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Turquia protege os têxteis

A dezoito meses das eleições legislativas, o Governo turco decidiu baixar o IVA sobre o pronto-a-vestir, os produtos têxteis e de couro, e sugeriu que podia fazer o mesmo noutros sectores. De acordo com o noticiado pelo Expresso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) já reagiu, enquanto os analistas económicos temem uma escalada de medidas populistas que ameacem a estabilidade económica do país. «Somos o oitavo maior produtor mundial de pronto-a-vestir, o terceiro maior exportador de têxteis do mundo e o sexto maior produtor mundial de algodão. Este sector tem uma importância enorme para a Turquia», justificou o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, quando anunciou o corte de 10% para 8% no IVA para os referidos produtos. «Estão em causa milhares de empregos», disse. Com efeito, a crise no sector têxtil turco é óbvia: exportações em queda (em 2005 ainda totalizaram 11,6 milhões de euros, cerca de 20% do total exportado) e uma quebra acentuada na produção (12% no ano passado, em contraste com um crescimento global da produção industrial de 5%). As causas são sobejamente conhecidas: a invasão do vasto mercado interno turco (70 milhões de habitantes) por têxteis e vestuário «made in China», depois da abolição das quotas globais para têxteis no fim de 2004, mas também uma lira turca forte e custos crescentes de energia. Em meados de Abril, uma das mais antigas fábricas têxteis da Turquia, estabelecida nos longínquos anos 40 do século passado, foi comprada por uma empresa indiana, que está agora a transportar toda a maquinaria para a Índia a fim de continuar por lá a produção. A fábrica empregava 200 pessoas e exportava anualmente mercadorias no valor de 4,1 milhões de euros. O seu ex-proprietário, Orhan Abalioglu, um pioneiro do sector, foi corrosivo: «Não há futuro para os têxteis no nosso país. Não conseguimos competir no mercado globalizado, as condições na China e na Índia são muito diferentes. Vendi antes que a situação piore». A maior parte dos analistas considera que a diminuição do IVA não terá grande impacto. Os industriais do sector concordam. «Não corresponde a todas as nossas expectativas: não resolve a questão dos encargos sociais da mão-de-obra e dos custos da energia», disse o director da União de Exportadores de Pronto-a-Vestir de Istambul, Suleyman Orakcioglu. «E para os que exportam toda a produção, este corte no IVA não vem trazer nada». Depois desta inesperada decisão, outros sectores, à cabeça dos quais estava o Turismo, exigiram o mesmo tratamento. Talvez com as eleições em vista, o Executivo foi lesto a reagir: «Estamos do vosso lado», respondeu o ministro das Finanças, Kemal Unakitan. «Poderá haver benefícios fiscais semelhantes para outros sectores industriais». A reacção do FMI foi imediata. «O Governo turco deverá continuar a implementar uma rígida disciplina fiscal, sob pena de perder toda a credibilidade macroeconómica que ganhou nos últimos anos», avisou o seu director, Rodrigo Rato. Segundo alguns analistas, só a redução do IVA sobre produtos têxteis e pronto-a-vestir vai custar ao erário público cerca de 635 milhões de euros/ano. Recorde-se que o Governo turco está neste momento a implementar a segunda fase de um programa de reestruturação económica acordado com o FMI, que salvou o país da bancarrota depois da grave crise económica de 2001, o qual beneficia de um empréstimo total de 23 mil milhões de euros.