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Uma lã muito fina

Se Charles Darwin ainda hoje fosse vivo acrescentaria certamente um novo capítulo à sua teoria das espécies com base na evolução das ovelhas de Gostwyck, cuja lã faz corar de vergonha a cabra da caxemira em termos de qualidade (maior) e preço (menor).

Em Gostwyck, uma quinta australiana que permanece na mesma família desde 1834, mais de 16.000 ovelhas vivem em liberdade total e são tratadas com desvelo. Mas o que distingue estas ovelhas de ar feliz não está à vista. O cuidado com estes animais, passado de geração em geração, está na base do sucesso do negócio familiar.

Philip Attard, diretor da Gostwyck e hoje o “chefe” da família, veio a Portugal a convite da Texafil, seduziu as empresas com a sua lã merino mais fina do que caxemira e maravilhou as pessoas com histórias de ovelhas da Saxónia, uma das melhores estirpes ovinas.

Nos últimos 30 anos, a quinta de Gostwyck acumulou conhecimentos e competências únicas para produzir a lã merino mais fina do mundo através de processos éticos e ecológicos, sempre a pensar na proteção dos animais e do meio ambiente ao longo desta busca incessante por uma fibra laneira que pudesse ser usada junto ao corpo, como uma segunda pele.

Nada é descurado na ancestral propriedade, desde os pastos onde se alimentam as ovelhas até ao processo chave da tosquia, durante a qual é realizada uma verdadeira seleção natural do velo. «O animal não sofre qualquer lesão durante o processo», garantiu Attard a uma plateia ainda abalada por imagens recentes de terríficas práticas de mulesing. Esta técnica aprimorada ao longo dos anos permite obter três qualidades em função da espessura: “superfine” (15,6 – 17,3 μ), “ultrafine” (14,6 – 15,5 μ) e “ultimate” (< 14,5 μ). «Todas as fibras são testadas, para garantir o conforto junto à pele, evitando assim qualquer efeito de comichão ou irritação», afirmou o diretor da Gostwyck. Para a transformação em fio, a empresa estabeleceu uma parceria com a Novetex, sediada em Hong Kong, mas diz-se aberta a novas colaborações, lançando inclusive o desafio «às fiações portuguesas».

O interesse das marcas de moda não se fez esperar. A centenária Jaeger, que rejuvenesce a cada estação, quis ser pioneira na oferta e desenvolveu uma gama que os portugueses que ouviram Attard tiveram oportunidade de ver e, sobretudo, tocar. «É lavável à máquina», revelou o responsável, sublinhando os esforços desenvolvidos para encontrar o equilíbrio entre performance e ecologia. «A primeira coisa que se sente quando se toca é que é fresca, o que acho extraordinário em lã merino ultrafina», referiu, à medida que foi mostrando várias peças de malha extremamente finas. «Se dormir com isto, vai dormir muito melhor. Se fizer muito exercício, vai afastar a humidade mais rapidamente e depois, naturalmente, vai permanecer quente – não é tecnologia, é apenas a natureza da lã», concluiu na sua apresentação.

Philipp Attard tem consagrado os últimos anos a mostrar o trabalho de uma vida dedicada à lã. «Alcançámos esta qualidade somente em 2009 e temos vindo a melhorá-la lentamente. De ano para ano, conseguimos obter fibras mais finas, mais resistentes, mais brancas. Agora estamos com fibras de 16,1 μ – nos carneiros bebés temos 14,1 μ – e 46 N/ktex de resistência [medidas pela Australian Wool Testing Authority]. Quando começámos, em 2001, era 18,3 μ e 42 N/ktex», contou Attard ao Jornal Têxtil 199 (outubro 2015).

A Texafil, seduzida pelas características excecionais desta fibra de lã, decidiu introduzir o fio resultante no portefólio. «Trata-se de um produto para aplicações específicas, que vem competir com a caxemira, porque se consegue um toque mais macio do que o da própria caxemira a um terço do preço do fio», destacou o CEO Jacinto Arantes.