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Turquia em maus lençóis

O cancelamento de encomendas e o alargamento do prazo para os pagamentos por parte das marcas e retalhistas mundiais estão a colocar uma enorme pressão sobre a indústria de vestuário turca, que tem de lidar ainda com os desafios de uma economia que enfrenta a segunda recessão em menos de dois anos.

O presidente da Associação de Produtores de Vestuário da Turquia (TGSD – Türkiye Giyim Sanayicileri Dernegi) afirma que o cancelamento de encomendas atuais e futuras, alargamento das condições de pagamento e exigência de descontos por parte de marcas e retalhistas internacionais estão a devastar a indústria de vestuário turca, com 80% das fábricas a pararem a produção e a ficarem com o equivalente a cerca de 3 mil milhões de dólares (cerca de 2,76 mil milhões de euros) de inventário dentro de portas.

«Infelizmente fomos apanhados no início da estação, e, por isso, com um grande inventário, que são os produtos delas, com as suas etiquetas, e os tecidos e acessórios que tinham sido indicados», explica Hadi Karasu, presidente da TGSD, ao just-style.com.

«Mas a maior parte delas dizem para pararmos a produção, irmos para casa e depois dizem-nos o que vai acontecer. Ainda não nos informaram, desde o início de março até ao final de abril, sobre a sua decisão em relação ao inventário», acrescenta.

Apenas duas grandes retalhistas continuam a comprar: a sueca H&M – Karasu afirma que as grandes produtoras confirmaram que a retalhista sueca vai continuar a pagar as peças de vestuário quando produzidas – e a espanhola Inditex.

Outra queixa tem a ver com a imposição de prazos alargados de pagamento, que vão de 30 a 90 dias e até 180 dias em alguns casos. «Para além dos adiamentos, alguns compradores europeus inesperadamente enviaram-nos cartas a afirmarem que querem descontos para os ajudar, de 5% até mesmo 50% nas faturas a receber, que deviam ser pagas em breve. Ficámos chocados», revela o presidente da TGSD.

«Deixaram os produtores no meio, o que é surpreendente. As marcas têm mark-ups até quatro a cinco, às vezes até 10 vezes [numa peça de vestuário], enquanto os produtores têm uma margem de um dígito», afirma.

Encomendas canceladas

As encomendas futuras também foram canceladas. «Não sabemos o que vai acontecer quando voltarmos ao trabalho, digamos, no final de maio. Seríamos capazes de acabar os produtos semiprocessados, que estão atualmente na linha de produção, mas os compradores disseram-nos que não têm lugar para essas peças. Eles dizem-nos para oferecermos um desconto de 50% e talvez fiquem interessados em comprar. Esta é a situação atual», indica Hadi Karasu.

Hadi Karasu

Os compradores estão a informar os produtores que os contratos estabelecem que as encomendas podem ser canceladas a qualquer momento, acrescenta, embora essa abordagem seja irresponsável, considera. «Se estas marcas não começarem a pagar aos produtores, não vão poder usar a palavra sustentável, já que a responsabilidade número 1 é manter toda a cadeia de aprovisionamento», salienta. «A minha principal mensagem para as marcas que cancelaram é que não têm o direito a fazê-lo. Têm de tomar conta destes artigos, já que têm o nome deles e são eles os proprietários», garante.

A TGSD fez uma comunicação na newsletter de abril da ITMF (International Textile Manufacturers Federation) a pedir às marcas mundiais para agirem em união com os seus parceiros de produção, após «centenas de mensagens» enviadas para o gabinete de apoio no âmbito do novo coronavírus da TGSD sobre «ações alarmantes das marcas e retalhistas globais».

Entretanto, as marcas têm de decidir o que os produtores devem fazer com as peças de vestuário completamente produzidas, refere Karasu. «Vão dar permissão aos produtores para venderem estes produtos com as suas etiquetas e marcas, já que isso não é permitido de acordo com os contratos? Têm de decidir se assumem a propriedade das suas marcas e produtos ou não», resume.

A TGSD propôs o desenvolvimento de um roadmap conjunto entre compradores e produtores. «Se os compradores continuarem [o seu atual comportamento], podem prejudicar de forma irremediável a sua cadeia de aprovisionamento, o que é perigoso. Penso que a situação se vai resolver, mas a minha preocupação é que se o fizerem de forma lenta e esperarem uma espécie de seleção natural com a sobrevivência do mais adaptado entre os produtores, não vai funcionar», admite Hadi Karasu.

Economia em perigo

Não é apenas a indústria têxtil e vestuário turca que está a enfrentar dificuldades, com os problemas a disseminarem-se por toda a economia do país.

De acordo com a Reuters, economia turca está a enfrentar riscos crescentes, à medida que entra numa recessão com reservas em declínio e uma lira fragilizada, numa altura em que os dados mostram que as fábricas estão a parar devido ao surto de Covid-19.

Mustafa Varank

A Turquia enfrenta a combinação de elevada dívida externa, que soma cerca de 170 mil milhões de dólares este ano, incapacidade até agora de assegurar financiamento externo e o aumento do custo de segurar a economia numa altura de pandemia. As reservas do banco central diminuíram em grande parte devido às intervenções dos bancos estatais no mercado para estabilizar a lira, que começaram há cerca de um ano mas aceleraram nos últimos meses. A lira caiu 14% de janeiro até meados de abril de 2020.

David Hauner, do Bank of America Merrill Lynch, escreveu numa nota que a Turquia tem a capacidade fiscal de gastar mais para absorver os choques na economia. Mas «continua vulnerável à volatilidade do mercado e a um dólar mais forte, em particular com necessidades elevadas de financiamento externo. A falta de clareza política trava mais o perfil de crédito», assume, citado pela Reuters.

A confiança nos negócios por parte dos produtores turcos caiu para 66,8 pontos em abril em comparação com 99,7 em março, segundo os dados do banco central. A maioria das fábricas de automóveis e têxteis pararam a produção em parte devido ao cancelamento de encomendas da Europa, de acordo com o Ministro da Indústria, Mustafa Varank.

A confiança do comércio e do consumidor – que atingiu um novo recorde em baixa – também caiu desde que as medidas tomadas para travar a disseminação do vírus empurraram a economia da Turquia para a segunda recessão em menos de dois anos.