Início Notícias Moda

Uma questão de identidade

Os cinco dias dos desfiles de moda masculina deixaram algumas imagens marcantes nas quatro tendências-chave que os designers parecem ter planeado para o próximo outono-inverno. O designer americano Rick Owens criou toda uma categoria sozinho, quando enviou para a passerelle modelos sem roupa interior e com a sua masculinidade semi-exposta por vestidos com aberturas à frente, estrategicamente colocadas. Dificilmente as peças de vestuário chegarão ao mercado de massas e muitos fashionistas veteranos consideraram que foram obviamente pensados para serem controversos. Mas conseguiram dar a Owens mais cobertura mediática internacional do que todos os outros designers em conjunto. «Ao expor deliberadamente alguns pedaços de carne pendurados, Owens parece estar a sugerir o quão ténue e vulnerável é a base do que pensamos como sendo masculinidade», interpreta Guy Trebay num artigo no The New York Times. Esta dicotomia feminino-masculino foi, efetivamente, outro dos temas que marcou as coleções para o outono-inverno 2015/2016, com alguns designers a percorrem o caminho oposto de Owens ao redefinir o significado de vestuário de homem através de propostas que misturam os géneros. Andrea Crews, Rynshu e alguns outros colocaram mesmo algumas mulheres na passerelle para mostrar as suas coleções masculinas. Mas a tendência mais marcada foi a feminização das próprias roupas. Saias, vestidos e écharpes surgiram nos modelos masculinos e alguns – como no desfile de Issey Miyake – usaram mesmo travessões de cabelo. Muitos dos manequins foram escolhidos claramente pela sua androgenia. «Acho que a tendência foi interpretada com muita elegância», aponta Jean-Jacques Picart, consultor para os sectores da moda e bens de luxo. Os artigos da casa de moda espanhola Loewe, por exemplo, «ficaram próximos de uma sensualidade e sedução feminina», acrescenta. O desportivo elegante tem igualmente vindo a crescer e estas coleções mostraram que é um visual que, provavelmente, vai manter-se durante anos. A Dior Homme levou o conceito ao máximo, com fatos mostrados com denim e com sapatilhas-sapatos elegantes a darem uma nova energia com as cores fortes nas solas. «Este homem tem uma vida real», justifica Kris Van Assche, diretor criativo da marca, em comunicado. «Ele move-se, tem essa energia, e o aspeto técnico da coleção dá-lhe essa liberdade», acredita. Os fatos da Cifonelli mostraram cortes perfeitos em versões mais tradicionais, mas usados para dar liberdade de movimentos ao homem moderno. E a Louis Vuitton ofereceu casacos tipo jeans fáceis de usar, sweatshirts e um motivo de corda inspirado em Christopher Nemeth, um conhecido designer de moda e artista britânico que morreu há quatro anos. O fato é o uniforme do empresário, mas alguns dos designers decidiram que os uniformes ao estilo militar são o novo fato. O designer coreano Juun J tomou a dianteira nesta tendência, com uma coleção caqui que poderia ser usada, sem destoar, em zonas de combate, não fosse a adição de imagens de rostos de crianças e pombas pintada sobre ela, numa ironia antiguerra. Outros designers, como os da Berluti e Dries Van Noten, também fizeram uma parada de soldados na passerelle, adornando as mangas com bordados e trench coats prontos para uma inspeção de vestuário. O designer holandês da Lanvin, Lucas Ossendrijver, que colocou uniformes a preto e branco na sua coleção, sublinha o ambiente militar em Paris com os soldados na rua a garantir a segurança depois do ataque terrorista ao Charlie Hebdo três semanas antes. «Se vir Paris, há muitos militares aqui. Em cada estação de comboio há soldados, é quase surreal», conclui.