Início Notícias Têxtil

Uzbequistão apela ao fim do boicote

Com a economia afetada pela pandemia de Covid-19, o Governo uzbeque pediu aos produtores, marcas e retalhistas de vestuário que tenham em consideração os esforços desenvolvidos para acabar com o trabalho forçado e coloquem um ponto final no boicote ao algodão e têxteis do país.

O Uzbequistão apelou esta semana, à coligação de grupos de direitos humanos, que ponha fim ao boicote do algodão e têxteis uzbeques, para permitir que o país da Ásia Central aumente o volume de negócios e possa criar emprego numa altura em que o mundo se preparar para uma grave recessão.

O governo estima que o fim do boicote, que é apoiado por mais de 300 produtores e retalhistas de vestuário, pode permitir ao país arrecadar mais mil milhões de dólares (cerca de 918 milhões de euros) com a venda de algodão e têxteis aos mercados ocidentais.

Numa carta aberta aos líderes da Cotton Campaign, o ministro do Trabalho do Uzbequistão, Nozim Khusanov, pediu para que seja tido em consideração o progresso do país para acabar com o trabalho forçado, assim como as circunstâncias económicas atuais.

«Levantar o boicote ao algodão é uma das poucas medidas que podem gerar rapidamente os muito necessários postos de trabalho e apoiar o bem-estar económico dos uzbeques durante a crise do Covid-19», afirmou o Governo.

«Atualmente, o mercado laboral do Uzbequistão enfrenta uma pressão extraordinária. Mais de 1,5 milhões de uzbeques estão desempregados. Com o país em confinamento, estimamos que cerca de 150 mil cidadãos já perderam o seu posto de trabalho e mais de 140 mil trabalhadores migrantes regressaram a casa sem uma fonte de rendimento. Mais de 200 mil uzbeques caíram agora abaixo da linha de pobreza. Empresas estatais, sector privado e mercado laboral no geral estão a tentar adaptar-se às novas condições, mas a economia nacional vai ter dificuldade em gerar os muito necessários empregos. Aqui, a vossa decisão de pôr fim ao boicote ao algodão seria essencial», explicou.

«Só a produção têxtil emprega 200 mil pessoas no Uzbequistão. Os seus salários apoiam o sustento de um milhão de pessoas», apontou.

O Governo do Uzbequistão revelou que espera aumentar as exportações têxteis para 3 mil milhões de dólares este ano, em comparação com os 2 mil milhões de dólares de 2019, mas se o boicote for levantado, o volume de exportação pode duplicar em termos anuais.

«A retoma das exportações para a União Europeia e os EUA pode também ter um papel importante na resposta global ao Covid-19. Os produtores têxteis do Uzbequistão já se mobilizaram, num período de tempo curto, para conseguir aumentar 10 vezes mais a produção de equipamentos de proteção individual para o mercado doméstico. Máscaras, batas cirúrgicas e outras formas de EPIs fabricadas com têxteis uzbeques podem potencialmente ajudar a responder à escassez mundial», sublinhou.

Menos trabalho forçado

A campanha de boicote foi lançada em 2006 numa tentativa de forçar o Uzbequistão a abandonar uma prática remota de enviar estudantes e funcionários do sector público, incluindo professores e médicos, para a colheita do algodão com remuneração insuficiente.

Shavkat Mirziyoyev

A campanha foi apoiada por players como a Amazon, a Calvin Klein, a Adidas e a Inditex e, hoje, o país de 34 milhões de pessoas vende o seu algodão e têxteis sobretudo para mercados asiáticos, o que, indica, significa preços mais baixos e oportunidades de crescimento limitadas.

O presidente Shavkat Mirziyoyev, que assumiu a liderança em 2016, tem desmantelado gradualmente o sistema de trabalho forçado, proibindo explicitamente as autoridades locais de mobilizar estudantes e trabalhadores da administração pública para a colheita do algodão.

No passado mês de março, assinou um decreto a abolir o sistema sob o qual as províncias estavam obrigadas a cumprir objetivos de produção de algodão estabelecidos pelo governo central. Também eliminou a obrigação dos agricultores participarem na produção de algodão, o que, referem os especialistas, poderá conferir mais flexibilidade para a plantação de outro tipo de colheitas.

Em fevereiro último, a Organização Internacional de Trabalho (OIT) concluiu que a utilização contínua e sistémica de trabalho infantil e trabalho forçado no Uzbequistão acabou. Apesar disso, afiançou que 102 mil trabalhadores foram forçados a participar na colheita de 2019 – um número ainda assim 40% inferior ao registado em 2018. E o recrutamento involuntário de trabalhadores de instituições públicas e empresas ainda ocorre a nível local.

As melhorias resultaram dos maiores esforços por parte do Governo central para implementar a lei: o número de inspetores duplicou de 200 para 400 e 1.282 casos de trabalho forçado foram investigados. Em janeiro, Mirziyoyev assinou ainda nova legislação que criminaliza o trabalho forçado.

Ativistas pouco convencidos

A Cotton Campaign tem ainda de responder ao pedido do Governo uzbeque, mas as declarações de alguns dos seus líderes deixam antever que consideram essa ação prematura.

«A questão é menos se deve ser posto fim ao boicote – mas quando e como – e, acima de tudo, como é que isso pode tornar-se um catalisador para o aprovisionamento responsável e investimento na reforma do Uzbequistão», esclareceu o cofundador da Cotton Campaign, Bennett Freeman, citado pela Reuters.

Já Nate Herman, vice-presidente sénior da American Apparel and Footwear Association, defendeu que são necessárias «garantias adicionais» de proteção dos trabalhadores. «Reconhecemos e estamos sensibilizados com o progresso histórico que o Uzbequistão fez para acabar com o trabalho forçado e os membros [da Cotton Campaign] estão ansiosos por poderem considerar aprovisionar-se no Uzbequistão», assegurou.

«Contudo, tendo em conta as políticas das marcas de tolerância zero para com o trabalho forçado, exigências legais anti-escravatura e a conclusão da Organização Internacional do Trabalho de que mais de 100 mil pessoas estiveram envolvidas em trabalho forçado na colheita de algodão de 2019 no Uzbequistão, as marcas precisam de garantias adicionais de proteção dos trabalhadores. Apesar da atual pandemia mundial, essas garantias são essenciais para os nossos membros», concluiu.