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Uma seta em África

De acordo com William Gumede, investigador da Universidade de Witwatersrand na África do Sul, o domínio chinês nos mercados têxteis da África tem promovido a perda significativa de postos de trabalho. «Por exemplo, na África do Sul, o emprego na indústria têxtil caiu de 300.000 trabalhadores em 1996 para 120.000 em 2010», sublinha Gumede. A situação é ainda pior na Nigéria, onde o país tem visto ruir a sua outrora crescente indústria de fiação, avaliada em 1,3 mil milhões de dólares, afetada pelos tecidos chineses baratos – apontados como a causa principal. «Desde 1995, mais de 175 fábricas têxteis fecharam, deixando mais de 250 mil trabalhadores desempregados», revela Jaiyeola Olanrewaju, diretor-geral da Associação dos Produtores Têxteis Nigerianos. E existe a preocupação de que alguns produtores chineses não estão a ser honestos no seu negócio, sendo acusados de imitar marcas, desenhos e modelos têxteis africanos. «De forma a competir favoravelmente, os governos africanos devem parar o influxo de têxteis falsificados e contrafeitos», defende Walid Jibrin, presidente do Capítulo dos Estados do Norte da Associação dos Produtores Têxteis Nigerianos. «As falsificações destruíram a indústria têxtil artesanal tradicional na Nigéria, Gana, Costa do Marfim e Guiné», acrescenta Dele Hunsu, presidente da União Nacional de Vestuário e Têxteis e dos Trabalhadores de Alfaiataria da Nigéria. No entanto, o efeito provavelmente mais devastador da indústria têxtil chinesa sobre o crescimento económico da África Subsaariana será a sua capacidade de aproveitar o programa African Growth and Opportunity Act (AGOA) estabelecido pelos EUA em 2000. As empresas chinesas têm beneficiado do acesso preferencial da região através do estabelecimento de subsidiárias chinesas. O AGOA gera uma vantagem comercial para as empresas têxteis da África Subsaariana no acesso ao mercado dos Estados Unidos. Segundo Ciliaka Millicent Gitau, professora na Escola de Economia da Universidade de Nairobi, o sucesso do AGOA foi rápido mas de curta duração. Em 2005, muitas empresas chinesas já tinham estabelecido subsidiárias em países como: Gana, Quénia, Lesoto, Madagáscar, Malawi, Maurícias, Namíbia, Nigéria, Tanzânia e África do Sul. «A questão é que o AGOA não tem regras de origem que restrinjam o transbordo das mercadorias têxteis chinesas», acrescenta Gitau. O resultado tem sido o encerramento de empresas africanas de têxteis e vestuário, incapazes de competir com as empresas chinesas, orientadas para a exportação agressiva, baixos custos de produção e superioridade tecnológica. Com o prolongamento do AGOA até 2015, os fabricantes chineses de roupas na África Subsaariana vão continuar a exportar mais produtos têxteis para os EUA, em detrimento das empresas africanas. E os fabricantes chineses não estão dispostos a recuar. Com o enfraquecimento da procura na Europa e nos EUA desde a crise financeira, para além das disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC) com os principais parceiros comerciais dos mercados maduros, a indústria têxtil e vestuário chinesa quer diversificar as suas vendas. De janeiro a agosto de 2012, os dados alfandegários da China mostram que as exportações de têxteis e vestuário para a União Europeia (UE) caíram 14,4% em termos anuais, para os 32,02 mil milhões de dólares, mas subiram 12,2% para os 9,82 mil milhões de dólares para a África. «Temos recentemente muitas consultas de clientes na África. Eles são menos exigentes e alguns aceitam com satisfação as nossas marcas próprias», refere a diretora de um fabricante de roupas de Xangai, que até agora tem fornecido os mercados da UE, EUA e Japão. Outros fabricantes chineses estão a usar a África como uma alternativa de acesso aos mercados dos EUA e da UE. «Na Etiópia, alugamos uma unidade e contratamos trabalhadores locais para fazerem roupas para clientes nos EUA e na UE», indica o gerente de uma empresa têxtil na província de Shandong, que salienta que o AGOA oferece a empresas como a sua uma oportunidade legal de aceder ao mercado dos EUA. E as empresas chinesas continuam a ver África não só como um grande mercado para exportação, mas também um lugar possível para o investimento maciço. Por exemplo, em agosto, a empresa China Garments, um fabricante estatal sedeado em Pequim, anunciou que vai investir cerca de 29,7 milhões de dólares no Zimbábue para formar uma joint-venture com a Cotton Company of Zimbabwe. A joint-venture deverá tornar-se num importante fornecedor de algodão para a China Garments.