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Uma década de moda

A década que ficou para trás a 31 de Dezembro de 2009 deixou marcas inolvidáveis no mundo da moda. Entre os que marcaram as tendências, os que abandonaram a profissão e as peças que se tornaram indispensáveis, os primeiros 10 anos do milénio foram ricos em acontecimentos, polémicas, casos de sucesso e despedidas sentidas que ficarão na memória colectiva. O jornal Telegraph fez a revista ao que de mais importante se passou no mundo da moda, destacando as tendências, os acessórios, os ícones de moda, as controvérsias e os designers. As tendências Nos primeiros anos do novo milénio, acolhemos fatos de corpo inteiro, calções no escritório, leggings com tudo, o blaser do namorado e uma variedade imensa de calças (skinny, pijama, cintura subida, harém), mas é a Sienna Miller que é atribuída a tendência mais durável da década: o boho look (look boémio). Pode parecer ultrapassado agora mas, se recuarmos ao Verão de 2004, iremos revisitar imagens de mulheres com saias em camadas, botas largas e coletes. Os vestidos folk de Miller, largos, com cintos, e os cabelos elegantemente despenteados captaram a imaginação do público e catapultaram-na para o status de ícone. Esta preferência das pessoas – botas Ugg e tops trabalhados dominaram a high street – durou dois anos e acabou com a fixação na sobre-exposição anterior (basta pensar nos jeans de cintura descida, tangas visíveis e vestidos reveladores tipo Britney Spears). O “Galaxy” de Roland Mouret ditou o regresso do vestido em 2005, à medida que mudávamos das Ugg para os saltos Louboutin e encarávamos uma estética mais feminina. Os ombros estruturados desta estação, uma homenagem à silhueta clássica dos anos 80, fazem parte desta tendência de vestir de forma mais adulta e leva a década a fechar com a ênfase no corpo. Os acessórios Após a obsessão com sapatos inspirada pela série “O Sexo e a Cidade” – Louboutins com solas vermelhas, Choos, Manolos, apenas para mencionar alguns – passamos para as carteiras com nomes – Marc Jacobs Stam, Chloé Paddington, Mulberry Bayswater, Fendi Spy e YSL Muse – que cresceram em preço até parecer perfeitamente normal gastar mais de 1.000 euros numa carteira. No início de 2009, um site financeiro americano calculava que a colecção de carteiras Hermes de modelos Birkin e Kelly da Victoria Beckham valesse cerca de 2 milhões de euros. Entretanto, a clássica carteira Chanel 2.55, promovida como a antítese da “It bag” por causa da sua intemporalidade, gerou uma gama de cópias na high street. Os ícones Tivemos flirts com o glamour de Nova Iorque de Sarah Jessica Parker, vestidos de baile de Lily Allen, com as interpretações modernas de Jackie O. de Michelle Obama e Carla Bruni-Sarkozy, enquanto Madonna reescreveu o livro de regras para as mulheres acima dos 50 anos. Mas foi o guarda-roupa de Kate Moss o mais desejado; até Agyness Deyn, considerada “a nova Kate Moss”, não conseguiu roubar a atenção da supermodelo. Kate Moss reinou em termos supremos e com a sua colecção para a Topshop, no valor de 3 milhões de libras (3,4 milhões de euros), fez uma transição difícil para mulher de negócios. A nossa obsessão com skinny jeans, blusões, blasers, pêlos falsos e pumps de ballet deve-se a Moss. As controvérsias Desde as alegações de uso de cocaína de Kate Moss à polémica de unidades de produção sem condições da Primark, houve muita controvérsia, mas um tópico dominou: o tamanho zero. Moss foi recentemente censurada por dizer que «nada sabe tão bem quanto o sentimento de estar magra», mas o debate voltou à baila em 2005 quando Rachel Zoe, a personal styllist americana com clientes como Nicole Richie e Lindsay Lohan foi acusada de encorajar as suas “meninas” a perder peso, uma acusação que ela negou. Baptizadas de “Zoebots” pelo New York Post, as suas clientes usaram todas acessórios sobredimensionados – como carteiras enormes – que enfatizavam a sua fragilidade. Quando a modelo Ana Carolina Reston morreu em 2006 de anorexia, a indústria agiu. Madrid e Milão impuseram um mínimo de índice de massa corporal (IMC) nas modelos e o British Fashion Council criou o Model Health Inquiry. No ano passado, Alexandra Shulman acrescentou a sua voz para debater o assunto numa carta aberta aos designers: «atingimos agora o ponto em que muitos dos tamanhos de amostra não cabem confortavelmente nem mesmo nas modelos estrelas». Contudo, mais para o final da década, mais mensagens positivas foram passadas. A cantora Beth Ditto surgiu nua na capa da revista Love; a modelo curvilínea Lara Stone foi a capa da Vogue de Dezembro de 2009 – tamanho 38, com formas médias, mas significativamente maior do que muitas das suas conterrâneas; e o designer Mark Fast usou modelos de tamanhos grandes na sua colecção Primavera-Verão 2010. Os designers O sucesso da colecção de Stella McCartney para a H&M em 2005 iniciou a tendência para colaborações entre designers e a high street. Outros designers seguiram-se na H&M, incluindo Karl Lagerfeld, Comme des Garçons, Jimmy Choo e Sonia Rykiel. Entretanto, Giles Deacon trabalhou com a New Look e a Debenhams trabalhou com Matthew Williamson e Julien Macdonald. Estas colecções deram credibilidade à high street e apresentaram os designers a uma audiência mais vasta – uma situação win-win. Celebridades (Madonna para a H&M e Kelly Brook para a New Look, por exemplo) apanharam o comboio, mas com graus de sucesso diferentes – a colaboração Kate Moss para a Topshop, lançada em 2007, manteve-se como barómetro para as colaborações entre a high street e as celebridades. Fora da high street, apanhamos a “Balmainia”. Os jeans rasgados de Christophe Decarnin de 1.000 libras, vestidos super-curtos e casacos com ombros estruturados inspiraram imitações e Victoria Beckham lançou finalmente a sua colecção de vestidos, aclamada pela imprensa. O 25.º aniversário da London Fashion Week trouxe Christopher Bailey com a Burberry, Antonio Berardi e Jonathan Saunders de volta à cidade, assim como a imprensa internacional e compradores. Mas nem tudo foram boas notícias. Yves Saint Laurent, um dos maiores designers do século XX, morreu em Junho de 2008. Responsável por algumas das tendências de moda mais perduráveis no tempo, incluindo o fato de calças para senhora e o casaco safari, o seu trabalho definiu o século passado e continua ainda hoje a inspirar designers. Já Valentino reformou-se em 2007, após 45 anos na indústria, Christian Lacroix abandonou as passerelles em 2009 devido a problemas financeiros e Luella Bartley pôs um ponto final na sua actividade comercial em Novembro último.