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UE traça roadmap para a indústria têxtil

A Comissão Europeia publicou uma proposta de roadmap para a estratégia têxtil numa tentativa de reforçar o sector, numa altura em que enfrenta a crise provocada pelo coronavírus, mas também criar condições para uma indústria mais sustentável e circular.

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A iniciativa tem como objetivo estabelecer um quadro abrangente para criar condições e incentivos para aumentar a competitividade, sustentabilidade e resiliência do sector têxtil da União Europeia, tendo em conta as suas forças e vulnerabilidades, depois de um longo período de reestruturação e deslocalização, e responder ao seu impacto ambiental e social. Pretende ainda assegurar a coerência e complementaridade com iniciativas relacionadas como o European Green Deal, o Circular Economy Action Plan, o Industrial Strategy e Chemicals Strategy for Sustainability.

«A iniciativa vai facilitar e encorajar a utilização ótima do plano de recuperação e de investimentos sustentáveis, em particular nos processos de produção, design, novos materiais, novos modelos de negócio, infraestruturas e capacidade. Apoiar tecnologias, incluindo através da digitalização, relacionadas com têxteis inovadores, responder à libertação de microplásticos, produção e processos de reciclagem vai contribuir para a transição digital e verde», enumera o documento.

Apesar da sustentabilidade ser cada vez mais uma preocupação, os europeus consomem, em média, 26 quilos de têxteis por pessoa por ano, destaca o roadmap, que salienta que cada artigo é usado por um período mais curto, resultando em 11 quilos de têxteis que são deitados fora, por europeu, todos os anos.

Além disso, refere a Comissão Europeia, o consumo de têxteis é a quarta categoria que mais usa matérias-primas e água na UE, a seguir à alimentação, habitação e transportes.

«A falta de ação da UE pode minar a proteção ambiental eficiente na UE, assim como a possibilidade de criar um mercado nivelado para os negócios têxteis dentro e fora da UE. O funcionamento adequado do mercado interno também estaria em risco», aponta a Comissão Europeia.

Para impulsionar o mercado europeu de têxteis circulares e sustentáveis, a iniciativa pode considerar criar objetivos para acelerar os esforços de reutilização e reciclagem, incluindo propostas para tornar o ecossistema adequado para a economia circular, dando resposta a debilidades relacionadas com a produção sustentável, a presença de substâncias preocupantes e a recolha de resíduos têxteis nos Estados-Membros.

Feedback com ressalvas

Esta proposta de roadmap esteve a receber feedbacks até ao passado dia 2 de fevereiro, com diferentes empresas, como a Lenzing ou a H&M, mas também organizações não-governamentais, universidades e associações empresariais a darem os seus inputs.

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De Portugal, a ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal sublinha que «as empresas que representamos sentem que na UE há dois pesos e duas medidas: o que é produzido na Europa deve cumprir todos os requisitos sociais e ambientais, mesmo que isso implique elevados custos de ajustamento, no entanto, o que é importado não obedece aos mesmos critérios e mesmo quando obrigatoriamente tem de obedecer, como ninguém controla ou fiscaliza o mercado, os produtos vendidos atestam cumprir determinados critérios, nalguns casos, até de segurança, mas na verdade não cumprem». A ATP indica ainda que «a estratégia deve proporcionar crescimento e emprego à Europa, uma transformação sustentável desta cadeia de valor fundamental e garantir condições equitativas a nível mundial» e que, além de ter em conta diversos fatores e outras indústrias relacionadas, é «importante a realização de avaliações de impacto cuidadosas e realistas para qualquer nova proposta e deve ser reservado apoio para investimentos estratégicos (emblemáticos) que fomentem uma indústria inovadora e sustentável com visão de futuro e empregos de alta qualidade na Europa».

Já a associação ambientalista ZERO sugere uma estratégia «mais ambiciosa para impulsionar uma mudança para a circularidade e desencorajar o sector têxtil europeu a manter uma economia linear». No seu feedback, a ZERO solicita ainda, entre outros, a inclusão de uma redução da produção e consumo de têxteis, foco na remoção de produtos ineficientes, tóxicos e poluentes do mercado da UE, prioridade ao design para a durabilidade e reutilização, inclusão da libertação de microplásticos nas exigências relativas aos produtos vendidos na UE, assim como assegurar que os produtores são responsáveis pela performance ambiental dos seus produtos ao longo de toda a cadeia produtiva.

O roadmap ficará em consulta pública neste primeiro trimestre do ano, com a adoção pela Comissão Europeia planeada para o terceiro trimestre de 2021.