Início Notícias Tendências

Utopias de inverno

A estação fria do próximo ano ficará marcada por um maior desejo de ligação entre a vida física e digital e um novo equilíbrio entre a confiança nos dados empíricos e os nossos instintos. Perspetivas utópicas cada vez mais diferentes que estão a emergir e a condicionar o design para o outono-inverno 2018/2019.

Conhecimento, tecnologia e design são pilares essenciais, mas numa era de mudança rápida e contínua, as visões sobre o que nos espera no futuro são muito variadas. Um panorama que o gabinete de tendências WGSN traduziu em quatro tendências – The Thinker, HumaNature, Dark Wonder e Worldhood – que acompanham o desenrolar do outono-inverno 2018/2019.

The Thinker

The Thinker

Num mundo pós-industrial, onde as novas ideias e o intelecto tomam a dianteira, os conceitos de verdade, beleza, tecnologia, trabalho e tempos livres estão em mudança. O tempo e a paciência exigida para a criação serão honrados, o estilo será estudado, a história será reavivada e o design irá assistir a um renascimento.

O foco intelectual de The Thinker, uma tendência de transição para o outono, irá levar a que os clássicos do dia a dia sejam abordados de uma forma mais atenta, focada na sua praticidade. Os designs vão refinar as ideias de funcionalismo democrático e modernismo do século XX e os produtos irão incorporar um certo sentido de história, nomeadamente com a utilização de materiais tradicionais, que irão combinar o luxo e a sensibilidade com a performance e o estilo do século XXI.

A sustentabilidade será impulsionada pela ingenuidade, com produtos feitos a partir de um único material ou processo para minimizar os desperdícios. O corte inovador irá atualizar a construção, os clássicos serão proporcionados em rácios perfeitos e o minimalismo será suavizado com o sentido de luxo discreto.

Os códigos de design estabelecidos serão desafiados por um pensamento idealista e pouco ortodoxo, com um foco maior na liberdade e na autoexpressão. O rebelde e o romântico vão combinar-se, resultando em interpretações inesperadas e por vezes surreais dos clássicos. Uma subcorrente subtilmente boémia irá igualmente fazer parte desta tendência, que abarcará têxteis opulentos renovados com formas e estilos minimalistas e as referências clássicas serão reimaginadas com materiais ultramodernos.

HumaNature

HumaNature

Avançando mais na estação, é a intuição que vai dominar. Com a economia a dever abrandar, o instinto de muitos será pensar a longo prazo, desenvolver recursos sustentáveis e olhar para a natureza e para outras espécies em busca de soluções, gerando uma nova simbiose entre humanos e mundo natural.

Os consumidores vão procurar novas sensações, sentimentos e palavras para os expressar. O projeto Room Tone de Hussein Chalayan explora a ideia de emoções reprimidas com recurso a tecnologia wearable, que deteta emoções através de parâmetros biométricos e projeta os dados numa parede para todos verem.

Vai emergir, segundo o WGSN, uma direção utilitária, impulsionada por uma crescente procura por produtos pensados para viagens globais, mudanças climáticas e estilos de vida estimulados pela experiência. Métodos arcaicos de transportar e armazenar artigos, como embrulhar e atar, vão inspirar designs modulares e adaptáveis construídos com materiais leves. Os tecidos vão incorporar o casual e o hi-tech, com propriedades adicionais para acrescentar calor e conforto ou aumentar a performance.

O desejo de uma nova ligação com a natureza vai incentivar a procura por produtos tácteis e a crescente consciência em relação à sustentabilidade irá gerar matérias-primas obtidas a partir de resíduos naturais. Para os têxteis, ondas rústicas e aspetos naturais irão conferir uma sensação de sensualidade selvagem, nomeadamente quando aplicados sobre veludos e pelos.

Culturas, técnicas e costumes de tribos nómadas serão combinados para moldar esta tendência, mas no espírito da preservação e colaboração em vez de apropriação cultural.

Dark Wonder

Dark Wonder

Em 2019, a condição humana vai ser ultrapassada para um nível híper-humano. O poder dos dados e da inteligência artificial vai transformar, para melhor, a nossa vida, acredita o WGSN, com um sentimento ao mesmo tempo de fascínio e de medo pelo terramoto provocado pela realidade virtual e pela realidade aumentada.

Os designs que estimulam os cinco sentidos vão tornar-se o foco de produtos e espaços, com a economia da experiência a crescer. O designer de calçado Benjamin John Hall traz a ideia de fetiche futuro para o produto, criando calçado conceptual que vive, respira, mexe-se e interage.

Esta é a tendência que serve ainda o vestuário de noite, onde submundos misteriosos irão inspirar uma sensação de decadência e luxo. Os materiais mudam através de adornos reais e virtuais e resíduos como pigmentos de toner serão elevados quando colocados em resina e glitter e plásticos irão ser transpostos em texturas preciosas e joias para uma ornamentação extrema.

No vestuário, as inovações na construção irão levar a que a impressão 3D e o corte a laser sejam feitos em modelos virtuais, conduzindo a uma direção de design de alta tecnologia e individualizada para artigos de luxo, que irá ser também eminentemente sustentável.

Os básicos do quotidiano serão alterados e vão assumir um lado mais fetichista, com materiais como vinil e couro, com uma construção moldada ao corpo, provocadora e plena de detalhes.

Worldhood

Worldhood

A caminho da primavera, a cultura assumirá o papel principal, embora com um sentido mais aberto, que levará ao design “todo-inclusivo”, para uma época em que o design é por todos e para todos.

Alguns designers estão já à frente: o Open Style Lab trabalhou com designers, terapeutas ocupacionais e engenheiros para criar o casaco Rayn, que pode ser usado por ciclistas ou pessoas em cadeiras de rodas, e Tommy Hilfiger fez uma parceria com a Runway of Dreams para criar uma linha de vestuário infantil adaptável para crianças com problemas de mobilidade.

Das passerelles para as ruas, a influência da cultura de rua continuará a imiscuir-se na moda, mas as urbes ocidentais deixarão de ser a única inspiração, com cidades como Luanda e o seu estilo musical Kuduro a darem um colorido diferente, com tons e padrões fortes a invadirem as propostas de vestuário.

Cores e texturas citadinas irão, de resto, galvanizar esta direção de design, que refresca o vestuário de trabalho e objetos urbanos. Cones de trânsito, redes e superfícies asfálticas irão transformar-se em materiais compósitos, superfícies industriais e acabamentos plásticos.

As comunidades locais e mundiais vão ser mais unificadas através de um estilo que articula padrões gráficos e cores para uma fusão de rua otimista e multi-local. Os padrões culturais serão reapropriados e os materiais combinarão o natural com o sintético para uma tendência de design inovadora e cheia de recursos.

As influências retro dos anos 70 aos anos 90 serão conjugadas para uma direção jovial, descontraída, com uma abordagem fresca a proporções vintage e materiais conhecidos, expressando a nostalgia através de cores quentes e texturas confortáveis.