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Tunísia no limbo

As marcas esperam que a Tunísia recupere a estabilidade económica, depois do chefe de Estado, Kais Saied, ter demitido o primeiro-ministro, Hichem Mechichi, e ter suspendido o parlamento no último ataque de agitação política para o país do norte de África. No entanto, todas as mudanças levam a uma palavra: incerteza.

[©International Trade Centre]

O choque de outro colapso político e económico prepara-se para atingir a Tunísia 10 anos depois da Revolução de Jasmim, em 2011, quando o país quebrou o regime autoritário do presidente Ben Ali e, na atualidade, enquanto os partidos de oposição consideram a decisão do presidente recém-chegado um «golpe», Kais Saied teve o apoio da capital com pessoas a aplaudirem nas ruas e direito a fogo de artifício, um cenário que pinta a esperança de uma realidade melhor para o país.

«Tomámos estas decisões até que a paz social regresse à Tunísia e até salvarmos o Estado», explica Kais Saied num discurso televisivo em que clarificou a intenção de nomear um novo primeiro-ministro.

Com a inflação em alta e a elevada taxa de desemprego, fundamentadas pelo covid-19, que causou um dos maiores índices de mortalidade per capita no país de 12 milhões de habitantes, as condições de negócio tornaram-se tensas.

Após a demissão do primeiro-ministro Hichem Mechichim, que liderava as negociações do empréstimo do FMI, «a Tunísia aproxima-se novamente de um abismo fiscal», afirma Hamish Kinnear, analista da empresa Verisk Maplecroft, ao Sourcing Journal. «Com a demissão de Mechichim as negociações vão ter ainda mais atrasos», garante.

Sgundo o analista, a resposta do Governo perante a crise pandémica gerou um grande descontentamento entre a população, o que levou, posteriormente, à tomada de posse de Kais Saied, que pretende consertar «as escolhas económicas erradas que causaram grandes problemas financeiros ao país».

País privilegiado

A Tunísia é, atualmente, um fornecedor de vestuário importante para a União Europeia, já que, com a pandemia, as retalhistas da UE privilegiaram o sourcing de proximidade, enquanto o vírus prejudicava as cadeias de aprovisionamento na Índia, Bangladesh e Sri Lanka. Pelo contrário, Itália aproveitou a proximidade de ficar apenas a uma hora de avião da Tunísia.

[©GroupeWicMic]
A indústria têxtil e vestuário tunisina emprega mais de 200 mil trabalhadores e dos 2.094 produtores que empregam 10 ou mais pessoas, 1.656 fabricam exclusivamente para o mercado de exportação e estão concentrados em Tunes e nas regiões costeiras de Monastir, Nabeul, Bizert, Sousse e Sfax. Segundo a Statista, como o segundo maior contribuidor para o PIB do país, a indústria têxtil, vestuário e couro gerou 2,9 mil milhões de dólares (2,44 mil milhões de euros). Além disso, mais de 200 marcas recorrem aos serviços tunisianos, como, por exemplo, a Diesel e a Kings of Indigo.

«Sei que muitas marcas premium de Itália decidiram fabricar na Tunísia porque sabiam que é muito forte em termos de qualidade, estética e competência na produção. Algumas empresas constroem uma empresa irmã na Tunísia ou encontram parceiros qualificados imediatamente disponíveis. É um dos principais centros de produção da Europa», explica Luca Braschi, responsável criativo e especialista em processos sustentáveis para a indústria da moda em Florença, Itália. Apesar da Tunísia ter sido motivo de escolha, todas as mudanças que estão a acontecer no país são agora motivo de preocupação para o sector. «A mudança na situação política não está a ajudar muito e pode impedir que algumas marcas produzam mais lá», considera Braschi.

Constrangimentos

Em concordância com as afirmações de Hamish Kinnear, a infraestrutura logística da Tunísia, incluindo portos e aeroportos, continua operacional, porém, Sara Alkawari, analista de inteligência de risco da Everstream Analytics, uma empresa de análise de risco de cadeias de aprovisionamento, revelou que o aeroporto internacional Tunis-Carthage encerrou durantes dois dias. «Nos últimos meses, o congestionamento dos portos da Tunísia atrasou os navios em média 25 dias, então as companhias marítimas pararam de aceitar reservas nas últimas semanas», esclarece.

O impacto do covid-19 no país fez com que mais de 50 fábricas fechassem portas no ano passado, deixando mais de cinco mil trabalhadores da indústria têxtil e vestuário sem emprego, apontam os dados da Federação da Tunísia para o Têxtil e Vestuário.

Mesmo com todos os constrangimentos, as alterações políticas fizeram renascer a esperança de restaurar a democracia na Tunísia, que iria impulsionar os negócios.

Hamish Kinnear admite que a agitação laboral será «provavelmente uma preocupação» no próximo ano, assim como a possibilidade da dívida fazer com o Governo pare de pagar salários, o que levará a protestos liderados pelos sindicatos.

[©International Trade Centre]