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Uma seta têxtil na África Oriental

Um novo acordo de comércio livre e a esperada transferência da confeção da Ásia para o continente africano estão a alimentar as expectativas de crescimento da indústria têxtil e vestuário da África Oriental. Há, contudo, quem tenha dúvidas da capacidade da região de aproveitar estas oportunidades.

Indochine Apparel PLC (Etiópia)

Os governos africanos estão particularmente orgulhosos do acordo relativo à área de comércio livre da África Continental (ACLAO), que oficialmente entrou em vigor a 30 de maio de 2019. Com 54 dos 55 estados-membros da União Africana a assinarem o acordo (a Eritreia é a única omissão), a iniciativa criou o maior bloco comercial desde a formação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995.

O tratado foi pensado para remover as barreiras comerciais – e impulsionar o comércio – entre as nações africanas com uma população combinada de mais de 1,3 mil milhões de pessoas e um produto interno bruto (PIB) superior a 3,4 biliões de dólares (cerca de 3,07 biliões de euros), ao mesmo tempo que poderá facilitar a expansão das operações de empresas africanas e estrangeiras no continente.

Entre os 54 signatários estão países produtores de vestuário como o Quénia, Marrocos, Madagáscar, Maurícias, Egito, Etiópia, África do Sul, Lesoto e Tunísia.

Depois de implementado, o acordo de comércio livre vai exigir que os países eliminem as taxas em 90% dos bens transacionados entre eles, incluindo vestuário, num prazo de cinco anos. Foi concedida uma dispensa especial para sete países menos desenvolvidos, incluindo a Etiópia e Madagáscar, dando-lhes um período de 15 anos para atingir 90% das taxas.

Uma cadeia desde o algodão

De acordo com alguns intervenientes na recente edição da feira Origin Africa, em Dar es Salaam, na Tanzânia, o ACLAO irá impulsionar a cooperação regional entre os produtores e processadores de algodão.

Mas, sublinha um artigo do just-style.com, ninguém explicou de forma convincente como esta cooperação irá levar a uma redução das exportações de algodão em cru e aumentar o valor acrescentado na cadeia de aprovisionamento de algodão.

Origin Africa

Uma consequência mais óbvia do ACLAO será a maior facilidade dos fabricantes de artigos têxteis acabados da África Oriental, quer seja vestuário ou têxteis-lar, de se expandirem mais facilmente para outros mercados africanos.

Os céticos, aponta o just-style.com, estão também a questionar-se sobre quantos anos demorará até que o ACLAO funcione devidamente. As regras de origem vão determinar se o pacto comercial será revolucionário, mas estas ainda têm de ser clarificadas. Tal deverá ser feito nos próximos meses, já que a União Africana estabeleceu o dia 1 de julho de 2020 como a data de início para a implementação da área de comércio livre.

Segundo uma pesquisa da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as regras de origem – os critérios que definem as condições que as empresas têm de cumprir para autenticarem que os seus produtos têm origem na área de comércio livre e que, como tal, são elegíveis para tratamento preferencial – podem fazer prosperar ou quebrar o acordo.

Atualmente, o comércio intra-africano representa apenas 15%, em comparação com cerca de 47% na América, 61% na Ásia e 67% na Europa, de acordo com os dados da UNCTAD entre 2015 e 2017. Até agora, os acordos comerciais regionais existentes na África Oriental – o acordo Comunidade da África Oriental, o acordo Mercado Comum para a África Oriental e do Sul e o acordo Comunidade de Desenvolvimento do Sul de África – revelaram resultados medíocres.

Há ainda a questão de como a liberalização de 90% das taxas entre dois países vizinhos a 1 de julho de 2020 irá funcionar se houver fracas infraestruturas a ligar esses países.

Reconhecer os designers

Embora haja dúvidas sobre o impacto rápido do ACLAO na cadeia de aprovisionamento do algodão à peça final na África Oriental, há expectativas elevadas para a integração de empresas individuais em cadeias de aprovisionamento globais.

Antoinette Tesha, diretora da empresa de consultoria queniana Msingi East Africa

Esse é o caso dos designers de moda da Tanzânia presentes na feira Origin Africa. Meki Kalikawe, que está por detrás da marca Naledi, afirma que «quando os especialistas falam sobre o futuro da cadeia de valor do algodão ao vestuário de África, os designers são, na maior parte das vezes, esquecidos. Contudo, no final, somos quem cria mais valor. Infelizmente, no meu país isso não é reconhecido pelo governo e pelas grandes empresas de vestuário. Fui à Índia e vi que há designers que conseguem trabalhar com as fábricas e que as fábricas querem trabalhar com os designers. Também na Tanzânia, o design pode ligar as confeções à procura internacional».

Antoinette Tesha, diretora da empresa de consultoria queniana Msingi East Africa, sublinha que a moda africana é uma das poucas em todo o mundo que tem uma forte identidade mundial e apela a que se faça um bom uso desta herança.

A designer de moda da Tanzânia Jamilla Vera Swai acrescenta que «os designers e marcas internacionais estão muito interessadas nas nossas criações e eventos, como a Semana de Moda Swahili [que teve lugar no fim de semana passado, de 6 a 8 de dezembro, em Dar es Salaam). No entanto, embora se inspirem em nós, não nos respeitam ou recompensam o nosso trabalho criativo enquanto propriedade intelectual».

Da produção para o serviço

Antoinette Tesha acredita que a África Oriental tem uma vantagem comparativa em relação a países como o Bangladesh, o Vietname, o Sri Lanka ou o Camboja, que nunca foram países de cultivo de algodão e, ainda assim, têm construído uma indústria de exportação de vestuário bem sucedida.

Jamilla Vera Swai

Não obstante, para pena do governo da Tanzânia e de outros países da África Oriental, a maior parte do algodão da região é exportado em cru em vez de ser usado para a produção local e exportação de têxteis e vestuário.

Na Tanzânia, um número crescente de empregos foram criados por empresas como a JD United Manufacturing da China, que produz artigos em denim, sobretudo para a VF Corp, a joint-venture da A to Z com a japonesa Sumitomo, para vestuário em malha, e a Mazava, uma empresa do grupo Winds, com sede em Hong Kong, que emprega 15 mil pessoas e está centrada no vestuário de performance.

Contudo, o governo preferia que em vez de fábricas de confeção que apenas cortam e confecionam, os investidores locais e internacionais se orientassem para empresas que incluam toda a cadeia até ao envio, produzindo fios, tecidos e vestuário em fábricas com tecnologia avançada que pudessem crescer em economia de escala.

O empurrão da China

Uma vez que o sudeste asiático está a tornar-se cada vez mais caro, muitos países da África Oriental acreditam que, dentro de 10 anos, a sua região será uma base de investimento preferencial para grupos chineses de têxteis e vestuário. Com efeito, o governo e as empresas do Império do Meio estão já a demonstrar um enorme interesse pela África Oriental.

Na Etiópia, uma nova linha de caminho de ferro no valor de 4 mil milhões de dólares entre Addis Ababa e Djibouti, construída pelo China Railway Group, reduziu significativamente o tempo e o custo do transporte – por exemplo, para as matérias-primas têxteis que entram na Etiópia através do porto de Djibouti e para o vestuário fabricado na Etiópia ser enviado para os mercados de consumo.

Na Tanzânia, um projeto de 10 mil milhões de dólares para construir um novo porto de mar em Bagamoyo, a cerca de 50 quilómetros a norte de Dar es Salaam, está a ser apoiado pela empresa estatal chinesa China Merchant Port. No entanto, em outubro de 2019, o governo da Tanzânia lançou um ultimato ao investidor chinês para aceitar e trabalhar com os termos e condições do contrato ou então para sair.

O empresário e consultor americano Samuel Meeks, ex-diretor de formação internacional da Levi Strauss International e atual CEO da Garment Consulting Internacional, vive em Madagáscar e vê um interesse crescente por parte de grupos chineses, prevendo que dentro de dois ou três anos Madagáscar seja o maior exportador de vestuário para os EUA sob o African Growth and Opportunity Act (AGOA), ultrapassando o Quénia e todos os outros países subsaarianos que estão abrangidos por este acordo.

Maurícias

As Maurícias e a Eritreia são as únicas nações na África Oriental que não aderiram à Iniciativa Faixa e Rota da China, que quer criar uma nova Rota da Seda. Ainda assim, as Maurícias assinaram um acordo de comércio livre com a China, que é o seu segundo maior fornecedor.

E, como revelou recentemente o just-style.com, os governos das Maurícias e de Madagáscar estão a intensificar os esforços para melhorar a cooperação entre os seus sectores têxtil e de vestuário.

Contudo, apesar do muito falado potencial da África Subsaariana como um centro produtor de vestuário, uma análise recente do just-style.com mostra que a região ainda tem um longo caminho a percorrer antes de conseguir ter um papel mais significativo na cadeia de aprovisionamento de vestuário.