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Uma fábrica no coração do Porto

Em plena baixa portuense, um edifício de três andares forrado a azulejos verdes não deixa adivinhar que, dentro, à volta de 80 pessoas se dedicam diariamente à produção de vestuário, essencialmente feito à medida, para clientes um pouco por toda a Europa. É o Atelier des Créateurs.

O Atelier des Créateurs instalou-se há cerca de 12 anos no Porto em busca do savoir-faire que escasseava em França na arte de bem confecionar vestuário. «Originalmente era um atelier parisiense, que tinha pessoas entre os 65 e os 70 anos, já próximas da reforma, ou que já deviam estar mesmo reformadas, e que continuaram a produzir vestuário. Procurámos e não encontrámos em França o savoir-faire. Por isso viemos para o Porto. Quando as pessoas foram para a reforma, deslocalizamos toda a produção que tínhamos em França para o Porto», explicou Gilles Zeitoun, que fundou a empresa juntamente com o sócio Jose Gonzalez Rodriguez.

Além de servir os clientes do “feito à medida”, a empresa produz igualmente pequenas coleções para criadores de moda como Nuno Gama ou a belga Ann Demeulemeester. «Temos cada vez mais procura e cada vez mais diversificada», revelou Gilles Zeitoun ao Jornal Têxtil. «O Atelier des Créateurs, que fazia fatos por medida, hoje faz também sportswear casual, que é algo que é muito procurado, mas com matérias-primas cada vez mais nobres», contou.

A carteira de clientes, composta por cerca de 50 nomes – desde encomendas maiores àquelas mais pontuais – espalha-se por toda a Europa, com exceção de Itália. «Temos quase todos os países da Europa, mas em proporção é efetivamente a França e a Inglaterra [os principais mercados]. Itália não. Itália tem muitos pequenos ateliers que ainda persistem e que guardaram o seu savoir-faire – são empresas muito familiares, famílias inteiras que começam a trabalhar e a produzir e o conhecimento passa de pais para filhos», explicou.

Desafios e oportunidades

Essa passagem de conhecimento é, no entanto, um dos problemas que o Atelier des Créateurs enfrenta atualmente em Portugal. «Não tenho nada contra escolas de estilismo, como a Esmod e todas as escolas portuguesas, mas hoje temos tendência para “fabricar” estilistas mas muito menos modelistas e o trabalho mais difícil é fazer a adequação do design com o modelismo. É a junção dos dois que cria a hipótese de vestirmos uma peça de vestuário. Hoje em dia, as pessoas que fazem os trabalhos feitos à mão são cada vez mais raras. É preciso, por isso, formar cada vez mais pessoas nessa área», considera o empresário.

O ano de 2018, em que registou um volume de negócios de 2 milhões de euros, foi, segundo Gilles Zeitoun, «um ano mais difícil do que os anteriores», resultado, sobretudo de questões conjunturais. «Se os nossos clientes sofrem, automaticamente nós sofremos. Conseguimos manter o nosso crescimento graças ao aumento do número de clientes, mas sentimos que alguns têm hoje dificuldade em se desenvolver», assumiu.

O futuro, contudo, deverá continuar a sorrir ao Atelier des Créateurs, com a aposta na qualidade a destacá-la face à concorrência internacional. «Muitas empresas, durante a crise, deslocalizaram a produção que tinham em Portugal para os países asiáticos e para o Magreb, e agora voltaram, não todas, mas muitas voltaram pela qualidade do trabalho português. Portugal tem verdadeiramente uma qualidade de produção, não apenas no têxtil, mas em todos os domínios», assegurou Gilles Zeitoun.