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Uma indústria acelerada

A velocidade do sector da moda, que se move ao ritmo de sucessivas apresentações mundiais e lançamento incessante de novas coleções, suscita questões sobre a sustentabilidade futura desta cadência apressada.

Por vezes, a moda assemelha-se a um carrocel de desfiles, com a chegada novas coleções às prateleiras das lojas a cada minuto. Na da semana passada, a velocidade crescente da indústria quase a fez cair.

Na quarta-feira foi anunciado o afastamento de Alber Elbaz da Lanvin, após 14 anos de direção criativa ao serviço da casa francesa. Este acontecimento seguiu-se à saída de Raf Simons da casa Christian Dior, após três anos e meio de colaboração, que não viu o seu contrato renovado. Estas saídas de peso confirmam a convicção largamente difundida de que a procura, cada vez mais frenética, de mercados e vendas está a passar uma fatura pesada àqueles cujas ideias alimentam as feras.

Elbaz terá sido demitido pela acionista maioritária da Lanvin, Shaw-Lan Wang. O designer, em comunicado, agradeceu à equipa e aos seus clientes e acrescentou que «desejo à casa Lanvin o futuro que merece entre as melhores marcas de luxo francesas e espero que encontre a visão de negócio de que necessita para tomar o rumo certo».

O que o futuro reserva não se sabe, mas a separação de Alber Elbaz sugere que a casa, fundada por Jeanne Lanvin em 1889 e reavivada pela contratação de Elbaz em 2001, está a responder à desaceleração do crescimento, procurando um novo rumo. Antevê-se a necessidade de um investimento adicional e as negociações intensivas de Shaw-Lan Wang na busca de uma injeção de capital terá criado uma cisão entre a empresa e o diretor criativo, um designer apreciado pela sua moda feminina, mas vestível, bem como pelo próprio estilo pessoal, marcado pelo uso de um laço e óculos. Os protestos por parte de alguns dos seus colaboradores no atelier Lanvin, depois da demissão, demonstram o quanto era apreciado.

Raf Simons, por seu lado, justifica a saída da casa Dior numa tentativa de preservar o equilíbrio entre a vida laboral e pessoal, procurando simultaneamente concentrar-se na sua marca epónima. Em comunicado, Simons afirmou que a sua decisão se baseou «inteira e igualmente no desejo de me concentrar noutros interesses que tenho na vida, incluindo a minha marca, e as paixões que me estimulam fora do trabalho». Alguns argumentam que, para Simons, a casa Dior era um meio para atingir um fim – angariar dinheiro que permitisse expandir a sua marca.

Será o atual modelo de negócio da moda – onde se espera que os designers criem, pelo menos, seis coleções por ano – sustentável? Após a partida de Simons, a conceituada jornalista de moda Suzy Menkes escreveu um artigo no qual se lamenta sobre um sector em que é esperado que um designer desenvolva seis coleções por ano, a par da satisfação dos compromissos de imprensa, um perfil nos media sociais e aparições pessoais em eventos de clientes provenientes das mais variadas partes do mundo. Mencionando os problemas de abuso de substâncias de John Galliano e Marc Jacobs, Menkes escreve que os designers – pela sua natureza de pessoas sensíveis, emocionais e artísticas – são impelidos a assumir demasiadas obrigações. Em seguida, elogia Simons pela sua atitude corajosa.

A notícia sobre a saída de Elbaz da Lanvin suscitou ainda mais controvérsia na indústria da moda. Sarah Mower, diretora-crítica da Vogue e embaixadora do Conselho Britânico de Moda para os talentos emergentes, questionam num artigo sobre Elbaz, «que lugar de discórdia a indústria da moda de hoje se tornou?» Em entrevista ao Observer, sugeriu a existência de um desfasamento no coração da moda entre a criatividade e as vendas. «Apenas falamos dos designers, nunca abordamos a perspetiva comercial», aponta Mower.

«Seria bom ouvir algo da parte deles. Estão sob enorme pressão devido ao mercado de luxo na China. Quando o crescimento começa a estabilizar, é quando surgem os problemas», advoga Mower, acrescentando que a produção quase infinita de novos designs pelos criativos é «pior do que produzir ao desbarato».

Richard Nicoll, designer de sucesso da Semana da Moda de Londres, fez uma pausa no seu negócio quando o ritmo desmesurado do universo da moda se fez sentir sobre o seu entusiasmo pela atividade. «Não era gratificante», afirma. «Fazia seis coleções por ano e não me dava prazer. É difícil continuar a faze-las com integridade e autoridade quando são tão frequentes. Desapaixonei-me no final».

Nicoll colaborou, desde então, com a marca Jack Wills e está a desfrutar da sua carreira como freelancer. Planeia relançar a marca própria, mas «de forma muito diferente». Talvez os designers devessem considerar a abordagem de Azzedine Alaïa. O criador de moda tunisino, sediado em Paris, recusa-se a apresentar as suas peças de vestuário integradas nas estações ditadas pelas semanas da moda mundiais e, ao invés, organiza mostras quando considera que a sua coleção está pronta a ser apresentada ao público.

Alguns especialistas da indústria acreditam que o debate atual não se foca no elemento essencial. Daniel Marks, diretor da agência de relações públicas The Communications Store, que representa designers londrinos, entre os quais Christopher Kane e Erdem, concorda que existe pressão, «provavelmente mais do alguma vez no passado, mas esse não é o motivo pelo qual algo não funciona. Isso acontece porque o designer não é devidamente apoiado».

Daniel Marks argumenta que o segredo é uma aliança entre o comercial e o design. «Desconheço o que aconteceu na Dior e na Lanvin, mas a chave para uma marca de sucesso é o equilíbrio entre a criação e o comercial e uma equipa que trabalha em conjunto, com os mesmos objetivos», explica. «Quando encontramos o CEO certo, é quando o sucesso acontece», sublinha.

Marks destaca o grupo Kering – o conglomerado de moda que detém a Gucci, Alexander McQueen, Stella McCartney e Christopher Kane – como uma empresa onde esta cultura está bem definida. «Eles cuidam das suas marcas muito bem», afirma. «O Jonathan Ackroyd está na Alexander McQueen, Sarah Crook na Christopher Kane», aponta. O diretor da The Communications defende a necessidade de atrair pessoas conhecedoras do segmento dos negócios para o universo da moda. «A moda é um negócio sério, assim como extraordinário», sustenta. «Estamos no negócio da magia e dos sonhos. Por que não haveriam de querer trabalhar na indústria da moda?»

Em relação aos talentos criativos, as saídas de Elbaz e Simons deixam dois lugares vagos em grandes casas de moda parisienses. Parece provável que Elbaz possa assumir a casa Dior. Mower espera, no entanto, que não se apresse. «Alber seria muito bom na Dior – adora as mulheres, é um grande especialista em cor e traria algum humor», reconhece. «Porém, no meu cenário de fantasia ele irá tirar um ano e, em seguida, iniciar o seu próprio negócio», admite.

Independentemente da decisão de Alber, as suas ações terão uma repercussão na indústria, estendendo-se para lá da influência sobre a sua carreira.