formação. «Nós, empresários, temos conhecimento de toda a situação e da instabilidade política existente na Tunísia, mas este nosso primeiro passo é de querer que Portugal esteja na linha da frente como parceiro e amigo da Tunísia. E a ANIVEC vai ter o cuidado de acompanhar os seus empresários e tentar minimizar os riscos, quer comerciais, quer políticos, para que eles tenham tranquilidade para fazer este caminho entre Portugal e a Tunísia», resumiu.

Uma indústria em crescimento

De acordo com a FTTH – Federation Tunisienne du Textile et de l’Habillement, a indústria têxtil e vestuário da Tunísia conta com mais de 1.600 empresas, que empregam 160 mil pessoas, o que representa 31% do emprego na indústria. 90% das empresas são completamente exportadoras, com o sector a ter conseguido superar, em 2021, o nível de exportações do ano pré-pandemia, num total de 2,4 mil milhões de euros (em comparação com 2,3 mil milhões de euros em 2019 e 2,1 mil milhões de euros em 2020).

Nafâa Ennaifer, da FTTH, destacou como principais segmentos de produto o denim, onde o país tem 8% de quota de mercado na UE, com um preço médio de 18 euros. «No denim, temos quatro vezes mais exportações para a UE do que Marrocos e duas vezes mais do que Marrocos e o Egito juntos», salientou. A ITV do país é ainda forte no vestuário de trabalho, tanto de proteção como de imagem, e na área dos tecidos para moda de banho.

Apesar de algumas dificuldades económicas e políticas que o país tem atravessado nos últimos 10 anos, Nafâa Ennaifer sublinhou que «a Tunísia, os seus empresários e as suas empresas são empreendedores, as empresas continuam a investir», pelo que convida os empresários portugueses a avançarem para o país. «Portugal é um país que soube preservar uma ITV com excelente desempenho. Para nós é muito importante a aproximação a profissionais na linha da frente da tecnologia e da competitividade [como os portugueses]», pelo que «temos de estabelecer joint-ventures win-win para conquistar novos mercados», afirmou.

Na Tunísia há 22 empresas de têxteis e vestuário com capital português, de um total de 42 empresas, de diferentes sectores, com investimento luso. «Queremos reforçar esta cooperação e aumentar os números», assumiu Abdelbasset Ghanmi, diretor-geral da Fipa, a agência de promoção do investimento na Tunísia.

Nas trocas comerciais com Portugal neste sector, Mohsen Missauoiui, do centro tecnológico Cettex, mostrou que a Tunísia exportou sobretudo vestuário para Portugal, nomeadamente jeans e t-shirts, que, em conjunto, representam 80% das exportações de vestuário para o nosso país. Em sentido inverso, Portugal exportou para a Tunísia um total de 36,16 milhões de euros, essencialmente têxteis (90,58%).

Estes números fazem com que Portugal seja o 11.º cliente e o 9.º fornecedor da ITV tunisina, de acordo com Olfa Kouki, da Cepex, a agência de promoção das exportações da Tunísia, que, salientando as semelhanças entre os dois países, nomeadamente ao nível da dimensão, deixou algumas recomendações para o aprofundar de parcerias, incluindo a multiplicação de missões empresariais e o desenvolvimento de operações conjuntas em países terceiros, como a Argélia e outros países da África subsariana, assim como em países lusófonos em África e na América Latina.

Ao nível da ITV, Ibrahim Medini, da Fipa, enumerou como pontos fortes da indústria têxtil e vestuário tunisina «uma experiência muito rica, que vem dos anos 70» e know-how e capacitação da mão de obra.

«Há um enorme potencial para desenvolver as relações entre Portugal e a Tunísia», acredita Donia Hedda Ellouze, presidente da câmara de comércio e indústria luso-tunisina, que salientou que «este pequeno país pode ser um trampolim para mercados em África e no Médio Oriente».

«Instamos ao contacto entre todos. Há muitas oportunidades em mão. A cooperação é muito promissora na ITV», reforçou o embaixador da Tunísia em Portugal, Mounir Ben Rjiba. «Há um terreno favorável para o investimento e cooperação», resumiu, acrescentando, em relação aos entraves existentes, que «em conjunto vamos trabalhar para resolver estes problemas».