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Uma seta em África

O interesse na região da África Oriental, como um potencial destino de sourcing da indústria de vestuário, tem aumentado progressivamente, mas os resultados de um novo estudo sugerem que essa não será uma tendência fácil de implementar.

Cerca de três-quartos dos compradores de vestuário afirmaram, como fizeram em 2011 e 2013, que ao longo dos próximos cinco anos pretendem reduzir as suas aquisições provenientes de empresas chinesas.

Entre os inquiridos, o Bangladesh continua no topo da lista de futuros destinos de terceirização, com 48% a colocá-lo no seu top três de prioridades, superando o Vietname e a Índia, respetivamente. No entanto, pela primeira vez desde 2013, as nações africanas figuram na lista de países que poderão desempenhar papéis mais importantes na fabricação de vestuário. A Etiópia, nomeadamente, surge em sétimo na lista.

A renovação da Lei de Crescimento e Oportunidades para África (AGOA) tem contribuído para o mediatismo criado em torno dos países africanos, garantindo aos países subsarianos um acesso gratuito ao mercado dos EUA. As tendências são retiradas do mais recente estudo realizado pela McKinsey & Company, intitulado “África Oriental: O próximo hub para o sourcing de vestuário?”, que entrevistou 40 responsáveis pelos contratos de sourcing de vestuário europeus e americanos, que são coletivamente responsáveis por um volume de aprovisionamento de cerca de 70 mil milhões de dólares.

Embora o relatório sugira que a China continua a ser o gigante indiscutível de fabricação de vestuário, com cerca de 177 mil milhões de dólares em exportações de vestuário em 2013, os autores destacam o potencial da África Oriental enquanto futura fonte de aprovisionamento. Em particular, apontam a Etiópia e o Quénia e, em menor medida, o Uganda e a Tanzânia, enquanto os governos locais procuram desenvolver a sua indústria têxtil e vestuário domésticas.

O nível da sua importância, no entanto, dependerá inteiramente do quão bem as partes interessadas – compradores, governos e produtores – trabalharem em conjunto para melhorar as condições de negócio na região.

Etiópia
Marcas internacionais, incluindo as retalhistas Tesco, Primark, Wal-Mart e Hennes & Mauritz (H&M) iniciaram negócios com o sector têxtil e vestuário da Etiópia nos últimos dois anos.

A H&M, que compra cerca de 80% dos produtos no continente asiático, iniciou o sourcing de vestuário na Etiópia em 2014, fornecendo novas lojas em mercados emergentes. Desde então, outros seguiram a tendência.

No ano passado, o valor das exportações da indústria têxtil e vestuário da Etiópia atingiu os 120 milhões de dólares, de acordo com o governo do país, que ambiciosamente espera que estes ganhos cresçam para 500 milhões de dólares em 2016. Porém, de acordo com a Organização Mundial do Comércio, o país responde por uma mera percentagem de 0,01 do total das exportações de vestuário.

Os autores do relatório sugerem que o principal trunfo da região prende-se com o seu custo de produção. Os salários dos trabalhadores de vestuário da Etiópia estão entre os mais baixos a nível mundial, inferiores a 60 dólares por mês, e os custos de permissão de trabalho para trabalhadores estrangeiros estão a menos de um décimo daqueles praticados no vizinho Quénia.

Em acréscimo, a Etiópia possui algumas das tarifas mais baixas de propriedade e eletricidade em África e Ásia, fixadas em 0,50 cêntimos do dólar por quilowatt, enquanto o custo do leasing de propriedade pode ser tão baixo quanto 0,03 cêntimos do dólar por metro quadrado por ano, para locações a 80 anos. No entanto, o país não maximiza o seu potencial.

A Etiópia tem mais de 3,2 milhões de hectares de terra que poderia servir para o cultivo de algodão. No entanto, apenas 7% da terra está em uso. E cerca de 80% dos compradores entrevistados citaram a eficiência da produção como um desafio à crescente terceirização de vestuário na Etiópia, que funciona atualmente entre 40% a 50%, com longos prazos de entrega.

Quénia
À semelhança da Etiópia, o Quénia também fornece elevados volumes de peças básicas, que respondem por 58% das suas exportações para os EUA. Graças ao investimento direto estrangeiro na Ásia e no Médio Oriente, o país tem sido capaz de aumentar, substancialmente, a capacidade das suas fábricas de vestuário nos últimos anos, somando um número crescente de trabalhadores, num total de 1.500 face a 560 em 2000.

O Quénia beneficiou, também, grandemente do AGOA, mais do que do Acordo de Parceria Económica da UE, que oferece menos vantagens de isenção tarifárias. Manifestou interesse em expandir o seu alcance ao mercado de vestuário dos Estados Unidos como parte dos esforços para se tornar um país de rendimento médio em 2030.

Alguns dos fabricantes quenianos inquiridos afirmaram não estar ansiosos por expandir os seus negócios ao território europeu, considerando esses compradores mais exigentes no respeitante aos prazos, tamanhos de encomendas e qualidade.

Porém, apesar do aumento da capacidade de produção do país, a carência de uma indústria local a montante obriga os fabricantes a importarem tecidos, o que resulta em tempos de entrega superiores. Em alguns casos, os tecidos provenientes do exterior podem levar até 40 dias a chegar a uma fábrica de vestuário. E, ao contrário da Etiópia, os custos laborais são muito mais elevados no Quénia, rondando entre 120 e 150 dólares por mês para um trabalhador do sector de vestuário. Os custos de energia são, também, elevados e, uma vez que a alimentação elétrica é irregular, as fábricas são obrigadas, frequentemente, a confiar em geradores.

«Como a Etiópia, o Quénia terá de lidar com questões de conformidade e de risco, se pretende atrair mais compradores internacionais», referem os autores do estudo. «De acordo com os responsáveis inquiridos, a corrupção, os altos índices de criminalidade e a baixa adesão social estão entre os principais desafios que enfrentam no Quénia», apontam.

Perspetivas futuras
Os dados recolhidos no estudo demonstram que, em 2013, as exportações de vestuário para a Etiópia, Quénia, Tanzânia e Uganda totalizaram, conjuntamente, 337 milhões de dólares. Os autores criaram três cenários para a evolução da região da África Oriental como um centro de aprovisionamento para têxteis e vestuário durante a próxima década.

No primeiro, esta continuará a ser um nicho de mercado e os acordos de livre comércio com os EUA e a União Europeia prevalecerão. As perspetivas para a região, em tal cenário, continuarão a ser modestas, sugere o relatório, em parte como resultado da volatilidade dos mercados de ações e moeda.

O segundo cenário detalha a África Oriental como uma nova opção de aprovisionamento para os vários grandes players nas categorias básicas, conduzindo a uma duplicação das exportações de vestuário da região. Nesse caso, as empresas de vestuário terão superado as atividades de corte, confeção e acabamento, adotando uma integração vertical.

Num terceiro cenário, as principais empresas de vestuário globais inauguram escritórios de sourcing na África Oriental, atraindo investimento suficiente para modernizar as instalações e recrutar trabalhadores qualificados, aproximando os seus volumes de exportação daqueles de países com o México ou o Paquistão.

Mesmo mediante este cenário, no entanto, o relatório salienta que a implementação da integração vertical poderá demorar anos e será viável apenas se os países cooperarem para construir cadeias de valor regionais.

«Se a África Oriental pretende vivenciar um crescimento sustentável na fabricação de vestuário, a colaboração entre todas as partes interessadas é uma obrigação», explicam os autores do relatório. «Os governos, por exemplo, poderiam considerar a possibilidade de investir em infraestruturas, apoiar os empresários locais, diversificar os acordos de comércio livre e construir instituições de ensino com formação orientada para o mercado. Os fornecedores devem considerar as melhorias de desempenho e gestão da formação, melhorar as suas instalações e ofertas e aderir a parcerias de longo-prazo com os compradores», aponta o documento.

«Todas as partes terão de fazer esforços para garantir a conformidade social e ambiental. Os compradores, por sua vez, devem apoiar os esforços de ampliação de capacidade da África Oriental e começar a avaliar a região como uma verdadeira opção estratégica, ao invés de apenas um campo de testes», conclui.