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Um mau agoiro para 2009

Os dados sobre as importações de vestuário dos EUA foram recentemente publicados, apresentando o panorama completo de 2008, onde é evidente um declínio em unidades e valor. Mas o que realmente significam estes números e o que vaticinam para o futuro? David Birnbaum, autor do The Birnbaum Report, uma newsletter mensal para a indústria do vestuário, analisa a questão. As importações de vestuário dos EUA diminuíram 2,7% em volume (metro quadrado equivalente) e 3,2% em valor em 2008. Isto é ligeiramente melhor do que os dados registados até Novembro, onde foram evidenciadas quebras de 2,9% e 3,3%, respectivamente. A questão é o que -2,7% e -3,2% representam e o que vaticinam em relação ao futuro? E serão estes valores realmente tão terríveis? Para compreender os dados, é necessário colocá-los em perspectiva histórica. Por exemplo, a evolução de -2,7% e -3,2% em 2008 foram os piores resultados em 20 anos e, mesmo em 2001, um ano de má memória, as importações dos EUA em volume conseguiram crescer (embora uma percentagem reduzida de 0,4%) e o valor das importações diminuiu apenas 1,3%. Esta comparação evidencia que a crise actual é muito pior do que a anterior. Mas isto já se sabia e, provavelmente, esta evolução já foi considerada no planeamento futuro e se -2,7% e -3,2% são o pior que vai acontecer, então, talvez as coisas não estejam tão más como se tinha pensado. No entanto, e se considerarmos que as importações de vestuário dos EUA atingiram o seu pico em valor no ano de 1997 e mantiveram a tendência descendente desde então? Isso significaria que grande parte do declínio de 2,7% e 3,2% não tinha nada a ver com a desaceleração da economia e ocorreria de forma inevitável. E isso significaria que, em 31 de Dezembro de 2008, as importações de vestuário ainda não tinham tido em consideração a actual procura decrescente de vestuário. Eis o significado dos dados de Dezembro, segundo Birnbaum. Ao longo da década passada, os consumidores perderam a vontade compulsiva de comprar uma t-shirt extra ou mais um par de jeans. Agora que os seus rendimentos diminuíram, têm de escolher quais os produtos que já não podem pagar. A resposta é óbvia: o vestuário. Os consumidores tinham já perdido interesse, mesmo antes da recessão atingir as suas carteiras. Agora, quando têm menos para gastar, o vestuário é o primeiro a cair. é incrivelmente fácil desistir de algo que, à partida, realmente já não se queria. Os dados preliminares sobre as importações de vestuário de Janeiro de 2009 deixam antever o que esperar para o ano em curso. Das 20 categorias mais importantes de produtos de vestuário, representando 75% de todas as importações de vestuário, 19 mostram declínios e 5 apresentam uma diminuição superior a 10%. Perante estes dados e a perspectiva histórica, é de prever que as importações em 2009 vão efectivamente cair muito acentuadamente, atingindo possivelmente quebras na ordem dos dois dígitos na segunda metade do ano, de acordo com o autor do Birnbaum Report. Mas este sofrimento não vai ser partilhado de forma equitativa. Enquanto a maioria vai sentir sérias dificuldades, alguns, como a Zara, H&M, Topshop, Primark e American Apparel, vão continuar a crescer. O mesmo acontece do lado dos fornecedores: muitos vão sofrer e alguns (poucos) vão sair-se muito bem. Os primeiros resultados trazem boas notícias para a China, Vietname, Indonésia, Bangladesh, índia, Paquistão e, possivelmente, Haiti e, mais surpreendente, para o Sri Lanka. Entre os prejudicados encontram-se o México, Filipinas, Jordânia, áfrica Sub-Sahariana e, infelizmente, antigos vencedores como DR-CAFTA e Camboja. Independentemente do que 2009 trouxer, uma situação é clara. As coisas vão mudar. Para a maioria, estas alterações vão trazer dificuldades e possivelmente o fracasso. Mas, para alguns, 2009 será um ano de prosperidade.