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Um guarda-roupa “de ferro”

Admirada por uns, odiada por outros – houve quem festejasse a sua morte, sobretudo os irlandeses –, Margaret Thatcher gerou poucos consensos e foi descrita como tendo «os lábios de Marilyn Monroe e os olhos de Calígula». Eram as mulheres de calças que habitualmente causavam um misto de admiração e medo, como expressou o ex-Presidente socialista francês François Miterrand em 1984 – durante uma discussão em relação ao orçamento da então Comunidade Económica Europeia. No entanto, Margaret Thatcher, que faleceu no passado dia 8 de abril e será enterrada na próxima quarta-feira, conseguiu inspirar o medo apesar de nunca ter usado fato com calças – aquele que anos mais tarde se tornaria o uniforme das mulheres no poder, desde Hillary Clinton a Angela Merkel, a chanceler alemã. A ex-Primeira-Ministra britânica usava fatos de saia e casaco, com ombreiras. O estilo austero era apenas suavizado com laços, enquanto as pérolas combinavam com o cabelo emproado da Dama de Ferro. E uma pregadeira decorava a lapela esquerda (não a direita, como usada por Meryl Streep quando encarnou Thatcher no filme de 2011). Enquanto primeira mulher líder política no ocidente – Maria de Lourdes Pintassilgo, a única mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra em Portugal chegou ao poder dois meses depois da britânica e esteve apenas seis meses em funções –, Thatcher viu o seu visual mais escrutinado do que qualquer outro político antes dela. E as suas escolhas expressaram precisamente o ponto em que estava o feminismo nos anos 80. Se as roupas pudessem falar, revelariam muito sobre um encontro no n.º 10 de Downing Street, a morada oficial do Primeiro-Ministro britânico, com as suas cortinas em veludo e mobiliário polido. Num encontro de moda em 1984, Thatcher, no seu fato de saia, adornado por um laço às pintas, enfrentou a designer Katharine Hamnett, que veio vestida num estilo punk, com sapatilhas volumosas e uma t-shirt com uma declaração política sobre mísseis nucleares estampada. Margaret Thatcher, com o seu estilo próprio e pouco dada a piadas, poderia ter ignorado os comentários sobre como se vestia, sobretudo os que faziam troça dos laços e da omnipresente bolsa. Porém, uma vez comentou com a reputada jornalista de moda Suzy Menkes que ser eleita para a Lista Internacional dos Mais Bem Vestidos em 1988 – enquanto modelo com influência da «elegância clássica» – foi «um dos melhores momentos da minha vida». Thatcher expressou na sua figura pública exatamente como estavam as mulheres trabalhadoras nos anos 80: em sapatos de salto baixo e em fatos clássicos que eram uma carapaça de proteção num mundo que era ainda muito masculino. A Primeira-Ministra, que esteve no poder de 1979 a 1990, teve uma abordagem que se adequava ao seu passado, enquanto filha de um merceeiro de uma cidade industrial. Fazia as suas escolhas a partir de uma seleção que lhe era enviada pela retalhista britânica Marks & Spencer e pela marca Aquascutum, que considerava uma insígnia com uma forte história. Atribuiu à Aquascutum o crédito pelo seu prémio de mais bem vestida, graças a um guarda-roupa construído em torno de um casaco camel com uma gola em marta para a sua visita a Mikhail Gorbachev em Moscovo em 1987, onde triunfou sobre o guarda-roupa exagerado da Primeira-Dama russa, Raisa. Será que Thatcher se vestiria de forma diferente e menos austera se fosse líder no século XXI? Afinal, era positivamente feminina ao estilo dos anos 50, mostrando o seu lado mais aprazível, quando usava vestidos florais para estar com o Presidente americano Ronald Reagan e o seu estilo para a noite era desenhado por Tomasz Starzewski, um costureiro polaco-britânico que saltou para a ribalta por ter vestido a Princesa Diana. Mas num mundo dos anos 80 onde os homens ainda dominavam, as suas roupas eram ao mesmo tempo um escudo e uma afirmação do poder feminino. Ou, como ela própria referiu, «por favor não usem a palavra “dura”. As pessoas podem ficar com a impressão de que não me importo. E eu importo-me. Profundamente».