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Uma empresa “made in Portugal”

Com um efectivo de 560 pessoas, um volume de produção de 450 toneladas mensais e um volume de negócios em 2010 de 37 milhões de euros, 97% do qual em mercados internacionais, a Mundotêxtil é um dos principais players do sector dos têxteis-lar em Portugal. Apesar de satisfeitos com a performance da empresa – em 2010, apesar das dificuldades, o volume de negócios da empresa cresceu cerca de 5% em comparação com 2009 –, os administradores da Mundotêxtil não têm dúvidas quanto à estratégia e passos a dar para prosseguir na senda do crescimento, não só a nível individual mas, sobretudo, a nível sectorial. No seguimento da visita de José Sócrates à Heimtextil, José Pinheiro e Rogério Matos, administradores da Mundotêxtil, revelaram ao Portugal Têxtil os pontos que consideram fundamentais para que o sector prospere. E o primeiro deu o mote ao próprio stand da empresa na maior feira de têxteis-lar do mundo: o “made in Portugal”. «Como fornecedor de têxteis-lar, Portugal tem boa imagem, portanto há que tirar proveito disso. E é fácil, com um pequeno investimento, promover e diferenciar a nossa posição face à concorrência», explica Rogério Matos. Para além da promoção, a implementação da obrigatoriedade do “made in Portugal” pode ser uma forma de proteger a produção feita em Portugal. «Alguns produtos indicam o local de origem mas, neste momento, não é obrigatório, pelo que tem de se criar uma oportunidade para proteger o que é produzido na Europa. Proteger e, ao mesmo tempo, promover face à concorrência. O facto de ser feito na Europa é um motivo de compra, é apelativo para o consumidor», acrescenta. Mas embora a questão do “made in” preocupe os administradores da Mundotêxtil, e vários outros empresários da indústria têxtil e de vestuário portuguesa, o preço das matérias-primas é, actualmente, o grande “quebra-cabeças” que é preciso deslindar. «O algodão atingiu, no último ano, recordes de 150 anos. E no caso dos felpos, a matéria-prima representa 30% a 50% do valor total do produto final», explica José Pinheiro. «É preciso fazer alguma coisa em termos alternativos à hegemonia asiática, que controla neste momento mais de 80% do algodão mundial – porque isto é um jogo entre China, Índia e Paquistão», considera Pinheiro. A sugestão passa pelo investimento no cultivo de algodão numa ex-colónia. «Alternativa há só uma: África. A alternativa é Moçambique, ou Angola, mas sobretudo Moçambique, porque tem os dois factores mais importantes para o algodão: uma qualidade muito semelhante à do Egipto, que é o melhor algodão do mundo; e energia ao preço da chuva, porque produz mais energia do que a que consome», aponta José Pinheiro. «Tem que haver uma conjugação de esforços de Moçambique, de Portugal, dos empresários, de forma a que se crie uma verdadeira cadeia de valor acrescentado. A marca Portugal aliada a uma marca de algodão africano poderá fazer todo o sentido», acredita o administrador. Ainda no plano internacional, o acesso aos mercados continua a ser um problema para a ITV nacional e europeia. «Por exemplo, nós, se queremos vender as nossas toalhas no Brasil, quando elas lá chegam, chega a haver direitos e taxas alfandegárias de, no mínimo, 55% – e em alguns Estados deste país ficam muito próximos dos 70%. Para Portugal e para a Europa, os valores destas mesmas taxas rondam os 9,5%», explica Rogério Matos. «Estas taxas são proibitivas, é uma forma de proteger a indústria local. Ora se os produtos iguais aos nossos, feitos no Brasil, pagam pouco mais de 9%, então a Europa deve pagar o mesmo. Se assim fosse, o Brasil era um mercado enorme para os têxteis-lar portugueses», acrescenta. Por último, mas não menos importante, a Mundotêxtil aponta o dedo aos custos de contexto, como a electricidade. «Os custos de contexto são um problema português. Quando recebo uma factura de 50 mil euros de electricidade e vejo que 14 mil euros são para pagar direitos de passagem, mais vale alugar uma camioneta para levar a electricidade», argumenta José Pinheiro. O futuro passa, por isso, pela criação de uma verdadeira política industrial, onde as empresas são valorizadas consoante o que produzem. «Deviam ser valorizadas as empresas de acordo com o valor que acrescentam – com reduções, por exemplo, na taxa única de acordo com o volume exportado, de acordo com o número de pessoas que empregam…», defende José Pinheiro. Na Mundotêxtil, o futuro é encarado com algum optimismo, com a aposta continuada na qualidade que lhe deu nome e um reinvestimento num mercado já conhecido, mas onde a empresa se está a reposicionar: os EUA. «Afastámo-nos dos EUA a partir de 2008, não por causa da crise, mas por uma opção estratégica, porque não podíamos fazer face à concorrência asiática. Actualmente vendemos apenas 4% nos EUA. Estamos a analisar uma nova aproximação do mercado mas por outra via, para outro segmento, com outro produto e outro nível de preços. Vamos apostar num segmento mais alto e fazer um maior investimento em marketing», revela Rogério Matos. «A outra grande linha estratégica é a Europa Central – Alemanha, Suíça, Áustria e Holanda –, onde estamos a investir em lojas de retalho sob a marca Centa-Star. Actualmente, temos já 14 lojas Centa-Star neste mercado e planeamos abrir 4 a 5 novas lojas por ano nos próximos 5 anos», acrescenta. Independentemente do que possa acontecer, no país e no mundo, José Pinheiro não tem dúvidas: «a Mundotêxtil vai ser Mundotêxtil em qualquer lado: temos empresas em Itália, na Alemanha, nos EUA, Espanha… A Mundotêxtil vai continuar a existir. O país é que tem de arranjar oportunidades», conclui José Pinheiro.