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Unissexo com futuro? – Parte 1

Casas como a J.W. Anderson no Reino Unido e JNBY na China têm ajudado a difundir a tendência, juntamente com a crescente popularidade do estilo desportivo, que inspira cortes fluidos, elevando o design unissexo a um nível superior do mercado. Também no retalho começam a soprar os ventos de mudança. Os grandes armazéns Selfridges, consciente das tendências sociais emergentes, prepara-se para lançar a iniciativa Agender. Durante oito semanas, os armazéns londrinos vão conceder espaços particulares ao estilo neutro, apresentando produtos unissexo de marcas como a Yohji Yamamoto e a Rad Hourani, a par de cinco coleções exclusivas e do lançamento da irreverente Nicopanda, do designer Nicola Formichetti. Esta iniciativa irá ocupar três andares dos famosos grandes armazéns, contando com a decoração arrojada do Studio Toogood, conhecido pelas parcerias que desenvolveu com marcas de alta-costura. No piso térreo estarão expostos produtos de beleza, no primeiro andar artigos de luxo e o piso superior contemplará produtos orientados para os mais jovens. As questões do género vão marcar o ritmo da música e as representações fotográficas e filmográficas em exibição na loja, numa iniciativa que se propagará às cidades de Manchester e Birmingham, assim como às plataformas online da loja, onde os produtos serão apresentados indiscriminadamente por modelos masculinos e femininos. Perpetuando o mote do seu fundador, os armazéns Selfridge estão reconhecidamente na vanguarda das tendências do retalho. Poderá o acolhimento deste espaço, inteiramente dedicado ao vestuário unissexo, significar uma propagação da tendência ao retalho convencional? Uma mudança de mentalidade Ultrapassando a mera adoção de uma tendência, esta é uma iniciativa que reconhece a mudança de mentalidade e procura responder à transformação cultural que se opera. Os grandes armazéns londrinos reconhecem uma motivação mais profunda subjacente a este processo de transformação do que a simples resposta a uma moda passageira. A perceção face às questões do género e sexualidade tem-se transformado e a controvérsia em torno destas temáticas dilui-se progressivamente. «Há muito menos pressão sobre a conformidade dos papéis de género e sobre o uso de vestuário adequado a uma conceção típica», afirma Ken Nisch, diretor da JGA, uma empresa de estratégia de marca e design do retalho. As fronteiras no quotidiano são cada vez mais elásticas e a progressão natural parece fazer transitar essas questões para o universo da moda, que passará a abarcar conceções novas mas duradouras. «Neutralidade de géneros é apenas a ponta do iceberg», acredita Colin Melia, diretor criativo da consultora de design HMKM. «É a atitude de uma geração que está a emergir. Os limites na sociedade estão em mudança e há um movimento que ultrapassa os ghettos individuais», acrescenta. Torna-se cada vez mais óbvia a necessidade das marcas incluírem este conceito, não só ao nível da conceção dos seus produtos mas também, e talvez de forma mais viável, no modo como dispõem os dois universos no espaço de loja. A segunda parte deste artigo abordará a possibilidade das temáticas da androginia e sexualidade neutra se alargarem a um público massificado e de que forma se refletem já nos espaços e conceitos de retalho.