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Um futuro para a moda nacional

Para quem tem acompanhado de perto a moda nacional de autor, as últimas décadas foram de desenvolvimento, com muitos jovens designers a ganhar visibilidade, mas há ainda um caminho a percorrer na promoção da imagem, e das vendas, dos criadores lusos.

Luís Pereira e Isabel Branco

Eventos como o Portugal Fashion – que em março celebrou 50 edições – têm procurado dar mais visibilidade aos protagonistas da moda nacional, tanto dentro como fora das fronteiras, com um conjunto de profissionais que têm acompanhado a evolução dos designers e da indústria de moda lusa no geral.

É o caso de Isabel Branco, produtora do Portugal Fashion, que considera que o certame «está cada vez com melhores designers, com melhores coleções, com um grupo novo de jovens criadores que estão a evoluir» e que fazem com que «cada edição seja a melhor».

Isto apesar de «ser muito mais difícil do que quando começámos. Embora a imagem não fosse tão boa, para os designers, a vida hoje em dia é muito mais difícil», admite Isabel Branco, que reconhece que é importante olhar para Portugal para depois dar passos maiores. «A internacionalização é algo muito difícil. É um sonho que qualquer designer tem, mas muito difícil de concretizar. Acho que é preciso os designers perceberem que têm que estar na terra deles, um bocadinho voltar às origens. De vez em quando esquecemo-nos de Portugal», assegura ao Jornal Têxtil. Será, contudo, fundamental educar os consumidores. «A moda e os designers evoluíram mais do que os consumidores, que estão cristalizados no tempo. Não procuram moda portuguesa», constata a produtora de moda, que confessa ter uma «admiração enorme» pelos designers.

Paulo Cravo

Para Paulo Cravo, coordenador do Bloom, dedicado aos jovens talentos – incluindo mesmo desfiles com finalistas de escolas com formação em design de moda – «é importante que haja este tipo de plataforma, tanto o Bloom como outras, como o Sangue Novo [na ModaLisboa], que dá oportunidade aos jovens designers que estão a iniciar um percurso. É fundamental para eles conseguirem, gradualmente, perceber como podem evoluir como marca, independentemente do conceito». Ao mesmo tempo, «tornam as marcas portuguesas cada vez mais interessantes e permite que o público as conheça».

Ainda assim, sublinha Paulo Cravo, «muitas vezes, as marcas portuguesas não têm um feedback maior a nível de venda e estrutura comercial porque os portugueses não valorizam assim tanto o que é feito em Portugal – ainda há pouco o culto de o público comprar moda portuguesa». Esse é igualmente um dos papéis do Bloom, procurar acompanhar estes jovens «numa tentativa de iniciar um processo comercial para que consigam, aos poucos, crescer e aguentar-se. Porque sem isso, infelizmente, vão chegar a um ponto em que não têm pernas para andar», assevera.

Digital é fundamental

Já para Luís Pereira, o digital tem um papel importante a garantir este futuro para os designers e para a moda nacional. «Houve muita evolução na parte criativa, mas não houve evolução em termos de posicionamento de marca», afirma o produtor de moda, acrescentando que «cada vez mais tem de se trabalhar para o online», com as redes sociais a permitirem chegar a novos mercados. «Com as redes sociais, estão abertos ao mundo, é global, e eles têm cada vez mais de puxar por aí. A qualidade é muito importante – Portugal tem, e as pessoas sabem que tem, boa confeção, mas os designers têm de mostrar isso, que têm bons materiais», exemplifica.

Para ir lá para fora, segundo Luís Pereira, «há um trabalho que tem de ser feito com os designers e com as marcas, para perceber se têm capacidade. Lógico que é ótimo internacionalizar, mas têm de ter capacidade para a entrega. Se não têm, é dinheiro que é gasto e fica uma imagem péssima».

Mónica Neto

Em suma, resume o produtor de moda, «temos de ser competitivos em design e em qualidade – isso é muito importante. E temos de fazer bem a parte das redes sociais. A comunicação tem de ser cada vez mais digital».

Áreas onde o Portugal Fashion tem procurado intervir. «Um dos fatores diferenciadores [do evento] é a nossa capacidade de resistência a uma série de questões que têm dificultado o trabalho de promoção da moda portuguesa, mas, acima de tudo, dentro dessa resistência, sente-se uma evolução e é uma evolução com reconhecimento, porque temos tido, de alguma forma, a ousadia e até, se calhar, a coragem de fazer algumas mudanças que podem parecer impercetíveis e relativamente silenciosas, mas que têm tido algum impacto. Uma delas é o showroom», destaca Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion. Além disso, o próprio certame organizou «desde reuniões a sessões de networking, até a alguma dinâmica quase de mentoria em relação à forma como se deve apresentar uma marca e receber os compradores», aponta.

A somar às ações de internacionalização em diversos mercados, o objetivo é que «a nível global, mas sobretudo a nível europeu, o Porto e o Portugal Fashion possam, de alguma forma, ser um hub diferenciado», revela Mónica Neto, que acredita que «podemos ter um lugar diferenciado e ter os nossos casos de sucesso».