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Tunísia reposiciona-se para substituir Ásia

A indústria de vestuário da Tunísia está a avaliar o impacto do Covid-19 e a explorar uma estratégia de produção de proximidade no pós-Covid. O estudo faz parte de um plano de recuperação que deverá contemplar o posicionamento do país como centro de sourcing, passível de ocupar o lugar de países do sudeste asiático.

[©International Trade Centre]

A FTTH – Féderation Tunisienne du Textile et de l’Habillement está a realizar um estudo sobre o impacto do novo coronavírus no seu centro de outsourcing, cujas conclusões deverão incluir opções políticas para permitir a recuperação das empresas.

A federação vai trabalhar com secção para a região do Médio Oriente e Norte de África do Global Textiles and Clothing Programme (GTEX/MENATEX) durante dois meses, para criar um plano pós-pandémico.

Nacer Bouyahia, o coordenador nacional do GTEX/MENATEX Tunisia, que faz parte do International Trade Centre das Nações Unidas, acredita que o estudo pode «analisar o sector para ver – com metodologias científicas e uma abordagem estatística – o impacto real desta pandemia na indústria têxtil e vestuário da Tunísia, a nível nacional e internacional».

Ao just-style.com, Bouyahia refere que as conclusões vão incluir um plano de recuperação que vai ajudar a FTTH e o Ministério da Indústria e do Comércio «a repensar o posicionamento da Tunísia na região Euromed» como centro de sourcing e «estabelecer uma estratégia de custo prazo». Isso pode incluir promover a Tunísia como uma alternativa, a curto prazo, à China e ao sudeste asiático.

Retoma lenta

Haithem Bouagilia, membro do conselho executivo da FTTH e diretor-geral da especialista em vestuário em malha Tunicotex Group, prevê um afastamento do aprovisionamento na Ásia no pós-Covid «para se focar nos produtores sediados na região Euromed».

[©FTTH]
Bouagilia confessa, no entanto, estar preocupado com a falta de «visibilidade» da Tunísia enquanto opção de sourcing, numa altura em que os mercados de moda começam a recuperar com o fim generalizado do confinamento.

«Alguns clientes da Alemanha e da Polónia começaram a fazer novamente encomendas. Contudo, os clientes em França e Itália, a base tradicional da Tunísia, não estão a regressar com encomendas a um nível que permita aos produtores de vestuário da Tunísia funcionar normalmente», adianta ao just-style.com.

O executivo da FTTH considera que os fornecedores tunisinos têm de perceber que, neste momento, «o modelo de negócio antigo [do retalho de moda] está estragado» e que as casas de moda estão atualmente a ter dificuldade para financiar as coleções.

Moda e lingerie mais atingidas

Nafaa Ennaifer, diretor-geral da produtora de vestuário TFCE, sediada em Túnis, aponta que «os segmentos mais atingidos» na Tunísia com o confinamento foram a moda, o swimwear, a lingerie e o sportswear.

As fábricas especializadas em vestuário de trabalho foram capazes de fazer a transição para produzir equipamentos de proteção individual (EPI), sobretudo máscaras descartáveis, embora mesmo aí «haja um problema no sourcing de matérias-primas para EPI a partir da Europa».

Além disso, os produtores especializados, como os dedicados ao denim – uma categoria importante para a Tunísia –, têm sido afetados pela queda, indica Ennaifer.

Pela positiva, as medidas rápidas tomadas pela Tunísia para minimizar os efeitos do Covid-19, tendo imposto o confinamento a 21 de março, incluindo com recolher obrigatório à noite, fez com que o país tenha o número mais baixo de casos registados e mortes no Norte de África (com exceção da Líbia, onde, porém, os números não são considerados fiáveis).

Antes da pandemia, os líderes da indústria antecipavam um forte crescimento no sector do vestuário. O otimismo evaporou-se e Nacer Bouyahia lamenta que o Governo não tenha acolhido o conselho do estudo de 2018 do GTEX/MENATEX e da FTTH, que recomendava projetos que encorajassem a integração vertical na indústria.

Isso poderia ter ajudado a Tunísia a aproveitar a vantagem de um futuro regresso à produção de proximidade, mas «infelizmente este plano não avançou devido à falta de disponibilidade de fundos de investimento», revela o coordenador nacional do GTEX/MENATEX Tunisia.

A indústria tunisina tinha já alertado, no início da pandemia, para um enorme prejuízo comercial e humanitário devido ao cancelamento de encomendas e interrupções na produção resultante da crise do novo coronavírus.