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Uma corrida a três dimensões

Marcas como New Balance, Nike e Adidas estão a orientar recursos e esforços criativos para garantir um lugar no pódio da corrida à impressão 3D, em sapatilhas que marcam o compasso da fusão da tecnologia com o sector do calçado.

No próximo Consumer Electronics Show (CES) – evento na área da tecnologia que acontecerá no início de janeiro em Las Vegas –, a New Balance vai apresentar a sua versão daquilo que será o calçado do futuro: umas sapatilhas de corrida com uma sola intermédia impressa com recurso a tecnologia 3D. Em abril, a marca desportiva espera estar já a vender esta edição limitada na sua cidade-natal, em Boston, antes de começar a encaminhá-la para lojas selecionadas à volta do globo.

Mas para a New Balance, uma empresa que fabrica mais de 90 milhões de pares de sapatilhas por ano e tem vindo a testar a impressão 3D de solas intermédias há várias estações, a oportunidade de imprimir parcialmente umas sapatilhas com recurso a essa tecnologia representa muito mais do que um mero doce tecnológico dado o público do CES.

«Há potencial para que as partes impressas possam superar as partes em espuma que estamos agora a desenvolver», afirmou Katherine Petrecca, responsável pela inovação na New Balance, à Fortune – o design é uma atualização do modelo Fresh Foam Zante, que apresenta sola intermédia de espuma.

Num comunicado revelado em novembro, a New Balance referiu que maior flexibilidade, força e amortecimento eram os principais benefícios das solas impressas a 3D. Já para os consumidores, deter calçado que recorre a essa tecnologia significa ter a possibilidade de calçar um modelo único que se assume como uma segunda pele, porque o exemplar é impresso de acordo com a sua fisionomia.

Mas para além desta capacidade de customização, há uma estratégia mais vasta que inclui a intervenção desta tecnologia na cadeia de aprovisionamento do sector – que se vê encurtada e que, por conseguinte, reduz os custos para as empresas de calçado. «Promove a redução de custos porque não utilizamos moldes», explicou Petrecca. «Poupa-se um considerável número de passos e bastante tempo quando se consegue ir do design ao produto tão rapidamente», acrescentou.

Em média, são necessários um ou dois anos para um sapato passar do conceito à expedição. O que acontece quando este processo leva apenas semanas, ou até dias? «A produção de calçado é realmente arcaica», considera Kegan Schouwenburg, fundadora da Sols, uma startup sediada em Nova Iorque e apoiada pelo jogador de basquetebol Carmelo Anthony, que, com recurso à digitalização e à impressão 3D, pretende acabar com os tamanhos do calçado. «O fabrico sob demanda e a customização são o Santo Graal do calçado. Há uma grande oportunidade aqui porque há uma possibilidade de se criar um produto que é verdadeiramente orientado para o cliente», sustenta Schouwenburg.

Sem surpresas, porém, a New Balance não é a única marca desportiva a deixar-se guiar pelas coordenadas do 3D e a experimentar esse tipo de tecnologia nas solas intermédias das sapatilhas.

Em outubro, a Adidas anunciou o Futurecraft 3D, um novo conceito que recorre à impressão 3D para customizar a sola intermédia da sapatilha de acordo com as necessidades de cada pé, fruto de uma parceria com a empresa europeia de software e serviços 3D Materialise.

A Nike, que já imprimiu e testou a impressão de chuteiras de futebol de alta performance para atletas, também tem dado o seu contributo neste território. Na conferência GeekWire em outubro último, o COO Eric Sprunk revelou que, no futuro, os clientes poderão entrar numa loja da Nike e ter umas sapatilhas impressas a 3D em questão de horas.

Na verdade, o que a Nike faz atualmente com as sapatilhas Flyknit não é muito diferente do que será capaz de fazer com uma impressora 3D durante a próxima década. «É um ficheiro que enviamos de um computador, segue para a máquina e o operador coloca o ficheiro na máquina e sai uma sapatilha», explica Sprunk durante a conferência.

Em última análise, o aperfeiçoamento da tecnologia 3D é um problema que a Nike, a Adidas e a New Balance terão de superar. Mas à medida que a usabilidade e a fiabilidade das impressoras 3D aumentar, a produção – qua ainda não está adaptada a esta nova tecnologia – irá, também, evoluir. «Obviamente, os nossos sistemas de produção estão pensados para produzir em grandes quantidades. E é aí que a impressão 3D precisa de intervir», advogou Petrecca. «Mas o potencial é real a longo prazo para fabrico sob demanda».

O que a New Balance planeia apresentar no CES é ainda o tiro de partida na corrida destas três marcas desportivas em direção a uma nova era no calçado. O que antes era concebido unicamente como um objeto físico – uma sapatilha, neste caso – torna-se agora algo que se comporta como um software e pode, portanto, ser refinado e atualizado.

Um modelo desenvolvido de acordo com a procura significa também eliminar a superprodução, porque nenhumas sapatilhas são produzidas até um cliente encomendar umas e quaisquer sapatilhas encomendadas vão acabar por ser um produto sob medida feito a partir da fisionomia do cliente. «Esta é uma indústria onde as pessoas competem com marketing», reconhece Schouwenburg. «Mas se competirem com produtos, subitamente, a retenção de consumidores e a aproximação com o consumidor ficarão a anos-luz da concorrência», conclui.